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Semana da Saúde da Uepa debate integração para melhorar atendimento no SUS

Fonte: oliberal.com | Data: 21/09/2026 14:26:56

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A Universidade do Estado do Pará (Uepa) realizará, entre os dias 24 e 26 deste mês, a XIV Semana da Saúde, em conjunto com a 3ª Jornada Científica do Centro de Saúde Escola do Marco. Com o tema “Interprofissionalidade no SUS: Conexões que Transformam o Cuidado em Saúde”, a programação será realizada no Parque da Cidade, em Belém, reunindo estudantes, professores, profissionais da saúde, pesquisadores e representantes da comunidade.

A proposta é promover discussões sobre os desafios da assistência em saúde e a importância da atuação integrada entre diferentes áreas profissionais no Sistema Único de Saúde (SUS). A programação prevê conferências, mesas-redondas, atividades científicas e ações extensionistas, aproximando ensino, pesquisa, serviços de saúde e população. A iniciativa também pretende estimular a troca de experiências desenvolvidas em diferentes territórios e discutir estratégias que possam contribuir para o fortalecimento do SUS no Pará.

Mais do que apresentar trabalhos e divulgar a programação da Semana da Saúde, a pauta deve aproveitar o evento como gancho para discutir os desafios da integração entre os diferentes profissionais que atuam no SUS e como essa articulação interfere, na prática, no atendimento oferecido à população paraense. A reportagem deve entrevistar o porta-voz que será disponibilizado pela assessoria do evento, buscando exemplos concretos da realidade do Pará, dificuldades ainda existentes e caminhos para melhorar a assistência.

Coordenadora da Semana da Saúde da Uepa, a professora Erica Feio Carneiro explicou que interprofissionalidade significa compreender que nenhuma profissão, isoladamente, consegue responder a todas as necessidades de saúde de uma pessoa. Na prática, é quando profissionais de diferentes áreas trabalham de forma articulada, compartilham informações, discutem o caso, definem objetivos comuns e constroem juntos o cuidado. “E é importante diferenciar: não basta termos vários profissionais atendendo o mesmo paciente. Para existir interprofissionalidade, precisa haver comunicação, integração e corresponsabilidade. Isso muda a lógica do cuidado. Em vez de enxergarmos apenas uma doença ou um sintoma, passamos a enxergar a pessoa em sua integralidade: sua condição física, emocional, social, familiar e o território onde ela vive”, disse.

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SUS cada vez mais humanizado

É exatamente por isso que o tema escolhido foi “XIV Semana da Saúde: Interprofissionalidade no SUS: Conexões que Transformam o Cuidado em Saúde”. “Queremos discutir como essas conexões podem produzir um SUS cada vez mais resolutivo e humanizado. Interprofissionalidade não é colocar várias profissões lado a lado. É fazer com que elas trabalhem juntas em torno das necessidades da pessoa”, afirmou.

A professora também comentou sobre quais são, hoje, os principais desafios para que médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos e outros profissionais atuem de forma realmente integrada dentro do SUS no Pará. “Eu destacaria alguns desafios. Um deles é a própria formação profissionaal. Historicamente, nós fomos formados dentro das nossas profissões e aprendemos muito pouco sobre como trabalhar com as outras profissões”, disse.

Outro desafio é a comunicação. “Para construir um cuidado compartilhado, precisamos de espaços para discussão de casos, planejamento conjunto, registros adequados e comunicação entre os diferentes pontos da rede”, afirmou. Também existem desafios estruturais: equipes incompletas em alguns territórios, sobrecarga dos profissionais, rotatividade, dificuldades de acesso e diferenças muito grandes entre os municípios. “No Pará, tudo isso ganha uma dimensão ainda maior por causa das características do nosso território. Não podemos pensar a organização do SUS no Pará exatamente da mesma maneira que pensamos em estados menores e com outra realidade geográfica”, afirmou.

Quando os profissionais não se comunicam adequadamente, o cuidado pode ficar fragmentado. O paciente passa por diferentes serviços e profissionais, mas nem sempre existe uma conexão entre essas etapas. “Isso pode significar repetição de procedimentos, orientações que não dialogam entre si, dificuldade de acompanhamento e perda da continuidade do cuidado. E existe uma expressão que resume muito bem isso: o paciente não pode ser o responsável por fazer a comunicação entre os profissionais que cuidam dele”, observou.

