Por Lorë Kotínski

Existe um turismo que faz diferença quando ele, de verdade, muda a vida das pessoas. Embarquei para conhecer de perto o Juma Amazon Lodge, o primeiro hotel de selva no Amazonas a conquistar o Selo Green Key, e me deparei com muito mais do que práticas ambientais. Encontrei histórias de pessoas que passaram a viver do turismo, comunidades que participam dessa cadeia e uma operação que mostra, na prática, que é possível oferecer uma experiência de alto padrão sem perder a conexão com a floresta.

O Juma nasceu de um sonho. Um sonho de fazer turismo na Amazônia e, ao mesmo tempo, construir uma relação verdadeira com as comunidades que vivem nesse território. É assim que Aparecida Ikeda, sócia-fundadora do empreendimento, explica a origem do projeto.

“Começou de um sonho de fazer turismo na Amazônia. E, como amazonense, eu sempre tive o compromisso de fazer isso utilizando e contando com a contribuição da comunidade. Eu só acredito nessa forma de turismo: um turismo que mude a vida das pessoas da região amazônica e que ofereça também ao cliente uma experiência em que ele possa perceber como é estar, de fato, na floresta”, afirma Aparecida (foto abaixo).

Talvez seja justamente essa frase que melhor explique o que encontrei no Rio Juma: um turismo que mudou, e muda todos os dias, a vida das pessoas.

O Juma Amazon Lodge está localizado no município de Autazes, no Amazonas, em uma região onde o rio e a floresta determinam o ritmo da vida. São três horas de percurso a partir de Manaus, entre lancha rápida com direito a parada no Encontro das Águas, atração turística que mostra o encontro das águas dos rios Negro e Solimões, depois percurso de micro-ônibus próprio do hotel e mais uma vez lancha rápida.

O empreendimento, rodeado pelo Rio Juma, possui 20 acomodações e foi construído sobre palafitas, respeitando uma característica tradicional das construções amazônicas e, principalmente, a dinâmica das águas. Ali, o nível das águas muda radicalmente ao longo do ano, alternando em até 10 metros entre os períodos de cheia e vazante. As coberturas de palha, feitas artesanalmente com palmeiras da região, como o buriti, completam a arquitetura integrada à paisagem.

A entrada é um píer ladeado de cipós, que descem das árvores como se fossem parte da decoração. A piscina, com vista panorâmica, utiliza a própria água do rio Juma. O hóspede pode nadar na água que corre pelo rio diante do hotel, mas com toda a segurança e comodidade de estar é uma área de lazer protegida e atendida por serviço de bar. E como se isso não bastasse, é possível ver a floresta acima do topo das árvores. Uma torre de observação, com cerca de 31 metros de altura, proporciona uma visão privilegiada da e é um dos melhores lugares para observar o nascer do sol.

Seus bangalôs, a maior parte equipada com ar-condicionado, oferecem cama king size, enxoval da marca Trousseau, frigobar, ducha quente e fria e cafeteira elétrica, por exemplo. Nos bangalôs mais exclusivos, como o Panorâmico e o Juma, as varandas voltadas para o Rio Juma e para a floresta, são decoradas com espreguiçadeiras estofadas e chaise long. Um convite à contemplação e ao desacelerar. Uma verdadeira imersão que é proposta desde a chegada ao lodge, onde o guia já avisa: “acesso à internet somente na recepção”. Sim, o convite é experienciar a natureza. Mas com conforto e sofisticação.

Quando a floresta vira oportunidade

O hotel acolhe e conforta. A Floresta Amazônica encanta. Mas foram as histórias das pessoas que conversei que comprovaram que o Juma Lodge vai muito além da hospedagem. Ali tem impacto social positivo real. Cerca de 90% dos funcionários do empreendimento são moradores das comunidades do entorno. Entre eles está Marquinhos, guia comunitário, que conduz os visitantes pelos rios e pela floresta e transforma em trabalho um conhecimento construído ao longo de toda uma vida naquele território.

E há Francisco dos Santos (foto abaixo), 68 anos, nascido e criado na comunidade do Rio Juma. Comunitário, filho de seringueiro, Francisco já foi agricultor e cultivou seringa. Também viveu uma realidade em que a relação com a terra e com a floresta era muito diferente da que mantém hoje. O turismo, segundo ele, mudou sua vida. E de muitos outros. Francisco estima que cerca de 500 pessoas sejam beneficiadas direta ou indiretamente pelas diferentes operações de turismo existentes na região do Rio Juma. Na avaliação dele, aproximadamente 70% desse impacto estaria relacionado à operação do Juma Amazon Lodge.

