Crise do Master leva STF para o centro da disputa presidencial
Fonte: brasilemfolhas.com.br | Data: 03/10/2026 17:24:42
A crise do Master colocou o STF no centro das campanhas presidenciais, e a divisão interna entre os ministros ganhou contornos de polarização eleitoral. Quatro magistrados ouvidos reservadamente admitem temor de que pedidos de impeachment contra integrantes da corte prosperem a partir do próximo ano, independentemente do vencedor da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro.
O tribunal monitora o cenário da eleição sob o temor concreto de que a integridade moral de seus integrantes, posta em dúvida ao longo de 2026, seja alvo de ataques no Congresso Nacional. A leitura é a de que o Supremo terá dificuldade de sair dos holofotes, especialmente se houver uma “bancada anti-STF” forte no Legislativo, o que já será possível mapear a partir deste domingo (4).
O ano de 2027 é considerado crucial diante da possibilidade de as investigações do Master avançarem sobre ministros da corte à medida que são descortinadas novas mensagens dos celulares do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Em fevereiro, quando o ministro André Mendonça assumiu a relatoria do inquérito, seus auxiliares já admitiam que o caso invadiria a campanha e que o ministro poderia proferir decisões capazes de embaralhar o xadrez político às vésperas da eleição.
O ápice ocorreu em 1º de setembro, quando Mendonça divulgou um relatório da Polícia Federal que aponta o ministro Alexandre de Moraes como interlocutor de Vorcaro. O grupo aliado a Moraes, formado por Flávio Dino, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin, diz que o relator agiu com viés político ao expor as mensagens quase um mês antes do primeiro turno, com procedimentos supostamente alheios aos trâmites legais. O decano chamou Mendonça de “pixuleco eleitoral”.
A ala de Mendonça, composta principalmente por Kassio Nunes Marques e Luiz Fux, acusa o grupo oposto de tentar blindar Lula e prejudicar a campanha de Flávio. Na sessão de 15 de setembro, a ministra Cármen Lúcia lamentou que, a 20 dias das eleições, a sociedade estivesse voltada a questões processuais do Supremo, e não à análise das propostas dos candidatos.
Fora do tribunal, as críticas à atuação da corte entraram na pauta dos candidatos, em especial dos de direita, que passaram a anunciar promessas de acabar com um suposto excesso de poder do STF. O presidente da corte, Edson Fachin, veio a público dizer que ataques ao Poder Judiciário não poderiam ser utilizados como pauta política. O ministro Dias Toffoli, cujo nome também consta no material derivado do celular de Vorcaro, chegou a falar que o voto obtido a partir de ataques ao STF é fraudulento e capaz de levar à inelegibilidade.
Ministros avaliam que a vitória de Flávio Bolsonaro significaria o retorno a uma agenda de conflitos diários entre o Palácio do Planalto e o STF, como na gestão Bolsonaro. Já a reeleição de Lula manteria a relação cordial, mas o tribunal estaria sob pressão para arbitrar conflitos entre o governo e o Congresso. Na quinta-feira (1º), Lula defendeu mandatos para ministros do Supremo e novo modelo de indicação para tornar a corte menos política.
O resultado da eleição também definirá o novo perfil do Supremo, já que três ministros se aposentam no próximo mandato: Fux em 2028, Cármen em 2029 e Gilmar em 2030. Há outra vaga em aberto desde a aposentadoria de Luís Roberto Barroso, há um ano. A eventual eleição de Flávio pode significar uma virada conservadora na correlação de forças da corte, hoje formada por maioria indicada por governos do PT.