Organizações cristãs se unem contra bets antes das eleições
Fonte: correiobraziliense.com.br | Data: 25/09/2026 13:43:07
Congregações e organizações cristãs se mobilizam para pressionar os candidatos à Presidência da República em 2026 a assumir compromissos públicos de proteção às famílias diante do avanço das bets. A campanha Cristãos contra Bets lançou uma carta-compromisso com oito medidas para endurecer a fiscalização, ampliar mecanismos de proteção aos apostadores e destinar recursos à prevenção e ao tratamento do jogo problemático.
A iniciativa é uma coalizão entre Justiça Pública (JusPub) e Aliança Cristã Evangélica Brasileira (AEB), com apoio da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC²) e da Médicos de Cristo. O grupo também convida cristãos brasileiros a aderirem a um abaixo-assinado em defesa das propostas.
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Segundo o documento, a mobilização não pretende apresentar uma pauta partidária ou exigir dos candidatos uma determinada convicção religiosa. A carta afirma que o objetivo é cobrar um compromisso público com medidas que, na avaliação das organizações, podem reduzir os impactos sociais associados às apostas. “A proteção da família e do próximo é um princípio cristão.”, diz trecho da carta.
A carta sustenta que o mercado de apostas alcançou uma dimensão nacional desde a regulamentação do setor. O documento cita mais de R$ 37 bilhões em receita bruta de jogos em 2025 e mais de 25 milhões de apostadores em plataformas legais. Dados divulgados pelo Banco Central e pesquisas sobre o setor também apontam a expansão das apostas entre os brasileiros.
Entre os evangélicos, uma pesquisa PoderData realizada em setembro de 2025 identificou que 41% afirmaram já ter feito apostas em bets, ante 29% no levantamento realizado um ano antes. O estudo ouviu 2.500 pessoas em 178 municípios das 27 unidades da Federação, com margem de erro de dois pontos percentuais.
A campanha também cita uma estimativa de R$ 38,8 bilhões anuais em custos sociais relacionados às apostas. O cálculo inclui impactos associados a saúde, tratamento de depressão, suicídios adicionais, desemprego, perda de moradia e encarceramento por crimes relacionados às apostas. A mesma estimativa foi mencionada em pronunciamento no Senado.
O que a carta pede
O compromisso apresentado às candidatas e aos candidatos à Presidência prevê oito medidas para um eventual mandato entre 2027 e 2030.
A primeira é o fortalecimento da fiscalização e do combate ao mercado ilegal, com metas públicas para bloqueio de sites não licenciados e fechamento de contas bancárias ligadas a plataformas irregulares.
O grupo também quer garantir o cumprimento da decisão do Supremo Tribunal Federal que impede o uso de benefícios sociais em apostas. A proposta prevê mecanismos para bloquear transações com recursos do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC), além da divulgação periódica dos resultados.
Outro ponto é a ampliação da Plataforma Centralizada de Autoexclusão, ferramenta que permite ao usuário solicitar o bloqueio de seu acesso a plataformas de apostas. A carta propõe integrar a lista de pessoas autoexcluídas aos mecanismos utilizados para bloquear sites ilegais.
As organizações também defendem a criação de mecanismos para identificar apostas desproporcionais à renda do usuário, inicialmente com um projeto-piloto voltado a beneficiários de programas sociais. A proposta prevê salvaguardas para proteção dos dados pessoais.
O documento ainda pede que parte da arrecadação tributária ou das outorgas do setor seja destinada de forma específica ao Sistema Único de Saúde (SUS) para prevenção e tratamento do jogo problemático.
A sexta medida trata do funcionamento das próprias plataformas. A carta defende restrições a produtos considerados de maior risco, incluindo modalidades de resultado quase instantâneo, além de auditorias independentes dos algoritmos e proibição de mecanismos de design que tenham efeito comprovadamente compulsivo.
Na área de publicidade, a coalizão propõe substituir a autorregulação por regras com força de lei. Entre as medidas defendidas estão restrições à publicidade em diferentes canais, proibição de apostas a crédito, regras para aquisição de direitos de transmissão esportiva por casas de apostas e quarentena para a passagem de profissionais da indústria para cargos regulatórios.
Por fim, os signatários querem que o próximo governo publique um relatório anual sobre o cumprimento dos oito compromissos, permitindo o acompanhamento das medidas ao longo de todo o mandato.
Compromisso para além da eleição
A carta estabelece que a cobrança não deve terminar com o resultado das urnas. As entidades responsáveis pela campanha afirmam que pretendem acompanhar publicamente a execução das medidas e divulgar boletins periódicos de monitoramento.
O documento define a proposta como um compromisso que deve continuar sendo fiscalizado pela sociedade durante o mandato de quem eventualmente o assinar. “O compromisso aqui firmado não se extingue com a eleição: seu cumprimento poderá e deverá ser verificado por toda a sociedade brasileira, ano após ano.”
A campanha também apresenta um parecer técnico independente como base para as propostas. O documento reúne diagnóstico sobre as apostas, referências de políticas adotadas em outros países e recomendações de políticas públicas.
A mobilização ocorre em um momento de expansão do mercado. Pesquisa PoderData divulgada em outubro de 2025 apontou que 36% dos brasileiros com 16 anos ou mais declararam já ter feito algum tipo de aposta em bets, percentual que havia sido de 24% um ano antes.
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