Hoje, Francisco vive de receber visitantes em sua propriedade, repleta de árvores amazônicas, como o cacau e a castanheira. Ali, ao pé do forno de barro, ele mostra o processo de colheita da mandioca, também cultivada por ele, e da produção de farinha, da goma e do tucupi. Iguarias da gastronomia do Norte do Brasil. Curiosos os turistas ficam atentos a cada etapa da explicação. Para Francisco significa que o conhecimento que faz parte da sua história é hoje sua fonte de renda.

Ao final da visita, ele oferece um café, também torrado e moído ali. Sua nora vende biojoias, feitas com sementes da Amazônia. A sala de estar da casa de Francisco e da sua família, toda em madeira e coberta de palha, com um trançado quase artístico, é agora o centro da visita. É uma experiência que não precisa de cenários artificiais. A riqueza está, exatamente, na originalidade, na realidade dos moradores do Rio Juma.

Sustentabilidade que se vê

Foi essa relação com as pessoas e a natureza que fez com que eu fosse conhecer de perto o Juma Amazon Lodge e entender seu selo Green Key, certificação internacional voltada à sustentabilidade no setor de turismo, criada pela Foundation for Environmental Education, uma organização internacional sem fins lucrativos de educação ambiental. O empreendimento foi reconhecido em 2025, e acaba de ser revalidado, por suas práticas relacionadas à gestão ambiental, energia, água e resíduos.

E não foi por acaso. É fruto de investimento e trabalho contínuo. O hotel possui uma estrutura de geração de energia solar própria. São 333 painéis, com capacidade instalada de 185 kWp, além de sistema de aquecimento solar de água. A usina foi instalada em uma estrutura elevada, reduzindo a necessidade de intervenção na vegetação.

A água também recebe atenção especial. O Juma utiliza água de poço artesiano e mantém um sistema de filtragem na recepção. Cada hóspede recebe uma garrafa de metal para abastecer sempre que quiser. Não há água mineral em garrafas plásticas para os hóspedes. Também não há aquela sucessão de garrafas descartáveis que normalmente acompanha uma operação turística. Parece um detalhe. Não é. Em uma operação localizada dentro da floresta, reduzir a entrada e a geração de plástico significa também reduzir aquilo que precisa ser transportado e posteriormente retirado dali.

O mesmo cuidado aparece nos resíduos. Todo o material gerado pelo hotel é separado e destinado de acordo com sua possibilidade de reaproveitamento. Os recicláveis são encaminhados para a cidade e destinados a uma cooperativa de reciclagem. E os resíduos líquidos também não são simplesmente devolvidos ao ambiente.

O hotel possui sistemas de tratamento dos efluentes provenientes dos banheiros, da cozinha, da copa e do bar. O objetivo é tratar esses resíduos antes que retornem ao ambiente, reduzindo a carga poluidora. Há ainda um biodigestor para o tratamento de resíduos orgânicos, capaz de gerar biogás e fertilizante líquido.

A relação com o território chega também em forma de cursos gratuitos para pilotos de lanchas e barcos, ministrados a cada dois anos, em parceria do hotel com a Marinha do Brasil. E todos do hotel, da recepção ao pessoal da cozinha, seguem em constante capacitação.

E sobre a cozinha, este é um capítulo à parte. O Juma Lodge possui uma horta flutuante que produz parte das verduras e ervas utilizadas na cozinha. Alface, tomate, rúcula e manjericão estão entre os alimentos cultivados. É uma solução que combina adaptação ao ambiente amazônico, produção local e alimentação fresca.

O menu do restaurante é assinado pela mestre em Gastronomia e amazônida, Sofia Bendelack, e alterna entre bufê e serviço à la carte. Os pratos valorizam ingredientes e sabores regionais, mas não se limitam a eles. A experiência passa pelo peixe de água doce da região, como tambaqui e aruanã, mas também pode chegar a pratos tradicionais da gastronomia brasileira, como a feijoada. É uma forma interessante de apresentar a Amazônia sem transformar a gastronomia em uma experiência previsível.

E o hóspede pode experimentar à vontade. A hospedagem funciona no sistema pensão completa, com café da manhã, almoço, café da tarde e jantar, além de bebidas não alcoólicas, sucos regionais e diferentes opções ao longo do dia. Já na chegada, o visitante pode ser recebido com um welcome drink de frutas amazônicas, como o cupuaçu.

A floresta como experiência

Mas ninguém vai ao Juma Lodge somente para desfrutar da sua confortável infraestrutura.  Quem embarca nesse tipo de viagem quer ver, ouvir e conhecer a floresta e seus moradores. Por isso os passeios fazem parte do pacote de estadia e incluem caminhadas pela floresta, passeios de canoa pelos igarapés e igapós, observação de aves, passeio noturno, observação do amanhecer, visita à torre de observação, visita a comunidades, plantio de árvores e experiências relacionadas ao modo de vida das populações locais.

