Curtailment cresce e amplia desperdício de energia renovável
Fonte: newblogs.correiobraziliense.com.br | Data: 16/09/2026 16:33:45
Cortes de geração solar e eólica acima de 60% ocorreram em 51 dias entre janeiro e agosto de 2026, segundo levantamento da Volt Robotics. O número equivale a um episódio crítico a cada cinco dias e supera os 30 dias registrados no mesmo período de 2025. Em 12 ocasiões neste ano, a redução chegou a 80% da energia disponível.
O chamado curtailment ocorre quando o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) determina que uma usina gere menos energia do que poderia produzir. Entre janeiro e agosto, o volume médio de geração solar e eólica cortada alcançou 3.853 MWh médios, alta de 18,3% em relação ao mesmo período de 2025. Segundo a estimativa da consultoria, o volume seria suficiente para abastecer, no período, as residências de São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza.
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O aumento dos cortes também veio acompanhado de uma mudança na composição das restrições. Em 2026, 67% dos cortes analisados pela Volt Robotics foram classificados como de razão energética, ante 49% em 2025 e 21% em 2024. Essa categoria está associada ao excesso de geração em relação à demanda. Também há cortes provocados por limitações da transmissão e por requisitos de confiabilidade da rede.
Para a consultoria, a classificação energética não é suficiente para explicar a origem de cada ocorrência. Um mesmo corte pode estar relacionado a sobreoferta, gargalos de transmissão, inflexibilidade de usinas convencionais, necessidade de serviços de segurança elétrica ou desvios de previsão de geração e consumo. Identificar a restrição que efetivamente limita o sistema é relevante para definir quais investimentos podem reduzir o desperdício.
Domingos
Os domingos aparecem entre os exemplos de episódios extremos de curtailment. Em 10 de agosto de 2025, Dia dos Pais, os cortes chegaram perto de 100% da geração solar e eólica disponível em alguns momentos. A ocorrência não foi explicada por uma produção excepcional das fontes renováveis, mas pela combinação de consumo muito abaixo do previsto — com desvios próximos de 15% em determinados intervalos — e cerca de 13 GW de geração térmica em operação durante o período de menor demanda.
Outro episódio, em 4 de maio de 2025, também ocorreu em um domingo e teve cortes próximos de 95%. A geração solar e eólica estava dentro das faixas observadas em outros domingos, enquanto a demanda era relativamente baixa e havia cerca de 8 GW de geração térmica. Os casos mostram que cortes elevados podem resultar de diferentes combinações de fatores e não necessariamente de uma produção renovável excepcional.
Impacto econômico
O problema tem também dimensão econômica. De outubro de 2021 a agosto de 2026, a Volt Robotics estima que pelo menos 73,4 milhões de MWh de geração eólica e solar tenham sido cortados. A energia corresponderia a R$ 8,6 bilhões quando valorada pelo Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) e a R$ 13,1 bilhões segundo uma modelagem contratual feita pela consultoria. Os valores são estimativas e não representam obrigações ou compensações oficialmente reconhecidas.
O avanço do curtailment expõe um desafio para a expansão das fontes renováveis. Aumentar a capacidade instalada não garante, por si só, o aproveitamento de toda a energia produzida. As experiências analisadas no exterior mostram respostas diferentes conforme a causa do problema, incluindo expansão da transmissão, flexibilização de usinas convencionais, armazenamento e equipamentos destinados à estabilidade da rede.
No Brasil, a discussão envolve definir onde estão as restrições e quais medidas conseguem removê-las. Entre as alternativas estão reforços de transmissão, baterias, resposta da demanda, melhoria das previsões, despacho intradiário e equipamentos para dar suporte à estabilidade do sistema. Segundo a Volt Robotics, a definição dos investimentos depende de uma reconstrução mais detalhada das causas de cada evento de corte.
