Flávio Bolsonaro prega voto útil no 1º turno após caso ‘Dark Horse’ e fake news de Nossa Senhora
Fonte: otempo.com.br | Data: 03/10/2026 08:20:59
BRASÍLIA – Concorrendo à Presidência da República, o candidato Flávio Bolsonaro (PL) chega ao primeiro turno neste domingo (4/10) pregando voto útil contra o presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Nos dez meses que se passaram após o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) indicá-lo como seu herdeiro político, Flávio se consolidou como o principal nome da direita no Brasil, atropelando polêmicas que o cercaram.
Com forte presença entre o eleitorado da direita, ele cresceu com o início da campanha e alcançou o empate na margem de erro contra o petista nas últimas semanas, como mostraram os principais institutos. O Datafolha de 24 de setembro mostrou Lula com 40% das intenções de voto no primeiro turno contra 36% de Flávio. No segundo turno, o empate técnico se mostrou mais apertado: 47% para o petista diante de 45% para o “01” de Bolsonaro.
Os resultados empolgaram a equipe de Flávio, que investe no voto útil para atrair os eleitores de Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão). Mas, apesar da intenção de encerrar a eleição no primeiro turno, o presidenciável se prepara para um eventual segundo turno e atraiu para si um elemento relevante: o coach Pablo Marçal, que teve a candidatura rejeitada pela Justiça Eleitoral.
A tendência é que ele opere como uma cartada relevante de Flávio nas redes sociais e contribua para responder à radicalização dos ataques do adversário Lula após o primeiro turno. Os dias que antecederam o domingo confirmam a escalada das tensões entre os candidatos, principalmente a partir de dois temas: as fraudes de Daniel Vorcaro, do Banco Master, que atravessam a campanha de Flávio há quatro meses, e as publicações falsas sobre Nossa Senhora Aparecida. O tensionamento retrata o acirramento da corrida eleitoral e põe o candidato à prova em seu melhor momento durante a disputa.
‘Dark Horse’ e Nossa Senhora Aparecida
O primeiro golpe na campanha de Flávio à Presidência aconteceu ainda em maio, com a revelação pelo “The Intercept” de áudios trocados entre o candidato e o banqueiro Daniel Vorcaro, protagonista de uma das fraudes mais relevantes do século. Os registros obtidos pela Polícia Federal (PF), que investiga o fundador do Banco Master, mostram Flávio pedindo dinheiro para financiar o filme do pai, o longa “Dark Horse”. Segundo contratos, Vorcaro daria R$ 134 milhões para a cinebiografia.
As gravações enfraqueceram, àquela altura, Flávio e ameaçaram a candidatura dele. Um encontro entre Flávio e Vorcaro em São Paulo após a prisão do banqueiro foi descoberto, e houve pressão interna para substituí-lo pela madrasta Michelle Bolsonaro. Inicialmente, o presidenciável tentou negar que conhecia Vorcaro e que tinha tido contato com o dono do Master, mas admitiu o elo após confrontos.
No último 24 de setembro, a revista “PiauÍ” mostrou que Flávio foi dos Estados Unidos para Brasília em uma aeronave ligada a empresas das quais Vorcaro participava. Antes, em junho, o candidato do PL disse que nunca viajou em avião do banqueiro.
Cerca de dois meses após as revelações sobre o “Dark Horse”, a ex-primeira-dama Michelle explodiu outra crise na campanha de Flávio ao publicar um vídeo em suas redes sociais expondo as circunstâncias de seu então rompimento. Ela disse ter sido apunhalada, desrespeitada, humilhada e maltratada pelo enteado durante divergências nas negociações eleitorais do PL do Ceará.
A briga foi superada pouco mais de um mês depois, mas Michelle não foi ao lançamento da candidatura de Flávio à Presidência. Candidata ao Senado pelo Distrito Federal, ela fez apoios discretos à campanha do enteado, com gravações e vídeos para o horário eleitoral e para as redes sociais.
Outra polêmica que tem rondado Flávio diz respeito à padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. O assunto explodiu nas redes sociais já na reta final da campanha, entre os dias 24 e 25 de setembro, quando a informação falsa de que o candidato estaria atualmente articulando um projeto de lei para demover a Santa e retirar o seu título de padroeira começou a circular.
Flávio, que é publicamente evangélico, negou essas acusações e entrou com uma ação na Justiça Eleitoral para derrubar 1.022 postagens, dentre as quais estavam não só notícias falsas, como também repercussões jornalísticas, críticas políticas e manifestações religiosas. O pedido foi atendido pelo ministro André Mendonça, tornado nulo por Flávio Dino e retomado por Luiz Fux, em um processo que viria a compor mais um capítulo da crise no Judiciário. Por fim, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) julgou, na última quarta-feira (30/9), que qualquer mentira sobre o candidato deve ser derrubada pelas plataformas, mas que outras publicações criticando o senador ou o relacionando a Santa podem permanecer.
