Lula domina a esquerda, família Bolsonaro domina a direita. O futuro da política brasileira começa a decidir-se hoje
Fonte: cnnportugal.iol.pt | Data: 04/10/2026 04:09:36
Aos 80 anos, Lula concorre à presidência pela sétima vez. Enquanto isso, os Bolsonaro tentam manter a liderança da extrema-direita no país
A história da política brasileira desde a redemocratização em 1985 anda de mãos dadas com Lula da Silva. Antigo líder sindical e presidente durante três mandatos, o atual chefe de Estado é protagonista no país desde o final dos anos 80. Enquanto isso, mais recentemente, foi a extrema-direita através de Jair Bolsonaro, membro do Congresso desde 1991, que ganhou proeminência após a eleição à presidência em 2022. Apesar das inúmeras diferenças entre os dois, uma semelhança é notória: a política brasileira está baseada nos mesmos nomes há décadas.
“O Brasil tem um problema de renovação de quadros [políticos]”, entende Pedro Lima, professor de Ciência Política na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “No Brasil, parece que as estruturas se movem de maneira mais lenta”.
Foi em 1989 que Lula da Silva concorreu à presidência pela primeira vez. Nessa época, o Brasil passava por um momento delicado no processo de redemocratização. Após quatro anos do governo de José Sarney, eleito como vice e empossado após a morte de Tancredo Neves, era a primeira vez desde 1964 que os brasileiros poderiam ir às urnas e eleger um novo chefe de Estado.
Outros inúmeros nomes concorreram naquele ano, alguns mais tradicionais e outros com menos experiência política. O líder do Partido dos Trabalhadores (PT) foi derrotado por Fernando Collor de Mello na segunda volta. Posteriormente, concorreu em mais cinco eleições e venceu três vezes, sem considerar 2026.
Há ainda outro político que tentou chegar ao poder executivo em 1989 e que continua na corrida presidencial este ano. Nas últimas décadas, Ronaldo Caiado tornou-se um nome tradicional na política brasileira, apesar de ter conseguido apenas 0,72% dos votos há 37 anos.
Caiado já acumulou dois mandatos como governador de Goiás, assim como atuações parlamentares como senador e deputado entre 1991 e 2019. Este ano, o candidato tenta apresentar-se como uma ‘terceira via’ anti Lula e anti Bolsonaro. A estratégia, porém, não tem grandes resultados a julgar pelas sondagens, com o candidato a conseguir apenas 4% das intenções de voto, segundo o estudo da Quaest divulgado no final de setembro.
Força de Lula dificulta novas lideranças na esquerda
A dificuldade em encontrar novas lideranças políticas não é exclusividade do Brasil. “Se pensamos nos Estados Unidos, essa dificuldade também é forte”, explica Pedro Lima. “[Nos últimos anos, o país teve] Joe Biden, já um senhor com idade avançada, e Donald Trump, que também é um senhor de idade avançada”.
No caso da esquerda brasileira, esta situação ocorre devido à força política de Lula da Silva. Líder do Partido dos Trabalhadores, o atual chefe de Estado demonstrou ao longo dos anos ser capaz de mobilizar milhões de eleitores sempre que está entre os candidatos, vencendo três eleições presidenciais. “Ele é muito forte, é quase uma garantia de que pelo menos na segunda volta vai estar. Dispensar um nome desses é algo que nenhum partido faria”, explica Claudio Couto, analista político e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Até hoje, Lula concorreu ao cargo mais alto do executivo brasileiro em seis oportunidades (1989, 1994, 1998, 2002, 2006 e 2022). Destas, venceu três (2002, 2006 e 2022) e perdeu na segunda volta uma vez (1989). Agora, tenta mais uma reeleição.
Isso, porém, dificulta a criação de um outro nome relevante na esquerda brasileira. Para Pedro Lima, “por um lado, Lula não conseguiu [um sucessor até agora], mas por outro, não quis”. Segundo o professor da UFRJ, “quando se tem uma figura muito carismática, essa transmissão do carisma é um fenómeno sempre muito complexo”.
Mesmo assim, Lima entende que o político pouco se esforçou para passar o bastão a um nome mais jovem. “Lula não foi forçado a permanecer uma figura central da política brasileira durante tanto tempo. Foi um desejo dele”.
Dentro do Partido dos Trabalhadores, a renovação “acontece menos do que deveria” e “em menor quantidade do que vemos na direita”, diz Claudio Couto. “Ter um nome eleitoral muito forte, um nome predominante dentro do partido, faz com que a chegada de outras figuras fique difícil. E quando o Lula teve uma oportunidade grande de produzir essa renovação, desperdiçou-a”.
As tentativas de renovação do PT
Nos últimos 16 anos, o PT precisou de procurar alternativas para o lugar de Lula da Silva em duas oportunidades distintas. Em 2010, o então presidente não poderia concorrer após dois mandatos consecutivos e, por isso, optou por apoiar a candidatura de Dilma Rousseff, que tinha sido ministra de Minas e Energia (2003-2005) e ministra-chefe da Casa Civil (2005-2010).
