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O CV decidindo quem pode fazer campanha: como uma facção carioca virou ator político nas eleições do Ceará

Fonte: ocafezinho.com | Data: 18/09/2026 12:20:07

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Há uma pergunta que a Justiça Eleitoral cearense está tentando responder às pressas, a menos de um mês da votação de outubro: em quantos municípios do estado o Comando Vermelho já decide, na prática, quem pode ou não pedir voto na rua? A resposta que vem se formando ao longo de 2026, operação após operação, prisão após prisão, é desconfortável demais para ser tratada como exceção pontual.

O mecanismo tem nome dado pela própria facção: “salve”, um comunicado emitido por chefes locais, muitas vezes transmitidos remotamente do Rio de Janeiro, avisando comunidades inteiras que determinado candidato está proibido de circular, fazer carreata, distribuir material ou realizar comício sem autorização prévia, e mediante pagamento. A imprensa e o Ministério Público batizaram a prática de “pedágio eleitoral”. Funciona como taxação armada da própria democracia: quem quer pedir voto numa área sob domínio do CV precisa negociar o preço da entrada com quem manda ali de fato.

O caso mais bem documentado até agora é o de Sobral, terra política dos irmãos Ciro e Cid Gomes. A Operação Omertá, deflagrada em 11 de agosto pelo Ministério Público do Ceará em conjunto com a Força Integrada de Combate ao Crime Organizado, prendeu três vereadores, Carlos do Calisto (PSB), Mário Vicktor (União) e Juninho do Povo (Podemos), além de um assessor jurídico da Câmara Municipal e integrantes da facção.

Segundo o promotor Igor Pinheiro, coordenador do Grupo Auxiliar Eleitoral do MPCE, candidatos que hoje disputam a eleição de 2026 já relataram ameaças e extorsões que chegaram a provocar cancelamento de eventos políticos em julho. A tarifa identificada em Sobral seguia tabela própria: candidatos sem mandato pagariam cerca de R$ 30 mil, e quem já ocupava cargo eletivo, R$ 60 mil, para ter autorização de fazer campanha em determinados bairros. A apuração aponta que a estrutura já vinha atuando desde a eleição municipal de 2024, quando teria, inclusive, apoiado a campanha vitoriosa de um candidato a vereador.

Onze dias depois, em Forquilha, cidade vizinha na região Norte, a tarifa apareceu multiplicada por cinco. A Polícia Civil prendeu dois suspeitos por exigir R$ 200 mil, com relatos de cobrança mensal que chegariam a R$ 300 mil, para autorizar candidatos a circular pela cidade. A ordem, segundo a investigação, partiu diretamente de um integrante da facção escondido no Rio de Janeiro. Dias depois, a Operação Arquipélago 2 prendeu mais oito suspeitos ligados a uma célula do CV atuando em Forquilha e municípios próximos, um deles localizado escondido num hospital carioca.

O mapa não parou de crescer. Em Maracanaú, na Região Metropolitana de Fortaleza, uma mulher de 25 anos foi presa por coletar informações sobre vítimas e repassá-las a integrantes da facção refugiados no Rio. Em Capistrano, no Maciço de Baturité, houve prisão pelo mesmo tipo de colaboração. Relatos nas redes sociais também apontaram interferência em Santana do Acaraú, incluindo um episódio em que tiros foram disparados durante evento político. Em Itapipoca, embora por mecanismo distinto, o comprometimento entre gestão pública e resultado eleitoral também apareceu: o prefeito da cidade foi flagrado em vídeo condicionando a entrega de uma estrada rural ao desempenho eleitoral da própria esposa, candidata a deputada estadual, episódio que, embora não envolva diretamente o CV, mostra como o ambiente de coação política já não se restringe apenas ao crime organizado armado.

Fortaleza, a capital, deixou de ser exceção há tempos. Em Messejana, o Ministério Público denunciou três homens por tentar assumir o controle administrativo informal de um condomínio residencial de classe média, ditando aos moradores quais empresas de gás, água e internet poderiam contratar, o mesmo tipo de imposição que especialistas classificam como “cybercangaço”, quando a facção decide quem presta serviço essencial numa área e expulsa concorrentes à força. Esse tipo de controle sobre a rotina econômica cotidiana é precisamente o que caracteriza domínio territorial consolidado, e não apenas presença criminosa esporádica.

O precedente mais grave, porém, já não é hipótese, é fato julgado. Em março deste ano, o TSE cassou os mandatos do prefeito José Braga Barrozo e do vice Francisco Gardel, de Santa Quitéria, por entender que a chapa eleita em 2024 usou a estrutura do Comando Vermelho para intimidar eleitores e adversários durante a campanha. É a prova documental de que a facção não apenas cobra pedágio de candidatos avulsos, mas pode operar como braço armado de campanhas específicas, decidindo quem vence e não apenas quem pode competir.

Esse quadro de 2026 não nasceu do nada. O Comando Vermelho chegou a Fortaleza por volta de 2015 e expandiu para o interior e o litoral cearense entre 2016 e 2017, segundo levantamento de policiais especializados no tema. Em pouco mais de uma década, a facção passou de presença emergente a força dominante: um relatório da Polícia Civil, revelado pela revista Veja em agosto, aponta que o CV hoje atua em 80% dos municípios cearenses, percentual que, segundo especialistas da Universidade Federal do Ceará, já pode ter chegado a 90%.

É uma proporção maior do que a própria facção controla no Rio de Janeiro, seu berço histórico, onde a Polícia Militar estima domínio territorial em 76% do solo. “Há pelo menos uma década as facções nacionais tentam conquistar o Norte e o Nordeste, mas é a primeira vez que se vê um domínio desta grandeza no Ceará”, resumiu o sociólogo Artur Pires, do Laboratório de Estudos da Violência da UFC, à revista.

Essa escala ajuda a explicar por que o fenômeno eleitoral de 2026 é tão mais amplo do que o de 2024. Ricardo Moura, pesquisador do mesmo laboratório da UFC, descreve a situação com um conceito acadêmico específico: “governança criminal”, quando moradores de uma região precisam simultaneamente obedecer às regras do Estado e às regras impostas por grupos armados. Moura pondera que ainda falta um levantamento completo para dimensionar exatamente quantos municípios e bairros estão sob esse tipo de interferência, mas é categórico sobre a gravidade do que já está provado: mesmo que a lista de locais afetados seja pequena diante do total de municípios cearenses, a prática tem potencial concreto de alterar resultado de eleição, “uma afronta muito grande à democracia”.

O contraste entre esse acúmulo de evidências, relatório policial, condenação do TSE, prisões sucessivas, delação sobre pedágio em ao menos quatro municípios distintos, e o discurso público do governo estadual segue sendo o nó mais desconfortável de toda essa história. O governador Elmano de Freitas, candidato à reeleição, respondeu ao noticiário afirmando confiar no trabalho das forças estaduais e sinalizando que “toda cooperação federal é bem-vinda”, mas mantém publicamente a posição de que não existe domínio territorial de facções no Ceará, apenas atuação criminosa dispersa. É uma distinção que a cada nova operação, a cada novo “salve” documentado, a cada novo valor milionário de pedágio revelado, fica mais difícil sustentar sem soar como recusa deliberada em nomear o problema em sua real extensão.

O que está em jogo em outubro, portanto, não é apenas escolher entre projetos de governo concorrentes. É verificar se o Estado brasileiro ainda consegue garantir, em pelo menos parte do interior e da capital cearense, o direito mais básico de qualquer democracia: que um candidato possa pedir voto sem precisar, antes, pagar pedágio a quem manda de verdade na rua.