Dependendo do roteiro e da duração da estadia, também é possível realizar experiências mais imersivas, como pernoite na floresta. E existe algo que nenhum roteiro consegue garantir: a surpresa. Porque, quando se entra na floresta, ela se mostra de maneiras que não estão programadas.

Como na saída de barco que fizemos rumo à uma comunidade e, com o olhar atento de do guia Marquinho, vimos um grupo de macacos-prego com filhotes brincando às margens do rio. A cena parecia cuidadosamente preparada para os visitantes, mas não era. Era a floresta acontecendo diante dos nossos olhos.

No mesmo dia, no caminho de volta para o hotel, outro espetáculo. O pôr do sol laranja já seria suficiente para guardar a imagem na memória. Mas, enquanto a luz mudava sobre o rio, vários botos apareceram, brincando e mergulhando enquanto tentavam capturar peixes. Um daqueles momentos em que até quem nasceu e vive na Amazônia se cala para observar.

Mas o que mais importa nesses passeios não é apenas aquilo que se vê. É quem conta a história. Quando um guia comunitário, como Marquinhos (foto abaixo), conduz um visitante por um igarapé ou por uma trilha, ele não está simplesmente mostrando a floresta. Ele está compartilhando conhecimento sobre aquele território. E isso não tem preço.

 

Crianças descobrindo a Amazônia

Como em toda viagem que faço, são as pessoas que contam de verdade sobre aquele destino. Mesmo quando elas são turistas. Durante a minha estadia, havia duas famílias com cinco crianças, todas com no máximo sete anos de idade. Os pais tinham escolhido levar os filhos para conhecer a Amazônia. Queriam mostrar a floresta, a beleza daquele lugar, a forma como as comunidades vivem e, principalmente, por que é importante preservar.

 

Aquilo me chamou atenção. Porque existe uma diferença entre ouvir falar da Amazônia e estar dentro dela. Para aquelas crianças, a floresta não era uma fotografia. Era o rio, o som dos animais, a caminhada, a canoa, as pessoas, a farinha, as árvores e todas as histórias que fazem daquele território muito mais do que uma paisagem. O turismo, nesse caso, também se transforma em educação. Uma criança que conhece a floresta e conversa com quem vive nela pode voltar para casa levando muito mais do que fotografias. Pode levar uma compreensão diferente sobre o valor daquele lugar.

Um turismo que é de todos 

Talvez uma das coisas mais interessantes do Juma Lodge seja justamente essa combinação. De um lado, existe o conforto e, do outro,  a floresta em sua dimensão mais real: o rio que sobe e desce, a casa comunitária, a farinha de mandioca, as biojoias de sementes, os guias locais, a horta flutuante, a palha das coberturas, os sons da mata e a vida das comunidades.

Uma coisa não precisa necessariamente excluir a outra. O desafio está em fazer com que o conforto não venha acompanhado de desperdício e que a experiência turística não aconteça à custa das pessoas que vivem no território. No Juma Amazon Lodge, essa equação aparece de várias formas. Na contratação de moradores locais. No trabalho de Francisco. Nos guias comunitários. Na separação dos resíduos. E em todas as boas práticas de sustentabilidade que encontrei no hotel.

Aparecida Ikeda me disse que só acredita em um turismo que mude a vida das pessoas da Amazônia e permita ao visitante perceber como é estar, de fato, na floresta. Depois de conhecer o Juma Lodge, essa frase ganha outro significado. Porque sustentabilidade não está apenas na tecnologia utilizada por um hotel ou em um selo colocado na parede.

Ela também pode estar na história de um homem como Francisco, que hoje consegue viver recebendo turistas e ensinando a fazer farinha. Pode estar no guia Marquinhos, que transforma o conhecimento sobre o território em profissão. Pode estar nas famílias que chegam com seus filhos para conhecer a Amazônia. Pode estar na gastronomia, quando um tambaqui ou um aruanã chega à mesa e conta, também, uma parte da história daquele lugar.

Pode estar nos encontros inesperados com os animais, nos macacos-prego brincando às margens do rio ou nos botos transformando o fim de tarde em espetáculo. E pode estar na própria floresta, quando ela deixa de ser vista apenas como algo a ser explorado e passa a ser reconhecida também como fonte de conhecimento, experiência, trabalho e renda.

No Rio Juma, eu encontrei um turismo que não se limita a levar pessoas para conhecer a Amazônia. Ele também mostra que, quando bem construído, o turismo pode fazer com que a Amazônia seja conhecida sem deixar de pertencer a quem vive nela.

Saiba mais em: www.jumalodge.com.br |  +55 11 95783 9254