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Opinião | Mudança na epidemiologia da meningite reforça necessidade de rever prevenção no Brasil

Fonte: estadao.com.br | Data: 22/09/2026 03:00:00

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Apesar de o Brasil colecionar muitos avanços no combate à doença meningocócica, a condição continua sendo um importante problema de saúde pública, por sua rápida evolução, gravidade e letalidade, com potencial caráter epidêmico. Os primeiros sintomas, como febre, vômitos, dor de cabeça ou aumento da sensibilidade à luz, são semelhantes aos de outras condições, o que torna seu diagnóstico desafiador.

O quadro da meningite meningocócica pode evoluir rapidamente para formas graves e levar o paciente a óbito em menos de 24 horas. A incidência da doença é maior nos extremos da vida, particularmente em menores de um ano de idade, com 12,28 casos por 100 mil indivíduos, faixa etária que também apresenta as maiores taxas de mortalidade. No Brasil, a letalidade permanece alta, em torno de 20%, o dobro da letalidade média mundial, de 10%. Entre os sobreviventes, um em cada cinco poderá conviver com sequelas permanentes, como perda auditiva, déficits neurológicos ou amputações de membros.

A gravidade da condição reforça a importância de seu combate por vacinação. Nesse contexto, um importante marco na saúde pública foi a introdução da vacina contra o sorogrupo C no Programa Nacional de Imunizações (PNI), em 2010. O sorogrupo C, que era o mais prevalente entre os diferentes sorogrupos responsáveis pelos casos de doença meningocócica (A, B, C, Y, W e X), teve o número de casos significativamente reduzidos pela disponibilização da vacina no Sistema Único de Saúde (SUS). Além disso, à medida que houve ampliação de faixas etárias e substituição pela vacina ACWY conjugada em 2020, essa diminuição de prevalência do sorogrupo C ficou ainda mais expressiva, gerando uma mudança do perfil epidemiológico da doença. A partir de 2023, o sorogrupo B passou a ser o sorogrupo mais prevalente.

Dados recentes apresentados na Nota Técnica da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) reforçam o sorogrupo B como o principal causador da Doença Meningocócica Invasiva (DMI) no País. Entre bebês menores de um ano, o sorogrupo B foi responsável por 73% dos casos identificados em 2025. Já em crianças e adolescentes menores de 15 anos, chega a 80%. O sorogrupo B não só passou a ser o mais incidente, como foi responsável por importantes surtos no Brasil, em regiões como Maceió, em Alagoas e Belém, no Pará.

Essa combinação entre rápida evolução e dificuldade diagnóstica torna a prevenção ainda mais importante. Durante muitos anos, desenvolver uma vacina contra o sorogrupo B foi um desafio científico, superado com o avanço da tecnologia e estratégias inovadoras. Hoje, a vacina meningocócica B é recomendada pela Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) para crianças aos 3, 5 e 12 meses de idade, e está disponível na rede privada.

A discussão sobre a necessidade de ampliar a proteção contra a meningocócica B ganhou força justamente pela mudança no cenário epidemiológico no Brasil com a prevalência do sorogrupo B. A Nota Técnica da Sociedade Brasileira de Pediatria estima que cerca de dois em cada três casos de doença meningocócica em bebês menores de um ano poderiam ser evitados com a implementação efetiva da vacina contra o sorogrupo B. Países que adotaram essa estratégia já observaram reduções importantes da doença.

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O controle do sorogrupo C, com a implementação da vacina e ampliação para a ACWY, foram marcos importantes na prevenção da doença. Agora, o protagonismo do sorogrupo B impõe um novo desafio. Atualizar o debate sobre as estratégias de prevenção significa acompanhar as evidências científicas e a realidade epidemiológica do País. Como profissionais da saúde, temos a responsabilidade de orientar as famílias com informações atualizadas e contribuir para que cada vez menos crianças sejam expostas a uma doença que continua sendo rápida, grave e potencialmente evitável.