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Da meta à implementação: o que mudou na conversa sobre o clima em Nova York

Fonte: esginside.com.br | Data: 28/09/2026 12:52:08

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A Climate Week deste ano marcou uma virada na forma como o mundo discute clima. A ciência já oferece diagnóstico suficiente para orientar decisões, e por isso pouco se falou sobre explicar tecnicamente a mudança climática. O centro das conversas que acompanhei em Nova York esteve muito mais próximo da economia e da execução do que da conscientização. Como financiar a transição, preparar infraestrutura, adaptar cadeias produtivas, garantir energia, lidar com eventos extremos e incorporar risco climático às decisões de investimento foram as questões que realmente moveram os painéis.

Durante muitos anos, boa parte da agenda climática esteve concentrada em estabelecer metas, construir compromissos e medir emissões. Tudo isso continua necessário, mas a discussão avançou para um problema mais difícil, que é como colocar essas metas em prática dentro de economias que precisam continuar produzindo, crescendo e competindo. Talvez por isso a adaptação tenha ocupado tanto espaço nesta edição.

Há uma compreensão mais clara de que os efeitos do clima chegam às empresas por caminhos bastante concretos. Uma seca interfere na geração de energia e na produção agrícola. Uma enchente interrompe a infraestrutura e a logística. Temperaturas extremas alteram produtividade, demanda energética e condições de operação. No final, todos esses efeitos encontram algum lugar na planilha de uma empresa, não apenas em um relatório de sustentabilidade.

Essa conexão apareceu também nas discussões sobre geopolítica. Energia, minerais críticos, segurança alimentar, comércio internacional e cadeias de suprimentos estão cada vez mais próximos da agenda climática. Países estão tentando conciliar descarbonização com segurança energética e política industrial, enquanto empresas precisam decidir onde produzir, de quem comprar e quanto investir em resiliência. Por isso, competitividade talvez tenha sido uma das palavras que melhor atravessaram as conversas da semana, mesmo quando o painel não tratava diretamente dela.

O financiamento climático também foi tema recorrente, mas de um jeito diferente do que se via em edições anteriores. A discussão já não se resume à quantidade de capital disponível. Existe uma dificuldade concreta em transformar necessidades climáticas em projetos capazes de receber investimento. Entre uma meta e um projeto executável existem engenharia, dados, infraestrutura, retorno, avaliação de risco e capacidade institucional, e é nesse espaço que boa parte da implementação ainda trava. Isso ajuda a entender por que houve tanta ênfase em resultados concretos: depois de uma década marcada por compromissos climáticos e metas de longo prazo, investidores, empresas e governos começam a ser cobrados pela execução.

Há uma coincidência que dá ainda mais peso a essa conversa. Enquanto adaptação e resiliência ganham espaço na agenda internacional, um El Niño de intensidade histórica volta ao radar. Segundo boletim divulgado em setembro pela NOAA, a agência de previsão climática dos Estados Unidos, o fenômeno se intensificou em agosto e pode atingir uma das maiores intensidades já registradas até o fim de 2026. Para o trimestre de outubro a dezembro, a NOAA estima em 75% a probabilidade de um El Niño de intensidade histórica, com aquecimento superior ao observado em qualquer evento desde 1950, e a chance de um El Niño muito forte durante a primavera e o verão de 2026 e 2027 no Hemisfério Sul passa de 90%.

Os grandes episódios de 1982-83, 1997-98 e 2015-16 encontraram economias completamente diferentes entre si. Não é possível atribuir o desempenho econômico desses períodos ao El Niño isoladamente, mas os episódios ajudam a entender como um fenômeno climático consegue atravessar agricultura, energia, infraestrutura, logística e preços ao mesmo tempo. O ponto interessante não é tentar prever uma repetição do passado, e sim observar em que contexto econômico um novo evento de grande intensidade vai se inserir.

A economia global de 2026 carrega os efeitos de anos de choques sucessivos. Pandemia, conflitos geopolíticos, reorganização das cadeias de suprimentos, maior preocupação com segurança energética e pressões sobre infraestrutura mudaram a forma como empresas e governos enxergam risco. Ao mesmo tempo, temos hoje muito mais informação, tecnologia e capacidade de antecipação do que nas décadas anteriores, e essa combinação torna a adaptação particularmente relevante.

Preparar uma rede elétrica para condições climáticas diferentes, garantir segurança hídrica, diversificar fornecedores ou reforçar uma infraestrutura crítica pode parecer uma discussão ambiental quando vista isoladamente, mas na prática são decisões econômicas. E talvez esse tenha sido um dos pontos mais interessantes da Climate Week: o clima apareceu menos como uma agenda paralela e mais como uma variável presente em decisões que já seriam tomadas de qualquer maneira.

O mesmo raciocínio vale para a transição energética, cuja discussão não envolve somente reduzir emissões, mas também preço, disponibilidade, segurança de suprimento, infraestrutura e capacidade industrial. A economia circular apareceu conectada à eficiência no uso de recursos e à dependência de matérias-primas, enquanto a biodiversidade começa a entrar nas discussões sobre risco e capital. Os temas estão mais interligados porque a implementação exige essa aproximação.

Para o Brasil, essa discussão chega em um momento especialmente relevante. Somos uma economia exposta aos efeitos do clima na agricultura, na geração hidrelétrica, na infraestrutura e na logística, mas também temos vantagens importantes em energia renovável, recursos naturais e capacidade de produção. A questão será transformar essas características em competitividade em uma economia internacional que começa a incorporar clima às decisões de investimento e comércio.

Saio desta Climate Week com a percepção de que a agenda amadureceu. Não porque os compromissos perderam importância, mas porque agora existe uma cobrança muito maior sobre o caminho entre o compromisso e o resultado. Já sabemos bastante sobre o problema e sobre onde queremos chegar. A discussão agora está no meio do caminho: quem executa, quem financia, quanto custa e como preparar a economia para aquilo que já sabemos que vem pela frente.

Fernanda Faret, diretora-presidente da Ambix Ambiental