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Do jogo à dívida: como o vício em Bets afeta famílias brasileiras e transforma apostas em perdas

Fonte: ndmais.com.br | Data: 01/10/2026 18:14:20

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Homens com 35 anos ou mais e maior escolaridade estão entre os mais afetados pelo vício em Bets. Estudo do Comsefaz estima que as famílias brasileiras tenham perdido R$ 62,5 bilhões somente em 2025Foto: Imagem gerada por IA/ND MaisHomens com 35 anos ou mais e maior escolaridade estão entre os mais afetados pelo vício em Bets. Estudo do Comsefaz estima que as famílias brasileiras tenham perdido R$ 62,5 bilhões somente em 2025Foto: Imagem gerada por IA/ND Mais

João*, 53 anos, acumulou 23 contas de água atrasadas e mais de um ano de conta de luz. Mesmo com um trabalho fixo e salário depositado regularmente na conta, o dinheiro começou a sumir. Quando ainda era solteiro, gostava de jogar. Das apostas online passou também para as máquinas caça-níqueis que, embora ilegais, no país ainda são comuns em bares e pequenos comércios de bairro. Depois, encontrou uma companheira que gostava de jogar.

O que era um hobby foi se tornando algo incontrolável. O que parecia ser uma renda extra inicialmente se tornou uma doença. Se ganhava, queria ganhar mais. Se perdia, continuava a jogar, esperando ganhar e recuperar o que tinha sido perdido. Mas não recuperava. Coisas básicas de casa começaram a faltar.

Durante o primeiro ano de regulamentação das apostas online, os brasileiros perderam R$ 62,5 bilhões em apostas online somente em 2025, segundo o Boletim Fiscal dos Estados divulgado pelo Comsefaz (Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, Finanças, Receita ou Tributação dos Estados e do Distrito Federal). O cálculo considera a diferença entre o dinheiro apostado e os valores que retornaram aos jogadores.

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Precisou pedir dinheiro emprestado, primeiro um empréstimo consignado no banco, depois pequenos empréstimos com amigos e familiares, até chegar aos agiotas. Precisou vender o carro que já estava quitado para pagar as dívidas que se acumulavam. Os aluguéis também começaram a atrasar sem serem pagos. Em um dos piores momentos do vício, achou que acabaria morando na rua.

“O jogo é um vício danado. Você não quer fazer nada, todo o dinheiro que você pega, quer jogar e jogar. E é um buraco negro. Ali dentro você esquece da vida. Perde tudo, aí você vai perdendo a sua independência, perde até a sua família e você fica comprometido no jogo”, afirma.

Quando o relacionamento terminou, a ex-mulher contou para a família parte do que se passava. A filha T. O*., 21 anos, foi até a casa do pai para ver de perto a situação e se assustou ao notar que ele havia vendido quase tudo dentro de casa. Foi a virada necessária para sair da dependência do jogo e buscar tratamento.

“Foi uma sensação muito dura de entender, eu fiquei em choque. Foi uma sensação de desespero. Eu acho que foi a primeira vez que eu vi meu pai chorar em toda a minha vida. Então aquilo me deixou com uma aflição ainda maior. Eu fiquei com medo de perder o meu pai”, recorda a filha.

Quando a família descobriu a situação, João* já tinha também se dado conta do impacto do vício em Bets sobre sua vida. Havia vendido a máquina de lavar roupa para conseguir pagar o aluguel, estava devendo dinheiro para a própria mãe e para os irmãos e não tinha mais o que comer em casa.

Nesse processo, T. bloqueou o CPF do pai no site oficial do governo a fim de impedir que ele continuasse jogando online. A jovem organizou também uma rifa para ajudar a quitar as dívidas e repor o básico dentro de casa. Passou a acompanhar o pai na terapia e a incentivá-lo a retomar hábitos que geram bem-estar para ele, como cozinhar.

A história de João faz parte de um problema que também aparece nos dados de atendimento em saúde. Dados do Ministério da Saúde apontam aumento de 140% na busca por serviços de saúde mental no SUS por questões relacionadas à dependência de jogos online nos últimos cinco anos. Em maio de 2026, o Ministério da Fazenda divulgou que mais de 500 mil pessoas pediram a exclusão dos cadastros em plataformas de apostas online alegando, principalmente, a perda de controle.

No processo de compreensão do próprio vício em Bets, João* começou a escrever em um caderno sobre como a doença o atravessava, sobre as dificuldades de sair dos jogos. Começou a fazer terapia.

“Ele não ficava mal quando perdia. Ele lembrava que um dia ganhou e aquilo o fazia pensar que talvez ele ganharia novamente. Então foi muito dinheiro [perdido]”, relata a filha.

Para a filha, a influência da publicidade, principalmente em redes sociais, prejudica pessoas como o pai. “Meu pai é muito fã de futebol, tinha várias pessoas que ele segue do futebol e que estavam ali e eram o rosto das Bets”, constata.

O vício em Bets levou João, nome fictício, a escrever sobre tudo que perdeu com a doençaPara ajudar a superar o vício, João* passou a registrar em um caderno o que sentia, neste texto fala sobre o último jogo realizadoFoto: Arquivo Pessoal/ND Mais

Ele diz que hoje compreende que o melhor é não apostar pela primeira vez e recomenda guardar o dinheiro, investir, em vez de se arriscar no jogo. João registrou em seu caderno a data que apostou pela última vez: 11 de março de 2026.

“Eu perdi tudo, o dinheiro, a esposa. Mas acontece que o vício é tão grande que não deixa você parar. Eu pensei ‘não posso ficar desse jeito’”, relembra.

