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China impulsiona a conexão e a cooperação entre nações através dos grandes rios

Fonte: cms.dfnamidia.com.br | Data: 19/09/2026 17:02:00

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A China tem buscado conectar diferentes povos através da relação das populações com os grandes rios do mundo. O rio Yangtzé, fundamental para a economia chinesa, foi escolhido como palco para um encontro de convidados de nações que também são cortadas por grandes rios, como o Amazonas, na América do Sul, o Nilo, na África, o Danúbio, na Europa, e o Mississippi, nos Estados Unidos.

Representado por pesquisadores e jornalistas, o Brasil teve um papel destacado na 4ª edição do Fórum da Civilização do Rio Yangtzé, realizado nesta semana em Chongqing, a cidade industrial da China, que abriga 32 milhões de habitantes.

O evento faz parte da estratégia do presidente Xi Jinping, lançada em março de 2023, conhecida como Iniciativa para a Civilização Global, que visa promover “valores comuns” da humanidade através da cooperação entre os países.

Com o tema “Conectando Rios e Mares, compartilhando a sabedoria das civilizações”, o evento deste ano reuniu especialistas, jornalistas e artistas de quase 20 nações, incluindo Egito, Sérvia, Austrália, Reino Unido, México, Turquia e Coreia do Sul.

No evento em Chongqing, também se discutiu a Rota Econômica do Rio Yangtzé, um rio de 6,3 mil quilômetros que é considerado, ao lado do rio Amarelo, um dos berços da civilização chinesa e conecta o interior da China ao porto de Xangai.

Após uma longa viagem de mais de 33 horas de Brasília a Chongqing, a Agência Brasil acompanhou o Fórum deste ano, que incluiu uma viagem em cruzeiro por cerca de 440 quilômetros pelo leito do rio Yangtzé, visitando templos e fortalezas centenárias, como a antiga fortaleza de Shibaozhai e o templo de Zhang Fei.

Pesquisadores chineses afirmam que a contribuição do Yangtzé para o desenvolvimento humano tem sido em grande parte ignorada pela historiografia ocidental. Nos últimos anos, descobertas arqueológicas na área indicam que a agricultura do arroz na região começou há quase 10 mil anos.

“Durante muito tempo, o foco da pesquisa sobre as civilizações dos grandes rios do mundo esteve na Mesopotâmia e no Nilo, moldando paradigmas analíticos e estruturas disciplinares de estilo ocidental”, declarou Li Guoqiang, professor do Instituto de História e membro do Conselho da Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS).

No evento, especialistas egípcios compartilharam experiências, incluindo o sistema de medição das águas do Nilo para prever secas e enchentes. O professor da Faculdade de Arqueologia da Universidade de Luxor, Alaa Hussein Mahmoud Menshawy, enfatizou a importância dessa troca cultural.

“A poluição, as mudanças climáticas, o crescimento populacional e as mudanças ambientais afetam tanto os rios quanto as comunidades que deles dependem. Compartilhando conhecimentos e colaborando, os países podem encontrar maneiras mais eficazes de proteger seus rios e as populações que dependem deles”, afirmou.

China, 18/09/2026 - Li Guoqiang, professor do Instituto de História e membro do Conselho da Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS). Foto: Lucas Pordeus León/Agência Brasil

Li Guoqiang, professor do Instituto de História e membro do Conselho da Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS). Foto: Lucas Pordeus León/Agência Brasil

Rio Yangtzé

O rápido desenvolvimento econômico da China nas últimas cinco décadas transformou o país de uma nação rural e empobrecida em uma potência industrial e tecnológica, mas também trouxe sérios problemas ambientais para o rio Yangtzé, o maior da Ásia.

Entre os problemas, destaca-se a extinção do golfinho Baiji, uma das três únicas espécies de golfinhos de água doce do mundo, que ocorreu em 2006.

O professor Li Guoqiang reconheceu à Agência Brasil que a China, em seu esforço por rápido crescimento econômico, seguiu caminhos “tortuosos” que prejudicaram o equilíbrio ecológico do Yangtzé, embora tenha destacado mudanças recentes.

