Morre Amelinha Teles, símbolo da luta contra a ditadura e pelos direitos das mulheres
Fonte: brasil247.com | Data: 15/09/2026 14:35:44
247 – Maria Amélia de Almeida Teles, a Amelinha Teles, morreu nesta terça-feira (15). Jornalista, escritora, militante feminista e ativista dos direitos humanos, ela se tornou uma das principais referências brasileiras na luta contra a ditadura militar e na defesa da memória, da verdade e da responsabilização por crimes cometidos durante o período autoritário.
Segundo o Brasil de Fato, Amelinha foi presa e torturada durante a ditadura, participou da resistência clandestina ao regime e, depois da redemocratização, manteve uma atuação permanente em defesa dos direitos das mulheres, dos familiares de mortos e desaparecidos políticos e das vítimas da repressão.
O velório será realizado nesta quarta-feira (16), das 12h às 17h, no Cemitério da Vila Formosa, na zona leste de São Paulo.
Nascida em Contagem, em Minas Gerais, Amelinha iniciou ainda jovem sua militância política. Integrante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), participou da resistência clandestina contra a ditadura instalada após o golpe de 1964.
Prisão, tortura e violência contra a família
Em 28 de dezembro de 1972, Amelinha foi presa em São Paulo e encaminhada para instalações da Operação Bandeirantes (Oban) e do DOI-Codi, aparelhos centrais da repressão política durante a ditadura.
Durante o período em que esteve detida, sofreu torturas físicas e violência sexual praticadas pelo então coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.
A repressão também atingiu diretamente seus filhos. Edson e Janaína, que tinham quatro e cinco anos, foram sequestrados e levados ao centro de repressão, onde foram obrigados a presenciar a violência praticada contra os pais.
Após deixar a prisão política, Amelinha transformou a denúncia das violações cometidas pelo Estado em uma das principais frentes de sua atuação pública. Passou a participar de movimentos pela localização de mortos e desaparecidos, pela preservação da memória da ditadura e pela responsabilização de agentes envolvidos em torturas.
Atuação histórica no movimento feminista
A defesa dos direitos das mulheres tornou-se outro eixo central da trajetória de Amelinha. Em 1984, ela fundou a União de Mulheres de São Paulo.
Durante os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte, participou do chamado “Lobby do Batom”, articulação de mulheres que pressionou pela incorporação de garantias de igualdade entre homens e mulheres no texto da Constituição de 1988.
Dez anos depois, em 1994, Amelinha idealizou o projeto Promotoras Legais Populares, voltado à formação jurídica de mulheres e lideranças comunitárias. A iniciativa posteriormente se espalhou por diferentes municípios do país.
Sua atuação também alcançou as instituições criadas para investigar os crimes da ditadura. Amelinha foi assessora da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva” e integrou a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos.
Ação contra Ustra marcou luta por responsabilização
Em 2005, integrantes da família Teles ajuizaram uma ação declaratória contra Carlos Alberto Brilhante Ustra em razão das torturas sofridas durante a ditadura.
Em 2008, uma decisão judicial reconheceu Ustra como torturador, tornando-o o primeiro agente do Estado brasileiro a receber formalmente essa classificação pela Justiça em processo relacionado aos crimes cometidos durante o regime militar. A decisão foi posteriormente confirmada em instâncias superiores.
O processo tornou-se um marco na disputa por reconhecimento e responsabilização das violações praticadas por agentes do Estado durante a ditadura.
Boulos destaca legado de coragem e luta por justiça
A morte de Amelinha provocou manifestações de ministros, parlamentares e outras lideranças políticas.
O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, destacou a importância histórica da militante.
“Amelinha foi dessas pessoas que deixam uma marca profunda na história e na vida de quem teve a oportunidade de conhecer sua trajetória. Sua coragem diante da violência da ditadura, sua luta incansável pelas mulheres, pelos direitos humanos, pela memória, pela verdade e pela justiça são um legado imenso para o nosso país”, escreveu Boulos.
O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, lembrou a violência sofrida por Amelinha durante a ditadura e prestou solidariedade aos familiares.
“Por sua luta em defesa da democracia e dos direitos humanos, Amelinha foi presa e torturada barbaramente por agentes do DOI-Codi durante a ditadura militar. Que Deus conforte familiares e amigos. Descanse em paz, companheira”, publicou.
Parlamentares lembram trajetória no feminismo e na democracia
A deputada federal Erika Hilton (Psol-SP) definiu Amelinha como “uma lutadora imparável pelos direitos das mulheres e uma voz inigualável no combate à ditadura militar e pela condenação de seus perpetradores e torturadores”.
Segundo a parlamentar, Amelinha “é uma inspiração para o nosso país e marcou a história da nossa democracia”.
A deputada Sâmia Bomfim (Psol-SP), responsável pela orelha do livro “Contos da Cela Três: Memórias de uma presa política na ditadura”, também ressaltou a dimensão histórica da atuação da militante.
“Uma mulher histórica, referência para tantas gerações que lutam pela vida das mulheres e pela democracia. Sua história de resistência à tortura e combate à ditadura é uma das mais importantes da história brasileira. Serei sempre grata pelo carinho, afeto e ensinamentos dessa grande mulher”, afirmou.
A deputada Natália Bonavides (PT-RN) classificou Amelinha como uma “gigante da luta pela democracia”.
“Presa e torturada pela ditadura, fez da vida uma luta por memória, verdade e justiça. Que honra ter te conhecido nos caminhos da luta. Seguiremos firmes por eles. Amelinha Teles, presente”, escreveu.
O deputado federal e ex-ministro Paulo Teixeira (PT-SP) observou que a morte ocorreu no Dia Internacional da Democracia e destacou a contribuição da militante para a defesa dos direitos das mulheres.
“Transformou cada segundo de sua vida em luta por direitos, especialmente das mulheres. Fundou a União de Mulheres de São Paulo, integrou a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e, até os últimos dias, seguiu levantando a voz pelo que defendia. Falar da história da democracia no Brasil é falar de Amelinha”, afirmou.
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