WAGNER, BANCO MASTER E A PICARETAGEM
Fonte: noticiacapital.com.br | Data: 25/09/2026 17:17:24
Por Antônio Lins
Há momentos em que a República parece convocar Rui Barbosa para depor contra a própria República.
O caso Banco Master é um desses momentos.
No meio das investigações, surge o nome do senador Jaques Wagner, cercado por relações que a Polícia Federal decidiu examinar com lupa.
Não se trata de condenação.
Trata-se de investigação.
E investigação séria não se faz com aplausos, nem com silêncio.
A PF encontrou mensagens sobre um apartamento de R$ 2,45 milhões ligado a Wagner e a pessoas relacionadas ao antigo Banco Master.
Segundo a investigação, havia até linguagem cifrada nas conversas.
Ora, quando até o preço de um apartamento precisa falar por código, a República tem o direito de perguntar: por quê?
E perguntar não é condenar.
Mas calar diante da pergunta seria transformar o Senado em sala de espera da impunidade.
Também surgiram informações sobre outros valores e relações financeiras que estão sob investigação.
Tudo isso precisa ser esclarecido documentalmente.
Porque, quando o assunto é dinheiro, a palavra de político não pode valer mais que o recibo.
E quando o assunto é poder, amizade não pode virar salvo-conduto.
Vorcaro já prestou depoimento à Polícia Federal e declarou que deseja colaborar com as investigações.
Mas ainda não existe confirmação pública de que tenha feito qualquer acusação contra Wagner.
Portanto, não se deve fabricar uma “mesada milionária” antes que a prova apareça.
Se apareceu dinheiro, mostrem o dinheiro.
Se apareceu contrato, mostrem o contrato.
Se apareceu vantagem indevida, mostrem a vantagem.
A República não precisa de boatos: precisa de provas.
Porque a corrupção, quando existe, não se torna menos corrupção por vestir terno, gravata ou mandato parlamentar.
E a picaretagem, se comprovada, não merece foro de amizade: merece a aplicação da lei.
Rui Barbosa dizia que a pior das democracias é preferível à melhor das ditaduras.
Mas democracia sem moralidade pública vira apenas a liberdade dos poderosos para brincar com o dinheiro dos outros.
Eis a pergunta que fica: -no Banco Master havia negócios, amizades, favores ou algo mais?
Que a Polícia Federal descubra.
Que o Ministério Público examine.
Que a Justiça decida.
E que ninguém, senador ou banqueiro, se coloque acima da lei.
Porque o cidadão brasileiro já está cansado de assistir à mesma ópera: os poderosos entram pela porta da frente, as explicações entram pela porta dos fundos e a conta, invariavelmente, chega à cozinha do povo.
Se houve apenas negócios legítimos, que os documentos os absolvam.
Se houve tráfico de influência, que a investigação o revele.
Se houve dinheiro ilícito, que a Justiça o alcance.
Mas se, ao fim de tudo, descobrir-se que milhões circularam nos subterrâneos do poder enquanto o cidadão pagava impostos e recebia migalhas, então não teremos apenas um escândalo.
Teremos o retrato de uma República aviltada pela promiscuidade entre dinheiro e poder.
E aí a palavra “picaretagem” deixará de ser adjetivo de colunista.
Será a descrição de um método.
Porque a República não pode continuar sendo o lugar onde o poderoso pede explicações ao povo sobre a sua própria riqueza, enquanto o povo precisa explicar ao Fisco até o pão que põe na mesa.
Que se abram os documentos.
Que se sigam os rastros.
Que se contem os milhões.
E que a lei, finalmente, chegue onde sempre disseram que chegaria — sem perguntar o sobrenome de quem está sentado à mesa.
Porque, quando a Justiça precisa pedir licença ao poder para entrar, já não estamos diante de uma República.
Estamos diante de um balcão.
E balcão onde a lei é negociável não é instituição.
É feira.
E numa feira de impunidade, quem sempre paga o preço é o povo.
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Poeta, escritor, dramaturgo e compositor
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