Expansão da IA vai além da tecnologia: demanda por energia e produtividade ganham espaço
Fonte: valor.globo.com | Data: 21/09/2026 17:38:57
A rápida expansão da inteligência artificial começa a produzir efeitos que vão além do setor de tecnologia. Com a multiplicação dos data centers, a demanda por eletricidade nos Estados Unidos pode dobrar em apenas cinco anos, enquanto crescem as discussões sobre produtividade e emprego e as preocupações das comunidades com preços de energia, disponibilidade de água e ruído e outros impactos locais, apontaram especialistas durante o painel “Navegando pela nova economia global”, no Fórum Agenda Global 2026, iniciativa do Valor Econômico e da Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio para o Brasil), realizado em Nova York.
Daniel Erikson, consultor sênior da Covington e ex-assessor especial da Presidência dos Estados Unidos, afirmou que ainda há incerteza sobre os efeitos da inteligência artificial sobre a economia. A tecnologia, disse, “pode ser a coisa mais maravilhosa que já aconteceu, ou não”. Segundo ele, o grande volume de investimentos e financiamento de capital direcionado ao boom da IA ajudou a sustentar muitas economias, especialmente a dos Estados Unidos.
Uma das dúvidas é justamente o efeito sobre a produtividade. Erikson afirmou que alguns setores serão completamente transformados, enquanto outros poderão continuar como estão e profissões como encanadores e mecânicos continuarão sendo necessárias. “A realidade é que, na maioria dos casos, não sabemos ao certo”, disse. “Acredito que o impacto disso em diversos setores ainda é uma incógnita.”
Na América Latina, a questão ganha relevância diante dos baixos níveis de produtividade. Segundo Erikson, a região convive há muito com uma situação persistente de produtividade extremamente baixa e caminha para um crescimento de cerca de 2%, talvez 2,5%, neste ano. Para ele, a América Latina “precisa e exige uma revolução no crescimento”.
Erikson disse ainda estar preocupado com a possibilidade de alguns países latino-americanos perderem oportunidades ligadas à IA, tanto na inovação industrial e na integração à cadeia de suprimentos da tecnologia quanto na área regulatória.
Algumas oportunidades de regulamentação existentes hoje, afirmou, podem não estar disponíveis daqui a três, quatro ou cinco anos por diferentes razões políticas. “Existe uma oportunidade regional para os países latino-americanos se conectarem à IA de uma forma mais inteligente”, afirmou.
Além dos efeitos sobre a economia e a produtividade, o avanço da IA traz uma demanda crescente por infraestrutura. Ethan Zindler, diretor de Pesquisa em Políticas Públicas e Países da BloombergNEF, destacou a pressão dos data centers sobre o setor de energia. “Prevemos uma potencial duplicação da demanda de energia elétrica nos EUA em apenas cinco anos, devido aos centros de dados. Isso exercerá uma pressão real sobre a demanda por gás natural nos EUA de uma forma nunca antes vista”, afirmou.
A expansão dos data centers não se restringe aos Estados Unidos. Segundo Zindler, muitos países, incluindo o Brasil, querem se tornar polos para esses empreendimentos. Até agora, porém, entre dois terços e três quartos dessa atividade ocorreram nos Estados Unidos, com uma concentração ainda maior no leste do país e na Virgínia.
Zindler afirmou que, nos próximos 24 meses, o mercado americano de gás deve começar a ficar mais restrito devido aos data centers. “E se os preços do gás nos EUA subirem, isso terá todo tipo de implicações, não apenas para os EUA, mas globalmente. Para os EUA, isso pode significar preços mais altos de eletricidade. Para outras partes do mundo, isso pode significar preços mais altos do gás natural”, disse.
A BloombergNEF também projeta uma quantidade “realmente substancial” de nova geração a gás natural nos Estados Unidos nos próximos dez anos, apesar da continuidade da construção de renováveis.
“O progresso significativo na descarbonização do setor elétrico dos EUA, em particular, ao longo dos últimos 20 anos, está essencialmente parando. Continuaremos a construir muitas usinas renováveis, especialmente neste ano e no próximo. Mas a quantidade de gás que vamos construir é realmente substancial”, disse.
A construção dos data centers também tem efeitos sobre a demanda por água, geração de energia, imóveis, minerais essenciais e outros recursos, segundo Erikson. Esses impactos começam a provocar resistência nas comunidades onde os empreendimentos são instalados.
Neste contexto, Nasser Malik, head global de Sustentabilidade e Transição no Corporate Banking do Citi, afirmou que, embora existam preocupações com as implicações da IA para os empregos, os receios mais imediatos expressados pelas comunidades estão relacionados aos preços da energia, à disponibilidade de água, ao ruído e aos impactos locais. Essas preocupações, disse, se intensificaram rapidamente nos últimos 12 meses.
“A oposição aos data centers, de certa forma, a meu ver, acelerou de uma maneira que pegou muitos dos envolvidos de surpresa”, afirmou. Malik disse que ainda não existe um plano definido para lidar com a questão e apontou a experiência de setores como petróleo e gás, mineração e construção na gestão dos impactos sociais e ambientais de grandes projetos. Para ele, um elemento central é estabelecer um plano efetivo de engajamento comunitário com antecedência.
Algumas empresas de tecnologia já assumem compromissos para cobrir custos de energia que possam surgir ou aumentos adicionais relacionados a determinados data centers, além de compromissos relacionados à água, segundo Malik. Essas práticas, afirmou, podem começar a formar um modelo mais amplamente aceito de “pacto social”, embora ainda não exista um padrão comum.
A resistência também começa a aparecer no ambiente político e regulatório dos Estados Unidos. Zindler apontou as eleições de novembro como um ponto de virada para observar como esse cenário vai mudar. “A IA está, de certa forma, extraoficialmente na cédula eleitoral deste ano. E se você é visto como muito favorável a ela, acho que essa não é uma posição muito boa agora, no geral”, afirmou.
Segundo Zindler, será depois das eleições que ficará mais claro como o cenário vai mudar. O ambiente regulatório para a construção de data centers já está se tornando mais difícil, principalmente nos níveis estadual e local. Ainda assim, ele avaliou que há tanto dinheiro envolvido e tantos projetos planejados que grande parte deles deve seguir adiante.
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