Opinião | Brasília 2026: ‘Sabes de Mim, Agora Esqueça’, distopia e conteúdo sexual
Fonte: estadao.com.br | Data: 19/09/2026 12:05:09
Brasília 2026: ‘Sabes de Mim, Agora Esqueça’, distopia e conteúdo sexual

BRASÍLIA – Uma boa surpresa com o último longa concorrente, Sabes de Mim, Agora Esqueça, de Denise Vieira, do Distrito Federal. Evoca uma distopia social, o que não chega a ser novidade nesta época de distopias tanto reais como cinematográficas. Mas vale-se de imagens de forte conteúdo sexual – e heterossexual, ainda por cima, modalidade praticamente banida do cinema brasileiro atual.
Rubia (Pietra Sousa) estava em fuga quando o trem quebrou e ela é resgatada por Margô (Cida Souza), dona de um bordel local, ao qual a fugitiva se incorpora. De que fugia Rubia? Dos “Lanternas”, figuras da repressão que, com o instrumento em punho, varam noites em busca de garotas como ela. São vigilantes da moralidade, nesse Brasil distópico que se anuncia. A história se passa em Ceilândia, nos arredores do Plano Piloto de Brasília.
O ambiente é o do bordel de dona Margô, em que as profissionais atendem aos clientes e conversam nas horas vagas. O filme é bastante explícito nas cenas de sexo. Mas é também aberto às aspirações e ideias de cada uma das moças que lá exercem. As subjetividades das profissionais estão em jogo.
O bordel é uma ambiência em si. Claustrofóbica, com corredores estreitos e ameaçadores. Abriga um segredo, que não se pode desvendar. E se lembra, em certos momentos, um útero materno, em outros, pode parecer um portal para o inferno.
Mas reserva sequências de muito frescor, quando as moças discutem, jocosamente, detalhes do seu trabalho e do relacionamento com clientes. As falas são francas e não economizam em termos que todo mundo usa em sua fala usual, mas que costumam ser banidas no cinema. É uma sequência de puro naturalismo.
Tem também uma pegada documental em certo momento, que contextualiza um fato pouco comentado – a existência quase institucional, mas nunca assumida, de bordéis próximos às grandes obras, como construção de barragens ou na concentração de mineração como a de Serra Pelada. Na construção da Novacap nos anos 1950 foi assim também, como registrado em documentários como Brasília Segundo Feldman que, curiosamente, passou em cópia restaurada no início do festival, como parte das homenagens ao documentarista Vladimir Carvalho.
O filme não é apenas corajoso; é também inteligente, humano e se coloca como um dos candidatos possíveis aos Candangos, os prêmios do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
Aliás, estes serão conhecidos hoje, tarde de sábado. Acredito que o júri de longas terá trabalho. São vários os filmes merecedores de prêmios. Como se dará a distribuição dos Candangos? É o que veremos logo mais. O festival se encerra à noite, com a exibição do longa-metragem Verão da Lata, de Santiago Dellape.
