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Cai o diagnóstico de ansiedade e depressão entre os médicos no Brasil, mostra novo levantamento

Fonte: oglobo.globo.com | Data: 18/09/2026 04:49:38

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Caiu o número de médicos com transtornos mentais entre os médicos no país no último ano. É o que mostra um levantamento inédito conduzido no primeiro semestre de 2026. O diagnóstico de ansiedade, para se ter ideia, teve uma queda de 39% para 33%. Depressão, de 25% para 22%.

Uma das hipóteses dos pesquisadores para explicar esse cenário atípico entre as profissões com os maiores índices de problemas mentais, é o aumento na prática de atividade física entre esse grupo de profissionais. A pesquisa mostra que a parcela de médicos que nunca pratica atividade física regular caiu de 25% para 18% entre o segundo semestre de 2025 e o primeiro semestre de 2026. A prática constante também avançou, passando de 14% para 18% no período.

— Um ponto positivo e que talvez sustente um pouco dessa narrativa, é que também observamos uma melhora em termos de adoção de práticas de autocuidado, de uma maneira geral, principalmente para a atividade física. Temos visto um movimento, não só na medicina, mas na sociedade como um todo, para a adoção de práticas regulares de atividade física — diz Eduardo Moura, diretor do Research & Innovation Center da Afya, instituição que coordenou o levantamento.

A percepção de aumento do estresse também perdeu força. A parcela que concorda, total ou parcialmente, que seu nível de estresse está maior do que há 12 meses recuou de 53% para 49% entre o segundo semestre de 2025 e o primeiro semestre de 2026. O estudo ouviu 453 médicos de instituições públicas e privadas, assim como de diferentes gêneros, formações, idades e tempos de atuação, em todas as regiões do país.

Disparidade de gênero

Os dados também mostram que os avanços não ocorrem de forma homogênea entre homens e mulheres. A proporção de médicos do gênero masculino que relata algum diagnóstico de doença mental caiu de 37%, no segundo semestre de 2025, para 30% no primeiro semestre de 2026.

Entre as médicas, o indicador recuou de 53% para 49% no mesmo período. Ao longo das quatro edições, a proporção de médicas com diagnóstico de doença mental foi consistentemente superior à dos médicos.

As mulheres têm uma menor resistência em buscar tratamento, o que significa que “pode haver um subdiagnóstico no público masculino”, segundo Moura.

— Ainda assim, há motivos para entender que a mulher é mais suscetível à doença mental, justamente por essa maior carga de conciliação entre a rotina doméstica e a de trabalho — avalia o diretor do Research & Innovation Center da Afya.

A médica endocrinologista Julia Terra, de 34 anos, foi diagnosticada com transtorno de ansiedade na faculdade e até hoje faz acompanhamento médico e psicoterápico.

— Minhas crises de ansiedade começaram a aparecer no período do internato, quando começamos a ir para hospital, aplicar na prática o que aprendemos — conta Julia. — Eu começava a ter o coração acelerado, sudorese, calor, respiração ofegante e sempre era relacionado a alguma questão ou problema que eu tinha naquele momento, por exemplo, atender um paciente grave.

A médica então procurou a ajuda de terapia, que faz até hoje. Ela conta que ao longo desse período já recebeu alta e trocou algumas vezes de analista e de linha terapêutica, mas nunca abandonou o tratamento.

Mesmo fazendo acompanhamento psicológico rotineiramente, no ano passado, a terapeuta sinalizou que Julia deveria procurar um psiquiatra.

— Eu nunca tinha tomado medicamento para tratar a ansiedade, mas foram momentos da minha vida que me exigiram mais, tanto no trabalho, quanto na vida pessoal. Eu mesma era um pouco resistente à medicação, mas entendi que naquele momento, era necessário — diz.

Hoje, ela está melhor e já começou a diminuir a dose. Além da terapia contínua e da medicação quando necessário, Julia também pratica exercícios físicos rotineiramente e diz que isso faz toda a diferença.

— A atividade física tem que entrar na rotina. Ela promove a liberação de hormônios e nos sentimos melhor depois que praticamos.

Julia está longe de ser a única resistente a tomar medicamentos como parte de um tratamento para um transtorno de saúde mental. De acordo com Emmanuel Fortes, 1° vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM) e coordenador da Câmara Técnica de Psiquiatra, ainda existe uma série de estigmas de “que tomar medicamento não é adequado”.

— Tratar da doença mental é fundamental — pontua Fortes. — Uma prescrição médica está reinvestida nos cuidados necessários para reestabelecer um bom funcionamento mental.

Apesar da redução nos diagnósticos apontada pela pesquisa, o cenário ainda está longe do ideal. De acordo com a Afya, 41% dos médicos ainda convivem com algum diagnóstico de doença mental. Para fator de comparação, dados do Covitel 2023 mostram que, na população em geral, 12,7% dos brasileiros receberam diagnóstico de depressão, enquanto 26,8% receberam diagnóstico de ansiedade.

O CFM tem grande preocupação com a saúde mental dos médicos atualmente, em especial no que diz respeito a quadros de depressão e burnout. Segundo Fortes, esses quadros estão associados a uma série de fatores, incluindo condições insalubres de trabalho e cobrança extrema que levam ao aumento do estresse.

— Esse estresse leva a uma sensação de impotência, decepção e muitos médicos sofrem e adoecem mentalmente com relação a essa sensação de falta de capacidade de resolver — diz o 1° vice-presidente do CFM.

O aumento do número de médicos que concluem a faculdade sem o preparo necessário também contribui para o agravamento desse cenário.

— Temos hoje 50 mil médicos a cada ano. Não podemos atestar a qualidade de todos esses médicos para o exercício da profissão. Muitas escolas que estão formando esses médicos não têm condição sequer de estarem abertas porque não têm corpo docente, nem infraestrutura para formar. Colocar um médico onde ele não tem nenhuma capacidade de resolver os problemas, é dar a ele um passo extremo para o estresse. Isso também gera uma saturação do mercado. Não tem como abrir vagas para 50 mil médicos todo ano. Então, a gente está diante de um conjunto imenso de circunstâncias que contribuem para esse agravamento da saúde mental — afirma Fortes.

Moura também ressalta que apesar da melhora nos indicadores, o nível de estresse dos médicos continua alto: 49% afirmaram que seu nível de estresse está maior do que há 12 meses.

— Em muitas regiões, existem locais sem estrutura adequada para a boa prática da medicina, locais em que o médico acaba tendo que trabalhar com o que tem, usando as alternativas existentes para prestar a melhor assistência. Tudo acaba impactando no estresse de uma maneira geral — conclui Moura.

Qualidade de vida

Apesar da melhora nos indicadores de saúde mental, a qualidade de vida não parece ter melhorado. As respostas “boa” e “muito boa” para a percepção positiva sobre a própria qualidade de vida somaram 44% no primeiro semestre de 2026, mesmo percentual observado na edição anterior. A estabilização interrompe uma sequência de três edições de queda.

— De fato, não temos nenhum parâmetro específico para explicar por que não houve essa melhora geral na qualidade de vida do médico. Esse é um dado baseado na percepção e quando falamos de qualidade de vida, isso está associado à adoção de bons hábitos de vida e de comportamento social — esclarece Moura.