Uma eleição civilizada
Fonte: estadao.com.br | Data: 04/10/2026 03:00:00
Os paulistas vão às urnas com um luxo raro na política brasileira: podem ver seu candidato perder sem concluir que isso é o fim do mundo. Isso não torna a escolha indiferente. As divergências entre Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad são marcantes. São Paulo, porém, chega às urnas com instituições, infraestrutura e capacidade administrativa que reduzem o espaço para aventuras e permitem que a disputa seja sobre como governar melhor.
Esse patrimônio não caiu do céu, nem é exclusivo dos paulistas. Outros Estados também acumularam instituições capazes e administrações razoáveis. São Paulo, contudo, parte de uma posição especialmente confortável. A própria oferta eleitoral ajuda. Tarcísio e Haddad pertencem aos campos que hoje dividem o País, mas nenhum é improviso eleitoral. Ambos governaram, apresentam propostas substantivas e aceitam o confronto público. A disputa teve ataques e recorreu a Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro a todo momento. Mas, diferentemente da campanha nacional, houve debates, e eles se centraram em políticas públicas, serviços e resultados.
As diferenças são expressivas. Tarcísio chega ao fim do mandato com uma gestão marcada por estímulo à participação privada e investimentos em infraestrutura. A desestatização da Sabesp foi seguida por investimentos de R$ 15,2 bilhões em 2025, mais que o dobro do ano anterior. A Tabela SUS Paulista ampliou o volume de cirurgias eletivas. Há ressalvas do Tribunal de Contas e resultados mistos em segurança ou educação. Eles bastam para afastar triunfalismos, mas não para apagar um balanço positivo – o que se reflete nas pesquisas.
Haddad, por sua vez, foi prefeito, ministro da Educação e da Fazenda e tem experiência suficiente para ser levado a sério. Consoante a agenda petista, propõe maior atuação direta do Estado e demonstra disposição para rever os contratos firmados por Tarcísio e até sustar concessões ou reverter privatizações. Sua passagem pela Prefeitura da capital, encerrada sob forte reprovação, e sua ligação orgânica com o PT dão ao eleitor material para julgar o pacote que viria com sua chegada ao Palácio dos Bandeirantes. Seria um retrocesso, mas não uma aventura.
É aí que São Paulo ilumina, por contraste, a política nacional. Haddad continua petista, e Tarcísio segue ligado ao bolsonarismo. No Estado, porém, essas facções foram obrigadas a discutir escolas, hospitais, trens, polícia e saneamento. Na eleição presidencial, pela terceira vez, lulopetismo e bolsonarismo voltam a dominar a disputa, com Lula e Flávio Bolsonaro empatados mais uma vez no topo da rejeição. Os programas foram soterrados sob uma batalha campal travada por rancores recíprocos, temores existenciais e golpes abaixo da linha da cintura.
A democracia aceita combates duros e até se fortalece com eles, desde que sejam pautados por alternativas bem definidas, propostas consistentes e instituições capazes de suportar a alternância sem dramatização permanente. O pleito paulista mostra que posições podem ser defendidas com firmeza sem que as alternativas sejam tratadas como calamidade. É um conforto que não elimina os desafios e riscos da escolha, mas a torna mais civilizada. E é um sinal de que o Brasil não está condenado a repetir indefinidamente escolhas muito difíceis.
