Picanha subiu 38% entre 2020 e 2022; desde 2023, alta é de 7,8%, aponta IBGE – RJ106
Fonte: jornal.rj106.com.br | Data: 21/09/2026 08:00:00
Análise técnica mostra que impostos não explicam sozinhos o preço da carne; ciclo pecuário, exportações, dólar, clima e custos de produção têm influência decisiva
O preço da carne continua pesando no orçamento das famílias brasileiras, mas uma análise detalhada dos números mostra que os diferentes cortes não se comportam da mesma forma. Enquanto patinho e acém acumulam aumentos superiores à inflação desde 2023, a picanha, a carne suína e o frango apresentam variação inferior ao IPCA no mesmo período.
Levantamento realizado pelo RJ106 com base nas variações mensais do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indica que a picanha acumulou alta de 37,99% entre janeiro de 2020 e dezembro de 2022.
Entre janeiro de 2023 e agosto de 2026, último mês disponível na série consultada, o aumento acumulado da picanha foi de 7,81%. No mesmo intervalo, a inflação geral do país alcançou 17,9%.
Isso significa que a picanha continua cara em valores nominais, mas seu preço avançou menos do que o custo de vida nos últimos anos.
Veja a variação acumulada de cada carne
| Produto | Janeiro de 2020 a dezembro de 2022 | Janeiro de 2023 a agosto de 2026 |
|---|---|---|
| Picanha | +37,99% | +7,81% |
| Contrafilé | +31,44% | +19,04% |
| Alcatra | +21,94% | +17,98% |
| Patinho | +27,93% | +24,25% |
| Acém | +32,63% | +23,05% |
| Costela | +42,78% | +14,76% |
| Carne suína | +23,29% | +6,67% |
| Frango inteiro | +51,26% | −0,67% |
| IPCA geral | +21,69% | +17,90% |
Os cálculos foram feitos por meio da composição das variações mensais divulgadas na Tabela 7060 do IPCA/IBGE. Não foi utilizada a simples soma dos percentuais, porque a inflação acumulada deve considerar o efeito composto de cada mês.
A série atual do IPCA, com a identificação individual da picanha e dos demais cortes, começa em janeiro de 2020. Por isso, não foi possível incluir 2019 mantendo a mesma classificação e metodologia.
Picanha teve queda quando descontada a inflação
A comparação nominal não mostra completamente o comportamento do preço. É necessário descontar a inflação geral para identificar se o produto ficou efetivamente mais caro em termos reais.
Entre 2020 e 2022, a picanha aumentou 37,99%, enquanto o IPCA geral acumulou 21,69%. Descontada a inflação, o corte teve valorização real aproximada de 13,4%.
No período iniciado em janeiro de 2023, ocorreu o movimento contrário. A picanha subiu 7,81%, diante de uma inflação geral de 17,9%. Em termos reais, houve redução aproximada de 8,6%.
Isso não quer dizer que o consumidor esteja pagando pouco. Significa apenas que, na média nacional pesquisada pelo IBGE, a picanha subiu menos que o conjunto de produtos e serviços consumidos pelas famílias desde 2023.
Parte do preço elevado encontrado atualmente é resultado de aumentos acumulados anteriormente. Inflação menor também não significa necessariamente queda de preços: significa que os preços continuam aumentando, mas em velocidade menor. Uma redução nominal somente ocorre quando a variação do produto fica negativa.
Frango apresentou a maior mudança
O frango inteiro teve um dos comportamentos mais marcantes. Entre janeiro de 2020 e dezembro de 2022, acumulou alta de 51,26%, a maior entre as proteínas analisadas.
Desde janeiro de 2023, entretanto, o produto acumula pequena redução nominal de 0,67%. Considerando a inflação geral do período, a queda real aproxima-se de 15,8%.
O preço do frango é particularmente sensível às cotações do milho e da soja, utilizados na fabricação de ração. Energia, embalagens, transporte refrigerado e combustíveis também influenciam diretamente o custo de produção.
Nem todas as carnes ficaram mais baratas em termos reais
O comportamento da picanha não pode ser aplicado automaticamente aos cortes mais consumidos no dia a dia.
Desde janeiro de 2023, o patinho acumula alta de 24,25%, e o acém, de 23,05%. Ambos aumentaram acima do IPCA geral de 17,9%.
Já o contrafilé subiu 19,04%, ficando pouco acima da inflação. A alcatra acumulou 17,98%, praticamente acompanhando o índice geral.
A diferença ocorre porque cada corte possui procura, disponibilidade e aproveitamento específicos dentro da carcaça. Uma picanha representa somente uma pequena parcela de cada animal, enquanto outros cortes possuem rendimento e destinação comercial diferentes.
Por que a carne sobe?
O preço encontrado no supermercado é resultado de uma cadeia extensa. Ela começa na criação do animal e passa pela alimentação, compra do boi pelo frigorífico, abate, processamento, refrigeração, transporte, distribuição e margem do varejo.
