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Um crocodilo esmagou o único braço funcional deste mergulhador. Ainda assim, voltou à água para combater a poluição

Fonte: cnnportugal.iol.pt | Data: 26/09/2026 08:04:35

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Alain Brandeleer transformou um episódio traumático em motivação para lutar por algo maior

NOTA DO EDITOR: “Call to Earth” é uma série editorial da CNN dedicada a reportar os desafios ambientais que o nosso planeta enfrenta, juntamente com as respetivas soluções. A iniciativa Perpetual Planet da Rolex estabeleceu uma parceria com a CNN, para promover a sensibilização e a educação em torno de questões-chave de sustentabilidade e para inspirar ações positivas.

A água estava calma naquela manhã no Delta do Okavango, no Botsuana. O mergulhador belga Alain Brandeleer recorda que a visibilidade era boa e que não sentia qualquer mal-estar em particular. Tinha passado grande parte da sua vida à procura de experiências cada vez mais extremas na água, a nadar com tubarões em diferentes partes do mundo – até mesmo com grandes tubarões brancos, sem gaiola. Com o tempo, a exposição constante ao risco tinha deixado de lhe proporcionar uma descarga de adrenalina. E quando isso acontece, disse ele, surge uma pergunta difícil de ignorar: o que vem a seguir?

Naquele dia, 6 de setembro de 2012, a resposta foi brutal. A água ficou turva e espessa. A visibilidade desapareceu numa questão de segundos. Sentiu algo a roçar-lhe as pernas, mas, a princípio, não percebeu bem o que era. Depois compreendeu. O corpo de um crocodilo estava enrolado à sua volta e estava a morder-lhe o braço direito.

Um dos seus companheiros conseguiu segurá-lo pelo tanque de oxigénio durante mais de um minuto. Alain viria a dizer mais tarde que isso lhe salvou a vida.

“Se ele tivesse soltado por um segundo, eu estaria morto”, diz.

Após o ataque, seguiu-se a espera. Passaram-se horas até que os médicos pudessem atendê-lo, colocá-lo num helicóptero e transferi-lo para um hospital em Joanesburgo. Durante esse tempo, ele nem sequer sabia ao certo se ainda tinha o braço.

“Conseguia sentir o braço, mas não sabia se estava lá ou não”, recorda. O fato de mergulho mantinha-o no lugar.

Quando os médicos examinaram Alain Brandeleer, decidiram que o braço tinha de ser amputado.

Foi um golpe devastador. Alain nasceu com uma atrofia na mão esquerda. Desde muito jovem que tinha aprendido a viver com essa diferença física e a resistir a que ela o definisse. O braço que acabara de ser destruído era o seu único totalmente funcional.

Ao longo dos anos, a água tornou-se o local onde ele podia provar o seu valor. Primeiro como mergulhador, depois como nadador de longa distância, encontrou no mar uma forma de liberdade. Na água, conseguiu ultrapassar os próprios limites e perceber que, no seu caso, esses limites eram muitas vezes mais mentais do que físicos.

Foi por isso que, quando os médicos levantaram a possibilidade de amputação, a sua resposta foi imediata. Recorda-se de ter dito ao médico, com uma calma que ainda hoje o surpreende, que, se essa fosse a única opção, preferia não acordar da anestesia.

Um helicóptero transporta Alain Brandeleer para um hospital de Joanesburgo após o incidente em 2012. (Cortesia de Alain Brandeleer)

Para além da sua qualidade de vida, preocupava-se em tornar-se um fardo. Durante anos, tinha apoiado o pai – emocional e financeiramente – numa altura em que a saúde deste se tinha deteriorado gravemente. Essa experiência marcou-o profundamente. “Prometi a mim mesmo que nunca colocaria o meu filho nessa situação”, explica.

Tentar salvar o braço acarretava uma probabilidade muito elevada de morte por infeção, mas, perante a teimosia de Alain, os cirurgiões decidiram tentar.

Sobreviveu, mas a sua recuperação não foi fácil. Houve cirurgias, complicações e infeções que puseram à prova a sua resiliência física e mental.

De volta à água

Mas seis meses após o ataque, voltou à água.

Começou com movimentos básicos, quase exploratórios, acompanhado por um fisioterapeuta, como parte da sua reabilitação. Mais do que um objetivo desportivo, era uma forma de recuperar a relação com o próprio corpo.