O candidato sempre evitou uma posição enfática sobre o assunto e quis ir a um podcast católico para contar sua visão dos acontecimentos. Flávio comparou os boatos à facada sofrida pelo pai em 2018 durante agenda em Juiz de Fora, na Zona da Mata. “Falei para minha assessoria: ‘checa esse negócio’. Não tem pé, nem cabeça essa mentira”, declarou. Ele ainda afirmou que não tem preconceitos e se defendeu alegando que o vice, Alfredo Gaspar, é católico. “Se tivesse preconceito, não ia botar de vice alguém católico fervoroso como ele é”, declarou.
Flávio também acusou membros da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de espalhar fake news junto à “máfia do PT”. A CNBB negou qualquer participação na elaboração ou divulgação de informações falsas. Após a ocasião, vídeos antigos de Flávio dizendo que vai decretar que “o país é do Senhor Jesus Cristo” voltaram à tona. Além disso, o livro do pastor da igreja do senador, JB Carvalho, também passou a viralizar: nele, o religioso associa Nossa Senhora Aparecida a divindades pagãs, e chama-a de “Deusa da Promiscuidade” e “figura demoníaca”.
Sem apoio do centrão
A estratégia inicial de Flávio Bolsonaro era concentrar o apoio dos partidos de centro-direita em torno de sua candidatura. O pontapé inicial era leiloar a vaga de vice cumprindo um requisito importante para o candidato: que a ocupante fosse mulher, um movimento que pretendia atrair o eleitorado feminino. Os partidos do centrão, no entanto, não aderiram à candidatura de Flávio, que, após meses de especulações, recorreu a um homem do próprio partido para o cargo: Alfredo Gaspar (PL), até então candidato ao Senado em Alagoas.
Partidos de centrão que decidiram pela neutralidade neste ano, pelo menos em um primeiro turno, estiveram com Jair Bolsonaro quando ele tentou se reeleger em 2022. A aliança, àquela época, era sustentada por Ciro Nogueira, presidente do PP, e Marcos Pereira, chefe do Republicanos.
Sem os apoios dessas legendas a nível nacional, Flávio costurou a própria campanha com uma agenda intensa nos estados, concentrando suas viagens aos três principais colégios eleitorais do país: São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. No primeiro contou com a força de um forte cabo eleitoral, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que disputa a reeleição. Em Minas, se ancorou no deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).
Pautas
No Senado há oito anos, Flávio foi autor de três projetos de lei de destaque. Um deles trata do aumento da pena do crime de denunciação caluniosa quando a acusação falsa envolver um crime hediondo, como por exemplo, estupro. Outro debate a legalização de imóveis urbanos em terras da União, estados e municípios ocupadas irregularmente. O terceiro veda a concessão de liberdade provisória a presos em flagrante pela prática de crimes hediondos. Os três ainda tramitam no Congresso Nacional. Também foi relator da chamada “PEC das praias”, que transferia para ocupantes particulares a posse de “terrenos de marinha”, como praias, que pertencem à União. A PEC está paralisada desde 2022, e aguarda designação de um relator na Comissão de Constituição e Justiça do Senado.
Nesta campanha eleitoral, Flávio abordou a segurança pública como uma das pautas prioritárias em seu projeto de governo. Ele defende que facções criminosas, como o PCC e o Comando Vermelho (CV), sejam classificados, nacional e internacionalmente, como organizações terroristas; e propõe a construção de cinco novos presídios federais de segurança máxima para desafogar o sistema prisional.
Para a economia, Flávio defende um modelo liberalista, com flexibilização da legislação trabalhista e cortes na administração pública. O senador propõe o corte de 10 a 15 ministérios, um ajuste fiscal de 1,5% do PIB e a privatização ou fechamento de estatais dependentes. Apesar disso, o candidato não se colocou contra benefícios sociais, e destaca, especificamente, que não pretende acabar com o Bolsa Família.
Flávio é crítico ao Supremo Tribunal Federal (STF) e sustenta que são necessárias reformas no Judiciário. Ele é favorável ao avanço do impeachment de magistrados, limite de decisões monocráticas, restrição às competências criminais originárias do STF e quarentena de um ano para ministros de Estado indicados à Corte.
Na educação, Flávio sugere a expansão do modelo de escolas cívico-militares, além da introdução de temas como inteligência artificial e robótica no currículo. Ele também propõe a transferência da gerência de universidades federais do Ministério da Educação (MEC) para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).