Só dói quando eu voto
Fonte: oglobo.globo.com | Data: 28/09/2026 02:29:05
A propaganda eleitoral da TV tem candidatos de pura comédia, mas é assustador pensar que possam ser eleitos
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É um programa de humor involuntário, do tipo “só dói quando eu rio”, e tem duas edições diárias sob o título de Horário Reservado à Propaganda Eleitoral Gratuita. Foi lá que eu vi o sujeito, indiciado há pouco tempo por um crime, anunciar a si próprio e ao pai, ao seu lado, como candidatos “conservadores” a deputado estadual e federal. “Vamos lutar pela família”, disse um deles – e não corou ou caiu na gargalhada.
Há outros personagens que eu julgava presos, condenados à masmorra eterna por seus crimes – um deles tinha acabado de aparecer no telejornal que antecedeu o “humorístico”, mais uma vez às voltas com um processo por corrupção. Estão todos soltos. Batem no peito parrudo, gritam “vamos pra cima” – e é assustador, zero de comédia, imaginar que possam ser eleitos.
“Acaba não mundão” é a plataforma de uma candidata. Ela agregou o bordão ao nome e, com essa bagagem, pede voto – parece perceber que, com tais colegas se responsabilizando pelas leis, o “mundão” está realmente próximo do fim.
Essa aquarela de interessados em cargos públicos já teve gente de outro calibre: Ary Barroso, Jorge Amado, Cândido Portinari, Caio Prado Júnior, Graciliano Ramos, Mário Lago e o humorista Aparício Torelly, o Barão de Itararé. Alguns se elegeram, outros não. O Barão chegou à Câmara Municipal com uma campanha que dizia “Mais água! Mais leite! Mas menos água no leite!” O humor agora é sem querer: “Lutei pelos patriotas e pelos animais”. Ou: “Sou uma negra de direita”.
Quem sofre muito com essa gente é Deus, coitado, transformado em uma espécie de suplente de cada candidato. Caso o cidadão que pronuncia seu santo nome seja eleito, Ele vai abandonar os afazeres celestiais, arregaçar as mangas do manto sagrado e – “Só vive o propósito quem suporta o processo”, diz um candidato – estará junto na luta a favor da reciclagem e contra a cobrança do CRLV.
Há uma enorme bancada de autointitulados missionários, bispos, pastores, abençoados e até um certo Apóstolo João. O Apóstolo deixa uma mensagem curta e grossa, “Vamos pra cima do gigante”, e sai de cena sem dar qualquer pista de quem seja este último e de onde, caso eleito, sairá a dotação orçamentária para dar cabo de um projeto de tamanha monta.
A expressão “Só dói quando eu rio” ficou famosa a partir de um cartum de Ziraldo. Ela sai da boca de um homem sorridente, atravessado por uma espada que lhe entra pelas costas e sai pelo tórax. No país do Cacareco, dói muito rir, em pleno horário eleitoral, da tragédia que se tornou a representação política. Há exceções, mas o domínio é de dezenas de sujeitos mostrando os muques e o punho fechado como projeto de segurança. Tiriricas aos montes. “Tadala”, candidato a deputado estadual, se apresenta como “aquele que leva o Rio para cima”. Vai “dilatar os caminhos que o Estado entupiu”.
Sábio foi o Barão de Itararé. Quando perdeu o mandato de vereador, disse que seguiria um destino mais perfumado: “Deixo a vida pública para entrar na privada”.
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