Entre os principais fatores estão:
- quantidade de animais disponíveis para abate;
- retenção ou descarte de fêmeas;
- condições das pastagens;
- preço do milho, soja e suplementos;
- custo do diesel, energia e transporte;
- cotação do dólar;
- exportações;
- demanda dos consumidores;
- margens de frigoríficos, distribuidores e supermercados.
Esses fatores podem atuar simultaneamente, tornando incorreto atribuir toda alta ou queda a uma única causa.
Ciclo pecuário é decisivo
A criação de bovinos possui um ciclo muito mais longo do que a produção de frangos ou suínos. Uma decisão tomada pelo pecuarista atualmente pode afetar a quantidade de carne disponível somente meses ou anos depois.
Quando o preço do bezerro e a expectativa de rentabilidade aumentam, criadores tendem a conservar mais fêmeas para reprodução. Essa retenção reduz o número de vacas enviadas ao abate e pode provocar diminuição da oferta de carne.
Em outro momento do ciclo, quando os pecuaristas descartam maior quantidade de matrizes, cresce o número de animais abatidos. A oferta aumenta e os preços podem recuar.
Por isso, parte significativa das oscilações da carne bovina atravessa diferentes anos e administrações públicas. O ciclo biológico do gado não começa nem termina junto com um mandato presidencial.
Produtores preferem exportar?
A afirmação de que o produtor simplesmente escolhe vender toda a carne ao exterior é uma simplificação.
Na maioria das operações, o pecuarista vende o animal vivo ao frigorífico. É a indústria que decide quanto da produção será destinado ao mercado interno e quanto será exportado, de acordo com contratos, habilitações sanitárias, preços internacionais e rentabilidade.
Quando a procura externa está elevada, os frigoríficos exportadores podem oferecer mais pelo boi. Essa concorrência aumenta a cotação da arroba e influencia também as indústrias voltadas ao mercado doméstico.
O dólar possui papel importante. Quando a moeda norte-americana fica mais valorizada, cada dólar recebido na exportação representa mais reais para o frigorífico brasileiro. Isso pode tornar o mercado externo mais atraente.
Entretanto, exportação elevada não significa que o mercado interno ficará sem carne. O Brasil possui grande produção e o consumo doméstico continua absorvendo parte relevante do volume produzido. Os dados oficiais de comércio exterior podem ser consultados no Comex Stat.
Impostos explicam a alta?
Os tributos fazem parte da formação dos custos, mas não aparecem como explicação isolada para as grandes oscilações observadas.
Desde 2013, a venda de carnes bovina, suína, ovina, caprina e de aves possui alíquota zero de PIS e Cofins, conforme estabelecido pela Lei Federal nº 12.839/2013.
Isso não significa ausência completa de tributação na cadeia. Ainda podem existir ICMS estadual e impostos incorporados aos combustíveis, energia, embalagens, equipamentos, serviços e transporte.
Na reforma tributária, as carnes foram incluídas na cesta básica nacional com previsão de alíquota zero para CBS e IBS. A implantação do novo sistema, entretanto, é gradual.
Dessa forma, não há fundamento técnico para atribuir sozinho aos impostos todo aumento da carne. Dependendo do período, oferta de animais, exportações, câmbio e custos agropecuários podem ter impacto maior.
Não existe um preço nacional único da picanha
O IBGE acompanha a variação dos preços, mas não divulga um único valor nacional em reais por quilo para a picanha. Isso ocorre porque o preço muda conforme:
- cidade e estado;
- marca e frigorífico;
- carne nacional ou importada;
- produto resfriado ou congelado;
- classificação comum ou premium;
- peso e padronização da peça;
- promoção do estabelecimento;
- margem praticada por cada supermercado.
Por isso, comparar uma promoção isolada de determinado ano com o preço regular encontrado atualmente pode gerar uma conclusão enganosa.
Para uma comparação direta em reais, seria necessário pesquisar o mesmo corte, na mesma cidade, em estabelecimentos equivalentes e em meses semelhantes. Também seria preciso corrigir os valores pelo IPCA e excluir promoções excepcionais.
Dados não sustentam explicação única
A análise mostra dois movimentos diferentes. Entre 2020 e 2022, todas as proteínas pesquisadas tiveram aumentos expressivos, com destaque para frango, costela e picanha.
Desde 2023, o cenário tornou-se mais desigual. Patinho e acém subiram acima da inflação, enquanto picanha, costela, carne suína e frango apresentaram variações inferiores ao IPCA.
Portanto, o preço da carne não pode ser explicado apenas por impostos, exportações ou decisões do governo federal. Políticas econômicas influenciam câmbio, combustíveis, crédito, renda e tributação, mas o resultado final também depende do ciclo pecuário, do mercado internacional, do clima, dos custos produtivos e da estratégia comercial de frigoríficos e supermercados.
Os números indicam que a picanha ainda custa caro para o consumidor, mas sua maior alta real concentrou-se entre 2020 e 2022. Desde 2023, o corte aumentou menos do que a inflação geral, enquanto carnes mais populares, como patinho e acém, passaram a exercer pressão maior sobre o orçamento doméstico.