Atenção primária

Ainda segundo ela, o SUS trabalha com a ideia de rede. “Então, precisamos fazer com que essa rede funcione de verdade, desde a Atenção Primária até os serviços especializados e hospitalares, com referência e continuidade. O usuário precisa circular pela rede; a informação sobre o seu cuidado também precisa circular”, disse. A professora também abordou sobre quais particularidades do Pará – como as grandes distâncias, a existência de comunidades ribeirinhas e a dificuldade de acesso a determinados serviços – tornam essa atuação interprofissional ainda mais importante. “Essa talvez seja uma das questões mais importantes quando falamos do SUS na Amazônia”, disse.

“O Pará tem uma dimensão territorial enorme e uma diversidade que precisa ser considerada na organização do cuidado. Temos populações urbanas, rurais, ribeirinhas e comunidades em localidades onde o deslocamento pode depender de rios e exigir muitas horas de viagem. Isso significa que o acesso a determinados especialistas e serviços não acontece da mesma maneira em todos os lugares”, afirmou.

Nesse contexto, acrescentou, trabalhar em equipe se torna ainda mais importante: “Precisamos fortalecer a Atenção Primária, qualificar as equipes, organizar os fluxos da rede e utilizar também, quando apropriado, recursos de telessaúde e saúde digital para aproximar profissionais e serviços. E há outro aspecto fundamental: não podemos simplesmente transportar um modelo de assistência pensado para grandes centros urbanos para todas as regiões amazônicas. O cuidado precisa reconhecer o território, a cultura e as necessidades daquela população”.

Experiências interprofissionais

Ao ser perguntada se a formação universitária atual prepara suficientemente os futuros profissionais para trabalhar de maneira integrada no SUS, a professora respondeu: “Nós avançamos muito, mas ainda temos espaço para avançar mais. Durante muito tempo, a formação em saúde aconteceu de maneira predominantemente separada: o estudante de Fisioterapia aprende com a Fisioterapia, o de Medicina com a Medicina, o de Enfermagem com a Enfermagem, e assim sucessivamente”.

“Só que, quando esses profissionais chegam ao SUS, precisam trabalhar juntos. Por isso, precisamos proporcionar experiências interprofissionais ainda durante a graduação. Colocar estudantes de diferentes cursos para discutir casos, desenvolver projetos, conhecer o território e vivenciar conjuntamente os serviços de saúde. E essa aproximação precisa acontecer desde o início da formação, e não apenas no estágio final”, afirmou a professora Erica Feio Carneiro.

Ainda segundo ela, o estudante precisa sair da Universidade tecnicamente competente em sua profissão, mas também sabendo comunicar-se, trabalhar em equipe, reconhecer o conhecimento do outro e tomar decisões compartilhadas. “E essa é também uma responsabilidade importante de uma universidade pública como a UEPA: formar profissionais tecnicamente qualificados, mas também preparados para compreender o SUS e responder às necessidades da população amazônica. Se queremos profissionais que trabalhem juntos no SUS, precisamos ensiná-los a aprender juntos dentro da Universidade”, disse.

Ela comentou ainda sobre quais experiências ou soluções desenvolvidas no Pará já mostram resultados positivos dessa integração e poderiam ser ampliadas para melhorar o atendimento à população pelo SUS. “Nós temos experiências importantes de integração ensino-serviço, atuação multiprofissional na Atenção Primária, programas de residência, projetos desenvolvidos pelas universidades em parceria com os serviços e, mais recentemente, um movimento muito importante relacionado à saúde digital”, disse.

“Na própria Uepa, temos experiências de formação nos cenários reais do SUS e programas de residência que colocam diferentes profissões em contato com as necessidades concretas da população. Eu também destacaria a saúde digital como uma possibilidade muito importante para um estado com as características geográficas do Pará. Ela não substitui o profissional nem o atendimento presencial quando ele é necessário, mas pode ajudar na comunicação, educação permanente, apoio entre equipes e aproximação entre diferentes pontos da rede”, afirmou.

O grande desafio, disse, é transformar boas experiências em práticas sustentáveis, articuladas às redes de atenção e capazes de chegar a diferentes territórios. “E é justamente para promover esse diálogo que realizamos a XIV Semana da Saúde do CCBS. Queremos reunir diferentes profissões, estudantes, pesquisadores, gestores e profissionais dos serviços para discutir não apenas os problemas, mas caminhos possíveis para o SUS”, afirmou. E acrescentou: “E dentro dessa discussão também teremos um olhar especial para as mulheres, inclusive com a mesa ‘Mulheres que Transformam o Cuidado: Interprofissionalidade, Liderança e Políticas Públicas no SUS’. Queremos discutir as mulheres não apenas como usuárias das políticas de saúde, mas também como profissionais, pesquisadoras, gestoras e lideranças que ajudam a construir e transformar o SUS”.