De hits internacionais a obras obscuras, Festival do Rio dá pontapé inicial com seleção para ‘agradar todas as tribos’
Fonte: oglobo.globo.com | Data: 01/10/2026 03:44:12
O Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro estende hoje o tapete vermelho para sua 28ª edição. Por 11 dias, a capital fluminense respirará sétima arte com a exibição de aproximadamente 300 filmes em 14 cinemas e espaços culturais da cidade. O drama “A bola preta”, vencedor do prêmio de melhor direção no Festival de Cannes e escolhido o representante da Espanha no Oscar 2027, será o responsável por dar o pontapé inicial na programação com sessão para convidados no Cine Odeon — Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro, na Cinelândia, no Centro. Dirigido por Javier Calvo e Javier Ambrossi, o longa acompanha três homens de três épocas diferentes (1932, 1937 e 2017) cujas vidas estão intimamente ligadas pelo desejo, pela dor e pela herança.
— O cinema é uma trégua na vida, duas horas para você estar em coletivo e dedicado ao universo que a sala escura propõe. Um festival de cinema serve para lembrar que essa experiência da “trégua” é necessária, uma terapia, uma possibilidade de entender o mundo sem o ruído intenso da vida cotidiana — destaca Ilda Santiago, diretora executiva do Festival do Rio.
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‘Testar a curiosidade’
Todos os anos, ela e sua equipe se propõem a desenvolver uma programação capaz de agradar a diferentes tribos de cinéfilos (confira alguns perfis abaixo). Daqueles que buscam os filmes mais falados dos grandes festivais de cinema internacionais àqueles que procuram os projetos mais obscuros vindos de filmografias que geralmente não chegam ao circuito comercial do país.
— As tribos do Festival do Rio se modificaram ao longo dos anos. Em quase 30 anos, tendências e gostos mudaram muito. Nosso grande desafio é descobrir esses movimentos e o que querem essas tribos — aponta Ilda. — A programação é um exercício de conexão com vários públicos. A ideia não é agradar a todo mundo mas, na verdade, testar a curiosidade de muita gente. Dar a opção de filmes que podem não estar no radar mas vão agradar, vão dar novas perspectivas, propor novas histórias e linguagens.
Além de “A bola preta”, o evento reunirá muitas outras obras que passaram por festivais internacionais, como “Cartas amarelas”, de Ilker Çatak, vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim, ou “Cavalo selvagem nove”, de Martin McDonagh, que rendeu a John Malkovich a Copa Volpi de melhor ator no Festival de Veneza, além de novos trabalhos de cineastas como Mike Leigh, Werner Herzog, Bassam Tariq, Sofia Coppola, Hirokazu Kore-eda, Asghar Farhadi, Danny Boyle, Jesse Eisenberg e Karim Aïnouz.
— O festival é a oportunidade de mergulhar em uma curadoria com o melhor do cinema mundial ao longo de 11 dias — diz o youtuber Caio Muniz, de 35 anos, que tem um lado de cinéfilo ansioso. — Gosto de me programar com os filmes que se destacaram nos festivais ao redor do mundo e tento encaixar ao máximo os filmes brasileiros na competição.
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Responsável pelo canal de dicas gastronômicas “Caio pra dentro”, Muniz destaca “Club Kid”, de Jordan Firstman, outra sensação de Cannes, como uma das obras da programação que mais quer ver. Já o professor Alexandre Valuzuela, de 65 anos, está ansioso pelo brasileiro “Feito pipa”, de Allan Deberton, escolhido o representante no país na corrida pelo Oscar do ano que vem, e pelo austríaco “Rose”, que rendeu a Sandra Hüller o prêmio de melhor atriz em Berlim. Ele, no entanto, também pretende mergulhar em obras mais, digamos, “diferentonas”.
— É uma oportunidade de assistir a filmes contemporâneos que terei dificuldade de ver nos cinemas ou no streaming. Tem a mostra de filmes alternativos, a Midnight Movies, com curadoria de películas fora do mainstream. Também gosto de assistir a documentários que muitas vezes não entram em cartaz — conta Valuzuela.
O cineasta (e cinéfilo) Kaio Caiazzo, de 34 anos, experimenta o Festival do Rio como um “abraço entre gerações do cinema brasileiro”. Ele apresenta seu novo curta-metragem, “Tempos de inocência”, codirigido com Gregory Baltz, 11 anos após estrear no evento como ator em “Através da sombra”, de Walter Lima Jr.
— Embora o Festival do Rio tenha essa potência internacional e traga inúmeros lançamentos do mundo inteiro, minha atenção sempre se volta para a Première Brasil, novas vozes e propostas sendo realizadas por aqui — diz Caiazzo, que também monta sua programação priorizando sessões com debates ou presença dos cineastas e equipes. — O grande barato é essa chance de assistir aos filmes com quem realizou, ter essa troca e contato direto com figuras que admiramos pelas telas. De repente, estão ali, diante dos olhos. Foi assim com Juliette Binoche, Paul Schrader, Franco Nero e tantos convidados ilustres que pude conhecer graças ao Festival.
