Burnout atinge quase metade dos médicos de UTI no Brasil, aponta estudo
Fonte: saobentoemfoco.com.br | Data: 18/09/2026 12:39:15
Um levantamento inédito revela um cenário crítico para a saúde mental dos profissionais que atuam na linha de frente do atendimento intensivo no país. Segundo o Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho Médica das UTIs Brasileiras, realizado pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM), 48,5% dos médicos intensivistas apresentam níveis elevados de esgotamento mental e emocional.
O estudo, que ouviu 2.338 profissionais em todas as unidades da federação, aponta que a síndrome de burnout — caracterizada pela exaustão extrema e distanciamento afetivo — tornou-se uma ameaça real à qualidade da assistência médica. Além do esgotamento, 46,4% dos entrevistados relataram baixa satisfação com suas atividades profissionais, evidenciando um descontentamento que permeia a rotina hospitalar.
Impactos do esgotamento na rotina das UTIs
Os dados detalham que 79,7% dos médicos necessitam de atenção voltada à saúde emocional, sendo que quase metade da amostra total encontra-se em patamares críticos de desgaste. A Amib atribui esse quadro à combinação de jornadas exaustivas, exposição contínua a situações de dor e morte, e a precariedade da infraestrutura em diversas unidades de saúde.
A pressão por decisões rápidas e precisas, somada à demanda crescente da população por cuidados, cria um ambiente de alta vulnerabilidade. O diretor de Comunicação do CFM, Estevam Rivello, destacou que o estresse é agravado pelas disparidades entre os sistemas público e privado. Segundo Rivello, o setor público impõe maior sobrecarga ao profissional, que frequentemente lida com remunerações inferiores e múltiplos vínculos empregatícios.
Despersonalização e o risco ao atendimento humanizado
O estudo também aborda o fenômeno da despersonalização, presente em 45,6% dos intensivistas. Esse comportamento, que se manifesta por meio de atitudes frias ou cínicas, representa um obstáculo direto à humanização do cuidado e à comunicação eficiente entre as equipes multidisciplinares.
A análise da Amib reforça que o distanciamento emocional compromete a dinâmica assistencial. Enquanto 29,6% dos médicos apresentam níveis moderados de despersonalização, 16% relatam níveis elevados, o que exige intervenções urgentes para preservar tanto a saúde do trabalhador quanto a segurança do paciente.
A importância da especialização no bem-estar médico
Um dos achados mais relevantes da pesquisa disponível na Agência Brasil é a correlação entre a formação técnica e a resiliência profissional. Médicos com maior grau de especialização demonstraram, consistentemente, menores níveis de esgotamento e maior realização pessoal em comparação aos generalistas que atuam no ambiente intensivo.
Os números mostram que, entre os generalistas, a insatisfação atinge 50,7%, enquanto o esgotamento emocional chega a 52,3%. Diante desse cenário, as entidades médicas defendem que a saúde mental não pode ser tratada como pauta secundária, exigindo políticas públicas prioritárias que envolvam gestores e autoridades de saúde para mitigar os danos à força de trabalho médica.