Vício em Bets ampliou o endividamento das famílias

Análise técnica do Banco Central sobre o mercado de apostas online e o perfil dos apostadores brasileiros, com base em agosto de 2024, já apontava que 24 milhões de pessoas realizaram ao menos um Pix para empresas de apostas. Sobre o perfil dos apostadores, estima-se que R$ 3 bilhões foram enviados usando o benefício Bolsa Família e saíram da conta de 5 milhões de brasileiros, sendo que quatro milhões eram os titulares que recebem o benefício social.

O estudo “Impacto das Apostas Online no Endividamento e Inadimplência das Famílias Brasileiras”, divulgado pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo),  afirma que as Bets cresceram de forma relevante desde 2023, ultrapassando R$ 30 bilhões de gastos anuais.

A análise considera o período de janeiro de 2023 a março de 2026 e compara com indicadores de endividamento pré-Bets, de maio de 2021 a dezembro de 2022. O estudo também considera que o contexto macroeconômico melhorou durante o período analisado. Segundo o levantamento, isso é relevante porque o aumento do endividamento e da inadimplência ocorreu mesmo diante de um cenário econômico mais favorável.

O estudo aponta que os gastos com Bets aumentaram mais de 500% no período, acompanhados pelo crescimento do endividamento e da inadimplência. Famílias de menor renda (com até três salários mínimos e de três a cinco salários mínimos) apresentam os maiores índices de inadimplência, o que significa que famílias de baixa renda são geralmente as mais vulneráveis aos efeitos das apostas online. No perfil dos públicos mais afetados aparecem ainda homens, com 35 anos ou mais, e com maior escolaridade.

Em Santa Catarina, o Procon alertou que de outubro de 2025 até setembro de 2026, mais de R$ 25 milhões de dívidas causadas por bets foram renegociados pelo NAS (Núcleo de Apoio ao Superendividado).

O mercado antes e depois da regulamentação

Para o economista Daniel Abrahão, a falta de regulamentação das apostas online foi o principal problema. Ele explica que durante o período não regulamentado, o mercado passou a ser dominado por operadores estrangeiros, o que dificultava a fiscalização.

“A regulamentação tinha grande potencial arrecadatório e ajudaria a melhorar a situação fiscal do país. Uma carga tributária alta manteria os apostadores no mercado informal, o que frustraria a arrecadação esperada”, afirma Abrahão.

O especialista recorda que as estimativas de aumento direto de receita eram de R$ 12 bilhões ao ano e o foco seria destinar parte para a segurança pública. Somente em 2025, segundo a Receita Federal, foram arrecadados cerca de R$ 9 bilhões.

“Dinheiro movimentado e dinheiro perdido são medidas diferentes, porque o mesmo valor entra, sai como prêmio e volta a ser apostado”, ressalta o economista.

Os valores, porém, não representam a mesma medida. Em 2025, os depósitos nas casas autorizadas somaram R$ 221 bilhões, segundo o Ministério da Fazenda. Desse montante, parte retornou aos apostadores em forma de prêmios. Para o governo, a diferença entre depósitos e prêmios foi de R$ 36,9 bilhões. Já o estudo do Comsefaz estima em R$ 62,5 bilhões o valor perdido pelas famílias, calculado a partir de outra metodologia.

Sobre os impactos nas famílias, Abrahão enfatiza que há estudos que divergem sobre o tema, mas reforça que material da CNC chegou à conclusão de que, a cada aumento de 10% nas apostas, o número de famílias que não conseguem pagar suas contas aumenta 0,12 ponto percentual. Por outro lado, a mesma entidade calculou que se todo o dinheiro gasto com apostas fosse utilizado para pagar dívidas, o endividamento cairia menos de 0,5 ponto percentual.

Durante cinco anos, entre 2018 e 2023, as empresas de apostas online operaram do exterior sem arcar com o pagamento de taxas ou impostos no Brasil. De acordo com dados do Banco Central, somente em 2023, os brasileiros enviaram cerca de R$ 54 bilhões para sites estrangeiros.

“A experiência brasileira mostra que legalizar sem regular deixa o mercado crescer fora do alcance do Estado. Mesmo após a regulamentação, metade do mercado seguia na clandestinidade, corrigir tarde é mais difícil do que regular no início”, conclui Abrahão.

Bets chegam ao centro do debate político

Às vésperas das eleições e com a opinião pública contrária à autorização das Bets, o governo anunciou, na sexta-feira (25), a Medida Provisória 1394/2026 que declara o fim das Bets.

Em pesquisa da AtlasIntel/Bloomberg, divulgada dias antes, 59,9% das pessoas responderam que acreditam que as apostas online somente trazem mais prejuízos à sociedade e 75% afirmaram que as apostas online deveriam ser proibidas.

A pesquisa também perguntou quem os entrevistados consideravam responsável pela disseminação das apostas online. Para 36%, o principal responsável foi o governo Lula. A atribuição de responsabilidade ao governo atual ocorre em meio à confusão de quem liberou as Bets no Brasil, a criação das apostas de quota fixa e a regulamentação do mercado implementada posteriormente.

Infográfico com a linha do tempo das decisões de cada governo federal sobre as apostas onlineFoto: Imagem gerada por IA/ND Mais

A Medida Provisória ainda precisa ser aprovada pelo Congresso Nacional e tem prazo máximo de 120 dias. Desde a publicação no Diário Oficial da União, ficam proibidos os jogos, novos aportes em sites de apostas e também a contratação de publicidades para este fim no país.

Já os apostadores têm até às 23h59 do dia 05 de outubro para sacar os saldos restantes. Nesta data também se encerra o prazo para as empresas deixarem de veicular propagandas e patrocínios.

Foto: Imagem gerada por IA/ND MaisFoto: Imagem gerada por IA/ND Mais

*Nomes fictícios a pedido dos entrevistados