‘Uma correria que chega a ser prazerosa’
O Festival do Rio contempla em seu público o cinéfilo que acompanha o evento desde sua primeira edição, em 1999, como a aposentada Maria Cristina Merquior, de 78 anos, que brinca viver uma relação de “amor e ódio” com o festival.
— Adoro ver vários filmes, mas não gosto muito de cinema lotado — diverte-se Merquior. — Já cheguei a ver cinco filmes por dia, mas hoje estou mais calma.
Quem ainda mantém a agenda lotada, com vários filmes por dia, é o público mais jovem, que vem alavancando a programação do circuito de arte ao longo do ano e que também se dedica a aproveitar tudo o que o evento tem de melhor.
— O Festival do Rio é um dos melhores momentos do ano, uma correria que chega a ser prazerosa. Aqueles dias em que temos que sair de Botafogo correndo para o Centro para não perder o terceiro filme visto no dia, não tem nada igual. Além de ser um ambiente onde sempre podemos nos lembrar do nosso amor pelo cinema, conhecer pessoas como nós e ver que existe espaço no Rio e no Brasil para o cinema — diz o estudante Alexandre Matera, de 16 anos. — Eu já sofri bastante pra montar minha programação, não dá pra acertar sempre. É até um pouco mais difícil do que parece fazer essa curadoria da curadoria, sincronizá-la com horários e ainda ter que pensar no nosso gosto com filmes que ainda têm pouquíssimas avaliações.
Além da programação internacional, o Festival do Rio tem como um de seus destaques a Première Brasil. Este ano, serão exibidas 101 produções audiovisuais nacionais, entre longas, curtas e séries.
A disputa pelo troféu Redentor na mostra competitiva principal (melhor longa de ficção) reúne dez filmes, incluindo obras já reconhecidas em eventos internacionais, como “A margem do rio”, de Matheus Farias e Enock Carvalho, vencedor do Prêmio Especial do Júri do Festival de Locarno; “London”, de Victor Di Marco e Márcio Picoli, premiado com o Leão Queer do Festival de Veneza; “Vicentina pede desculpas”, de Gabriel Martins, exibido no Festival de Toronto; e “A professora de francês”, de Ricardo Alves Jr., exibido em San Sebastián. Completam a disputa: “Diário do fogo”, de Maju de Paiva e Bernardo Florim; “Ela foi ali guardar o coração na geladeira”, de Cristiane Oliveira e Gustavo Galvão; “O Filho da Puta”, de Erica Maradona, Tania Anaya, Otto Guerra e Sávio Leite; “Funk”, de Aly Muritiba; “Maria de Maria”, de Luiza Shelling Tubaldini; e “Oceânico”, de Guilherme Coelho.
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A psicóloga Carolina Licks, de 31 anos, destaca “Feito pipa”, exibido fora de competição, “Vicentina pede desculpas” e “London” como alguns dos filmes que mais quer ver no evento.
— Moro no Rio de Janeiro há quase seis anos, venho do interior do Rio Grande do Sul, portanto, sempre precisei viajar para chegar até uma sala de cinema, além da limitação de gêneros de filmes. Dessa forma, considero que minha relação com o festival é de muito encantamento e intensidade, pois experimento a cidade cheia de salas de cinema com os filmes dos mais variados gêneros — aponta Licks.
As tribos do Festival
- Ansioso: É interessado nos filmes mais badalados do evento, que provavelmente chegarão aos cinemas brasileiros, mas que não quer esperar até lá. São títulos que, em geral, passaram por festivais internacionais como Berlim, Cannes, Veneza e Toronto, e que têm boas chances de marcar presença na corrida pelo Oscar.
- Fominha: Aquele que tira férias para acompanhar o Festival do Rio. É o cinéfilo que quer abraçar o mundo e tenta conferir tanto os filmes mais populares quanto os mais alternativos. Quanto mais ele conseguir ver, melhor. Quer marcar um programa com ele fora do cinema? Melhor esperar até o dia 12 de outubro.
- Diferentão: Adora um filme alternativo. Quando mais obscuro, melhor! Muitas vezes, faz sua programação com base nos filmes que terão mais dificuldade para encontrar espaço no circuito cinematográfico brasileiro. Filmes da mostra Midnight Movies e obras de países de filmografia mais inacessível estão entre os favoritos da tribo.
- Estudioso: Aquele cinéfilo dedicado a ampliar seu repertório. Ele até quer ver os filmes novos, mas também não dispensa uma retrospectiva de cineastas clássicos e de referências da sétima arte. Desta vez, deve se debruçar nas retrospectivas de cineastas como Michael Haneke, Wim Wenders e Rosa von Praunheim.
- Brasileirinho: Aqui o clima é de Copa do Mundo. O cinéfilo que não liga para a parte internacional do evento e que dedica boa parte de sua programação a descobrir o que tem de melhor dentre os mais de cem filmes da Première Brasil. A seleção inclui destaques de festivais internacionais, docs sobre figuras conhecidas, curtas e muito mais.