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Propostas de presidenciáveis para saúde dependem de verba extra de SUS já estrangulado

Fonte: www1.folha.uol.com.br | Data: 30/09/2026 12:14:24

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Quase todas das propostas para a saúde (95%) apresentadas nos planos de governo de seis candidatos à Presidência exigem recursos orçamentários adicionais para serem colocadas em prática.

É o que mostra um levantamento do Ieps (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde) em parceria com a Umane, divulgado nesta quarta-feira (30).

O estudo analisou 95 propostas dos candidatos com ao menos 2% das intenções de voto em pesquisa Datafolha realizada de 8 a 10 de setembro: Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante).

A necessidade de ampliar os recursos para a saúde ocorre em um cenário de pressão sobre o financiamento do SUS (Sistema Único de Saúde).

Um estudo da IFI (Instituição Fiscal Independente) estima que a necessidade de financiamento da saúde pela União deve crescer, em média, 3,9% ao ano acima da inflação na próxima década.

A regra fiscal vigente (Regime Fiscal Sustentável), porém, permite crescimento de até 2,5% ao ano para o conjunto das despesas. Com isso, a necessidade projetada já supera em R$ 29,7 bilhões o mínimo constitucional obrigatório para a saúde em 2030.

Para Júlia Pereira, gerente de relações institucionais do Ieps, as propostas dos presidenciáveis deveriam, no mínimo, indicar de onde virá o dinheiro necessário para a sua execução.

O envelhecimento da população é um dos principais fatores que contribuem para essa pressão orçamentária, ao lado da incorporação de novas tecnologias e da ampliação do acesso aos serviços.

Segundo projeções do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a parcela da população brasileira com 65 anos ou mais passou de 6%, em 2000, para 12% em 2026, e deve chegar a 23% em 2050.

O avanço desse grupo etário tende a aumentar a demanda por consultas, exames, medicamentos e internações, além de ampliar a necessidade de cuidados para doenças crônicas.

O levantamento também aponta uma distância entre a necessidade de ampliar o financiamento e o patamar atual de gasto público no setor.

A referência utilizada pelo Ieps indica que o gasto público em saúde deveria atingir 6% do PIB até 2030. Entre 2018 e 2023, porém, a fatia avançou apenas de 3,9% para 4,3% do PIB.

Execução depende de estados e municípios

O dinheiro é apenas parte do problema. Das 95 propostas, 79 (83%) dependem de algum grau de articulação entre União, estados e municípios.

Isso ocorre porque o SUS é descentralizado. Embora o governo federal possa criar políticas e definir regras nacionais, grande parte dos serviços é executada por estados e municípios.

Um exemplo são as propostas de reorganização das filas do SUS. Cinco dos seis candidatos defendem que o atendimento deixe de seguir apenas a ordem de chegada e passe a considerar critérios como gravidade e risco clínico.

O problema é que, para uma fila desse tipo funcionar nacionalmente, os sistemas de estados e municípios precisam trocar informações, as filas de atenção primária precisam estar conectadas às de exames, e especialistas e governos locais precisam ter capacidade para organizar a regulação regional.

Uma regra nacional, portanto, não é suficiente para mudar, sozinha, a forma como os pacientes são encaminhados dentro do SUS.

Mais de metade das propostas já existe no SUS

Outro achado do levantamento é que 56% das propostas, ou 53 das 95 analisadas, correspondem total ou parcialmente a políticas, programas ou normas que já estão em vigor no SUS.

Um dos exemplos é justamente a organização das filas por risco clínico. A Política Nacional de Regulação em Saúde do SUS, aprovada em dezembro de 2025, já estabelece que o acesso deve considerar risco e vulnerabilidade.

A digitalização também aparece nos seis planos. Todos propõem algum tipo de prontuário eletrônico nacional e ampliação da telemedicina.

O país, porém, já possui a RNDS (Rede Nacional de Dados em Saúde), que integra informações de diferentes sistemas. Desde 2025, o Ministério da Saúde também estabelece a identificação por CPF para a implantação do prontuário eletrônico unificado.

Para Pereira, o problema não é necessariamente propor algo que já existe, mas não explicar o que será diferente.

“Quando um candidato promete algo que já existe, a pergunta que fica sem resposta é: o que exatamente ele faria diferente? Mais dinheiro? Mais integração? Corrigir uma falha específica de implementação? Na maioria dos casos, o plano não detalha isso, só reafirma um objetivo que já é política pública em curso, sem dizer o que mudaria na prática”, afirma.

No caso do plano de Lula, por exemplo, 19 das 21 propostas analisadas pelo instituto correspondem total ou parcialmente a políticas ou programas já em vigor. Entre elas estão o PADI Brasil, a Política Nacional de Regulação em Saúde e o Agora Tem Especialistas.

Temas que ficaram fora dos planos

O levantamento também identificou três questões que, segundo o IEPS, devem pressionar o sistema de saúde nos próximos anos, mas não aparecem nos seis planos ou são tratadas apenas superficialmente.

São elas apostas online, mudanças climáticas e impactos do ambiente digital sobre a saúde mental de crianças e adolescentes.

No caso das apostas, o instituto estima que 12,8 milhões de brasileiros apostaram online em 2025. Cerca de 1,4 milhão estaria em situação de jogo problemático. O IEPS estima em R$ 30,6 bilhões anuais os custos associados aos danos à saúde relacionados às apostas.

O tema aparece nos planos principalmente associado ao endividamento e ao orçamento familiar, sem ser tratado como uma questão de saúde pública.

Na área de clima, o IEPS chama atenção para a vulnerabilidade da própria rede de atendimento. Segundo o levantamento, 29% dos estabelecimentos do SUS estão a menos de 500 metros de áreas de alto ou muito alto risco geológico. A proporção é de 26% dos leitos e 20% dos leitos de UTI.

“Ou seja, quase um terço da rede física do SUS está em zona vulnerável a evento climático extremo, e isso não aparece no radar de nenhum candidato”, diz Pereira.

Ela acrescenta que “dados meteorológicos já permitem antecipar surtos de dengue com até três meses de antecedência, só que o sistema de monitoramento climático não conversa formalmente com o sistema de planejamento de saúde. A informação existe, a antecipação seria tecnicamente possível, mas falta a ponte institucional entre os dois lados.”

O terceiro ponto é a saúde mental de crianças e adolescentes no ambiente digital. As regras do ECA Digital começaram a vigorar em março de 2026, mas nenhum dos seis planos propõe a regulação das plataformas digitais como instrumento de proteção à saúde mental dessa população.