Com o tempo, começou a treinar várias vezes por dia. Ajustou os movimentos. Tentava, ficava frustrado e voltava a tentar. Depois, disse ao seu fisioterapeuta que queria atravessar a nado o Canal da Mancha. Não o fez, mas a ideia marcou uma viragem. Um ano depois, após vários contratempos – incluindo outra lesão e uma infeção -, estabeleceu o objetivo de atravessar a nado o Estreito de Gibraltar.

Atravessou a passagem de 8 milhas em 2015, três anos após o ataque.

Não ficou por aí, tendo nadado entre a Córsega e a Sardenha em 2023. Cada travessia, disse ele, foi uma forma de aceitar o que lhe tinha acontecido.

Impossível de ignorar: a poluição pelo plástico

Paralelamente, o mar começou a ocupar outro lugar na sua vida. Nas suas viagens pelo Mar Vermelho, pelo Mediterrâneo e por outros locais remotos, Alain começou a perceber que, mesmo em locais que à primeira vista pareciam imaculados, os resíduos de plástico acumulavam-se nas praias, flutuavam na água e misturavam-se com a vida selvagem.

“Chegas a um lugar que parece o paraíso, caminhas alguns metros e está cheio de plástico”, constata.

A imagem das tartarugas que confundiam sacos de plástico com medusas ficou-lhe gravada na memória. O mesmo aconteceu com o contraste entre os locais de mergulho que conhecera décadas antes, cheios de cor e vida, e o seu estado atual, degradado e poluído. Essa mudança abalou-o. Convenceu-o de que aquelas maravilhas poderiam perder-se numa única geração.

Foi o filho de Alain que lhe falou da The Ocean Cleanup, uma organização que intercepta o plástico antes de este chegar ao oceano.

Decidiu começar com algo simples: nadar para angariar fundos.

Alain Brandeleer a atravessar o Estreito de Gibraltar em 2015. (Cortesia de Alain Brandeleer)

Em 2025, Alain Brandeleer nadou entre as ilhas espanholas de Ibiza e Formentera, uma viagem de cerca de 23 quilómetros em águas abertas. A iniciativa angariou cerca de 24 mil euros (28 mil dólares) – aproximadamente o custo de intercetar 500 mil garrafas de plástico antes de chegarem ao oceano. Para além do valor, o que lhe interessou foi a ideia de que uma pequena ação de uma pessoa pudesse ter um impacto mensurável.

Alain queria inspirar outras pessoas e mostrar as possibilidades da ação coletiva.

A sua iniciativa “Running for the Ocean” leva essa mesma ideia para terra firme. Trata-se de uma corrida de 20 quilómetros (12,4 milhas) em Bruxelas, com mais de 250 participantes a angariar fundos para ajudar a intercetar 1 milhão de garrafas de plástico. Não se trata de desempenho, mas sim de participação e, acima de tudo, de replicabilidade. A intenção é que o modelo seja transferível para outras cidades e cresça a nível internacional.

Hoje, mais de uma década após o ataque, a dor ainda está presente. Não constantemente, mas o suficiente para lembrar a Alain que o seu corpo nunca mais será o mesmo. Durante algum tempo, tentou resistir-lhe, evitá-la, ignorá-la. Com o tempo, mudou a forma como se relacionava com essa sensação.

“Se a vês como um inimigo, ela ganha sempre”, diz.

Prefere pensar nela como parte da sua vida, algo com que coexiste. Da mesma forma que convive com a memória do acidente, com a história de ter nascido com uma mão atrofiada e com a certeza de que grande parte do seu carácter se formou em torno dessa diferença.

Quando fala de tudo o que se seguiu, não o enquadra como uma história de regresso. Não há um momento claro em que tudo melhora. Em vez disso, descreve uma série de transformações – algumas procuradas, outras não – que, gradualmente, deram forma a algo diferente. Fala do pai. Do filho. Das crianças que nasceram com diferenças físicas a quem também quer chegar quando nada. “Quero mostrar-lhes que, com paixão e perseverança, é possível alcançar o impensável”, diz.

Há 13 anos, nas águas turvas do Botsuana, Alain Brandeleer perdeu o controlo do seu corpo nas mandíbulas de um crocodilo.

Hoje, quando entra no mar, é diferente. Os seus movimentos são mais conscientes, mais medidos. Já não há necessidade de tentar nada. O que existe, em vez disso, é uma forma diferente de estar presente: a convicção de que mesmo uma vida marcada desde o nascimento pela diferença, moldada pela dor e pelo medo, ainda pode lutar por algo maior do que ela própria.