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Câncer de pulmão exige cuidado além da prevenção

Fonte: estadao.com.br | Data: 20/09/2026 08:01:00

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O Brasil construiu uma trajetória reconhecida no controle do tabagismo, mas preservar essa conquista já não basta para enfrentar o câncer de pulmão. O próximo passo passa por identificar a doença mais cedo e garantir uma rede capaz de conduzir o paciente da suspeita ao tratamento.

Precisamos instrumentalizar o médico da atenção primária para reconhecer sinais e sintomas suspeitos para o câncer de pulmão

Presidente da Aliança de Combate ao Câncer de Pulmão

Essa foi a discussão central do Brand Talk “Da prevenção ao tratamento: construindo uma linha de cuidado para o câncer de pulmão no Brasil”, do Retratos do Câncer, com o pneumologista e presidente da Aliança de Combate ao Câncer de Pulmão, Gustavo Prado, e a presidente e fundadora do Instituto Lado a Lado pela Vida, Marlene Oliveira, e mediação da jornalista Camila Silveira.

Para Marlene, novas formas de consumo de nicotina exigem comunicação capaz de alcançar os jovens. “Não podemos deixar que uma nova geração normalize aquilo que lutamos tanto para conquistar. Precisamos conhecer melhor essa nova geração e voltar a agir em bloco”, afirmou.

Chegar antes

O diagnóstico tardio ainda é um dos principais entraves. Segundo Prado, cerca de três quartos dos casos de câncer de pulmão são descobertos em estágio localmente avançado ou metastático. A própria característica da doença contribui para esse quadro: os sintomas podem demorar a aparecer ou serem confundidos com problemas respiratórios e cardiovasculares já existentes.

Por isso, para o especialista, prevenção, reconhecimento dos sinais de alerta e rastreamento de pessoas com maior risco precisam funcionar de forma coordenada. Nesse processo, a atenção primária ocupa posição estratégica. “A gente precisa instrumentalizar o médico da atenção primária para reconhecer sinais e sintomas suspeitos para o câncer de pulmão”, disse Prado.

Há ainda uma barreira menos visível. Muitos fumantes e ex-fumantes se afastam dos serviços de saúde por culpa ou receio de julgamento. Para Marlene, combater esse estigma também faz parte da estratégia de prevenção e diagnóstico.

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“O sistema de saúde não está lá para julgar as escolhas. Existe para cuidar das pessoas”, afirmou. Prado reforçou que o tabagismo deve ser encarado como uma doença crônica e que retirar sua carga moral pode aproximar pacientes dos serviços de saúde. “Se a gente não estigmatiza, conseguimos aproximar o paciente”, refletiu.

Caminho conectado

Segundo os participantes, identificar uma alteração é apenas o início. A confirmação pode exigir exames especializados e biópsias, com acesso desigual pelo País. Para Prado, é preciso aproveitar estruturas existentes e evitar que pacientes se percam no sistema.

“A suspeição é o primeiro passo”, disse. “Conectar ações que já existem, estruturas que já são extremamente robustas, como a presença e a capilaridade da atenção primária no âmbito do SUS, é uma ação que a gente vem reconhecendo como prioritária”, completou.

Um estágio 3 ou 4 não surge de um dia para o outro. Houve toda uma jornada em que nós perdemos oportunidades

Marlene Oliveira – Instituto Lado a Lado pela Vida

Marlene chamou atenção para a distância entre uma jornada bem desenhada e a experiência de quem precisa percorrê-la. “Muitas vezes, a linha de cuidado é perfeita no papel. Só que qual é o nosso desafio? Fazer com que ela seja implementada”, afirmou.

Isso inclui ouvir o paciente, oferecer informação compreensível e ajudá-lo a navegar pelo sistema. Para a presidente do Instituto Lado a Lado pela Vida, cada diagnóstico avançado também deve provocar uma pergunta sobre as oportunidades perdidas anteriormente. “Um estágio 3 ou 4 não surge de um dia para o outro. Houve toda uma jornada em que nós perdemos oportunidades”, disse.

Ao projetar os próximos passos, os dois defenderam políticas contínuas. “O Brasil precisa tomar uma decisão: se vai continuar tratando pacientes em estágio tardio ou se parte para ter um rastreamento adequado para a nossa população”, provocou Marlene. Prado defendeu ações contínuas para o diagnóstico precoce e a ampliação do acesso ao tratamento, “que sejam políticas de Estado, e não de um governo”, defendeu.