“Atualmente, damos mais atenção ao meio ambiente, pois temos uma nova abordagem: a teoria das duas montanhas, que prioriza tanto o desenvolvimento econômico quanto a proteção ecológica”, afirmou.

Entre as ações implementadas, destaca-se a proibição da pesca profissional, vigente há dez anos, além de projetos destinados à recuperação do rio.

Civilização ecológica

Nos últimos anos, o governo chinês incorporou às suas políticas a doutrina da civilização ecológica, que visa equilibrar desenvolvimento econômico e proteção ambiental. Em 2012, esse conceito se tornou uma “prioridade nacional” e, em 2018, foi inserido na Constituição, estabelecendo-se como uma política de Estado permanente.

A professora brasileira especialista em biodiversidade, Vera Maria Ferreira da Silva, do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA), destacou no Fórum do Yangtzé que a industrialização e urbanização da China, bem como a navegação no Yangtzé, afetaram negativamente a fauna do rio.

“Houve uma mudança por parte do governo em direção à conservação e recuperação dos ambientes, pois perceberam que, se não agissem rapidamente, iriam perder tudo”, afirmou à Agência Brasil.

Brasília - 18/09/2026 - Economia da China. Foto: Agência Brasil

Arte/Agência Brasil

Rio Amazonas

Como parte do esforço para conectar as histórias dos povos ligados a grandes rios, uma equipe da mídia estatal chinesa Centro Internacional de Comunicação do Oeste da China (WCICO) viajou ao Brasil para gravar um documentário, que ainda será lançado, intitulado “Quando o Yangtzé encontra o Amazonas”, que busca narrar as histórias de comunidades ribeirinhas amazônicas e chinesas.

A produtora Vivian Yan mencionou à Agência Brasil que a diversidade de pessoas e comunidades no Amazonas a impressionou.

“Conhecê-las me fez perceber que o Rio Amazonas é muito mais vibrante e multifacetado do que aquilo que eu havia visto na televisão. Mostrou-me quão intimamente o cotidiano dessas comunidades está ligado ao rio e ao meio ambiente ao seu redor”, contou a diretora da Bridging News, responsável pelo WCICO.

A professora Vera Maria expressou à Agência Brasil a expectativa de que o Brasil aprenda com a experiência chinesa para evitar erros e reduzir impactos ambientais na exploração econômica da Amazônia.

“Não adianta trazer o modelo econômico de Minas, Goiás ou São Paulo para a Amazônia, pois isso não funcionará. Espero que evitemos chegar a um ponto extremo de destruição para então tentarmos recuperar o que foi perdido”, comentou.

A pesquisadora do INPA enfatizou a necessidade de aprender com os povos indígenas da Amazônia e apostar em economias que ajudem a manter a floresta em pé, evitando atividades prejudiciais, como a dragagem dos rios.

“A extração e o uso de plantas amazônicas, como açaí e castanha-do-Brasil, podem gerar benefícios econômicos equivalentes aos de outras atividades que causam a destruição da floresta”, afirmou.

Vera Maria lembrou que todos os mamíferos aquáticos do Rio Amazonas enfrentam, de alguma forma, a ameaça de extinção.

Outro pesquisador brasileiro presente no Fórum foi André Pereira Reinnert Tokarski, professor do Centro Universitário Alves Faria (Unialfa), que, em sua segunda visita à China, defendeu a necessidade de encontrar um “caminho do meio” para a Amazônia.

Ele destacou a polarização entre, de um lado, a exploração predatória centrada apenas no lucro imediato e, de outro, a rejeição a qualquer atividade econômica na região.

“Qualquer atividade humana causa impacto ambiental. No entanto, manter uma grande parte da população local na miséria também é um impacto socioambiental indesejado. Contraditoriamente, a Amazônia, apesar de ser a região do país com mais recursos hídricos, é a que mais consome diesel para a geração de energia”, refletiu.

*Repórter viajou a convite do Comitê Municipal do Partido Comunista Chinês (CPC) em Chongqing e da Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS).