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População de jumentos cai 94% no Brasil, e cientistas se mobilizam contra abate

Fonte: veja.abril.com.br | Data: 30/09/2026 11:44:00

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Três jumentos em um campo verde. Um jumento cinza-claro olha para frente, enquanto dois jumentos marrons se abraçam, um mordiscando o pescoço do outro. Ao fundo, uma colina coberta por vegetação densa sob um céu claro
Jumentos são alvo de mobilização de cientistas, veterinários e entidades de proteção animal contra o abate e o comércio de suas peles no Brasil (Divulgação/Divulgação)

Uma mobilização internacional reúne nesta quarta-feira, 30, cientistas, médicos-veterinários, advogados e organizações de proteção animal para pedir o fim do abate de jumentos no Brasil. A campanha, que prevê a publicação simultânea de vídeos nas redes sociais, ocorre em meio ao declínio acentuado da população desses animais no país e à disputa judicial e legislativa sobre a atividade.

Dados compilados a partir de informações da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do sistema de comércio exterior brasileiro apontam queda de 94% na população de jumentos nas últimas décadas. A estimativa mais recente citada pelas entidades envolvidas na campanha indica cerca de 78 mil animais no país em 2025, ante aproximadamente 1,3 milhão no fim dos anos 1990.

O número, porém, deve ser tratado como uma estimativa. O IBGE não realiza uma pesquisa específica atualizada sobre a população de asininos desde 2016. A Pesquisa da Pecuária Municipal, que contabilizava jumentos e jumentas como asininos, tem como último ano disponível nessa série a contagem de 2016.

A queda populacional coincide com a expansão do comércio internacional de peles de jumento. O couro é utilizado na fabricação do ejiao, uma gelatina rica em colágeno empregada na medicina tradicional chinesa. O aumento da demanda fez com que empresas passassem a buscar animais em países onde não existe uma cadeia estruturada de criação para essa finalidade.

No Brasil, os animais são principalmente recolhidos ou capturados no Nordeste e transportados para propriedades de confinamento antes de chegar aos frigoríficos. Segundo pesquisadores, o modelo difere de uma criação pecuária convencional porque não há um sistema de reprodução capaz de repor, em escala comercial, os animais abatidos.

Um estudo publicado na revista científica Animals avaliou 104 jumentos destinados ao abate e encontrou sinais de inflamação sistêmica em grande parte dos animais analisados. Os autores também apontaram problemas de rastreabilidade e de manejo ao longo da cadeia.

Demanda chinesa

O principal destino econômico das peles é a cadeia de produção do ejiao. A The Donkey Sanctuary estima que a indústria global necessite de milhões de peles por ano. Dados apresentados em audiência pública na Câmara dos Deputados em maio deste ano indicaram que o mercado do produto passou de 3,8 bilhões de dólares em 2015 para 7,2 bilhões de dólares em 2022. A demanda por peles, segundo a entidade, era estimada em 1,2 milhão de unidades em 2013 e poderia chegar a 6,8 milhões em 2027.

O problema é que os jumentos têm reprodução lenta. A gestação dura cerca de 12 meses e a espécie apresenta baixa taxa reprodutiva. Pesquisas publicadas sobre o comércio internacional de peles apontam que, fora de poucos países com criação estruturada, o fornecimento depende principalmente da captura ou da compra de animais já existentes.

A atividade também perdeu espaço em razão da mecanização do campo. Historicamente utilizados como animais de carga e transporte, os jumentos deixaram de ter a mesma função econômica em áreas rurais. No Nordeste, entretanto, a espécie continua associada à agricultura familiar e à cultura regional.

O declínio levou países africanos a adotar medidas de restrição. Em 2024, a União Africana reconheceu a rápida redução das populações de jumentos provocada pela demanda internacional por peles e pediu à Comissão da entidade a elaboração de uma posição comum e de uma moratória contra o abate de animais para exploração comercial das peles.

Bahia concentra a disputa

A Bahia tornou-se o principal foco brasileiro da controvérsia. Dados apresentados por organizações de proteção animal indicam que cerca de 248 mil jumentos foram abatidos no estado entre 2018 e 2024. A Bahia é também o único estado brasileiro que, segundo essas entidades, chegou a ter três frigoríficos licenciados pelo Serviço de Inspeção Federal para esse tipo de abate.

Em abril deste ano, a 1ª Vara Federal da Bahia determinou a proibição do abate de jumentos, muares e bardotos em todo o estado. A decisão foi tomada em uma ação civil pública e apontou, entre outros fatores, ocorrência de maus-tratos, transporte inadequado e risco à sobrevivência da espécie. A sentença ainda está sujeita a recursos.

A decisão judicial não estabeleceu uma proibição nacional. A legislação brasileira permite o abate de equídeos desde que sejam observadas as regras sanitárias e de bem-estar animal. O que a Justiça Federal da Bahia concluiu foi que, naquele caso, as condições verificadas não atendiam às exigências legais.

A disputa também chegou ao Congresso. Na Câmara, o Projeto de Lei 2. 387/2022 proíbe o abate de equídeos e equinos para comércio de carne, consumo ou exportação. A proposta está pronta para ser pautada na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania.

No Senado, o Projeto de Lei 2. 613/2026, apresentado em maio, propõe especificamente a proibição do abate de jumentos em todo o território nacional. Em julho, a matéria estava sob relatoria do senador Luis Carlos Heinze na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária.

Risco sanitário

Além do bem-estar animal, pesquisadores apontam questões sanitárias. O principal problema é a origem pouco conhecida de parte dos animais que entram na cadeia. Jumentos podem ser recolhidos em diferentes localidades e posteriormente reunidos em propriedades de confinamento, o que dificulta reconstruir seu histórico sanitário.

Estudos anteriores sobre a cadeia brasileira apontaram risco de disseminação de doenças como o mormo e a anemia infecciosa equina. Uma pesquisa publicada em periódico da USP também chamou atenção para a ausência de exames e de rastreabilidade em diferentes etapas do processo.

O Ministério da Agricultura mantém sistemas públicos de consulta que registram abates, doenças e condenações por espécie, incluindo os asininos. A base oficial permite acompanhar os dados dos estabelecimentos submetidos ao Serviço de Inspeção Federal.

Pesquisadores também discutem a possibilidade de exposição dos animais a contaminantes ambientais, mas ainda não há estudos suficientes para estabelecer a concentração de metais pesados nos jumentos abatidos no Brasil. A hipótese, portanto, não permite afirmar que exista atualmente um risco comprovado de contaminação dos produtos brasileiros por essas substâncias.

Alternativa ao abate

Uma das linhas de pesquisa apresentadas pelos defensores da proibição busca justamente eliminar a necessidade da pele do animal. Pesquisadores da Universidade Federal do Paraná estudam a produção de colágeno de jumento por fermentação de precisão.

A técnica consiste em inserir em microrganismos, como leveduras, a sequência genética responsável pela produção do colágeno. Os microrganismos passam então a produzir a proteína em laboratório, sem a necessidade de retirar a pele de um animal.

O projeto é financiado pelo Ministério do Meio Ambiente e pela Fundação Araucária e está sendo desenvolvido pelo Laboratório de Zootecnia Celular da UFPR.

Para os pesquisadores envolvidos na mobilização, a alternativa pode permitir a produção do colágeno utilizado pelo mercado sem depender da retirada de peles. O desafio é transformar a tecnologia em uma alternativa economicamente viável em escala comercial.

O debate sobre os jumentos, portanto, envolve três questões diferentes: a queda da população brasileira, a viabilidade econômica e reprodutiva da cadeia de peles e os padrões sanitários e de bem-estar empregados na captura, transporte, confinamento e abate.

Enquanto entidades de proteção animal defendem uma proibição nacional, frigoríficos e agentes ligados à atividade sustentam a existência de uma cadeia regulada. A decisão da Justiça Federal na Bahia e os dois projetos em tramitação no Congresso devem manter o tema em discussão nos próximos meses.