“Dilma não tinha história dentro do PT, não tinha traquejo político. Isso tudo explica os problemas que enfrentou no governo”, explica Claudio Couto. Enquanto isso, para Pedro Lima, uma das principais diferenças entre Dilma e Lula é que “ela é mulher”, facto que muda a avaliação pública sobre a governante. “Não se pode fugir dessa questão num país tão misógino como o Brasil”, diz o professor.
Mesmo assim, a própria história “tecnocrática” da antiga presidente contrasta com o início “no chão da fábrica” de Lula como líder sindical. “Na presidência da República, num país complexo como o Brasil, com um sistema político com muitos partidos, é preciso ter capacidade de negociação permanentemente”, entende o professor da UFRJ. “Dilma não tinha esses atributos”.
Rousseff conseguiu ser eleita duas vezes à presidência da República com o apoio de Lula da Silva. No entanto, em 2016, foi alvo de um processo de afastamento por crimes de responsabilidade. Desde 2023, a antiga chefe de Estado preside o Novo Banco de Desenvolvimento, conhecido como Banco do BRICS.
Em 2018, Lula anunciou que seria o candidato mesmo sendo julgado por corrupção no processo da Lava Jato. No início de abril daquele ano, contudo, o presidente foi preso pela Polícia Federal após uma decisão do Supremo Tribunal Federal que permitiu a prisão após a condenação em segunda instância – o processo seria anulado no início de 2022 pelo mesmo STF.
Com isso, mais uma vez, o Partido dos Trabalhadores foi obrigado a encontrar um novo nome, e o escolhido foi Fernando Haddad. O político, na época já com 55 anos, tinha sido ministro da Educação (2005-2012) e presidente da Câmara Municipal de São Paulo. O resultado, porém, não foi positivo, com uma derrota para Jair Bolsonaro na segunda volta.
Mas isso não significou que Lula estivesse disposto a abdicar do protagonismo na esquerda brasileira. Em 2016, durante a investigação da Lava Jato, afirmou: “A partir de agora, se me prenderem, viro herói. Se me matarem, viro mártir. E, se me deixarem solto, viro presidente de novo”, noticiou na época o Estado de São Paulo.
“Lula sai da prisão 580 dias depois e acho que tem um efeito de [querer] dar a volta por cima, de se eleger novamente presidente”, diz Pedro Lima. “E também tudo o que estava a acontecer no governo Bolsonaro, os desafios para a democracia brasileira. Tudo isso acabou ungindo o Lula a essa figura de salvador da democracia, que acho que ele próprio gosta de se pensar, assim, e quer passar para a história como um grande baluarte da democracia brasileira”.
Os diferentes líderes da centro-direita à extrema-direita
Ao contrário da esquerda, a direita demonstrou maior capacidade para encontrar novas lideranças nacionais nos últimos 37 anos, apesar de ter tido menos sucesso eleitoral a partir de 2002. Desde 1989, os seguintes candidatos concorreram contra Lula: Collor de Mello (1989, venceu na segunda volta); Fernando Henrique Cardoso (1994 e 1998, venceu na primeira volta nos dois anos), José Serra (2002, perdeu na segunda volta), Geraldo Alckmin (2006, perdeu na segunda volta) e Jair Bolsonaro (2022, perdeu na segunda volta). Serra (2010) e Aécio Neves (2014) também foram derrotados pelo PT, na época por Dilma Rousseff.
“Isso mostra que a direita, pelo menos até 2018, estava à procura de um líder”, entende Pedro Lima. “Como não encontrava esse líder, ou pelo menos esse líder não se mostrava suficientemente competitivo, havia alternância”.
O professor da UFRJ ressalta que todos os nomes têm importantes similaridades. Até 2014, todos representavam o mesmo partido, o Partido da Social Democracia Brasileira. Além disso, “são todos homens, brancos” e são “políticos tradicionais”.
Quando Bolsonaro ganha notoriedade em 2018, a situação muda. Apesar de também ser um homem branco que estava na política brasileira há quase 30 anos, o candidato trouxe “a extrema-direita pela primeira vez na história da República para um protagonismo que nunca teve”. O líder governou o país por quatro anos até ser derrotado em 2022. Atualmente, cumpre prisão domiciliária por tentativa de golpe de Estado.
O “familismo” como fator fundamental
Depois de 2022, a direita continuou com uma certa instabilidade nas lideranças. Enquanto Jair Bolsonaro segue como um importante articulador e tenta garantir a eleição de Flávio (seu filho) à presidência, outros nomes surgiram como alternativas, apesar da dificuldade de conseguir a adesão dos eleitores.
“Existem várias lideranças emergindo ao nível estadual, ao nível municipal”, explica Claudio Couto, que foi um dos autores de um livro lançado no início de agosto sobre as eleições autárquicas de 2024. “Nas últimas eleições municipais, houve figuras, inclusive jovens, a concorrer em cidades importantes. É uma área onde há espaço para se renovar”.
Couto destaca Nikolas Ferreira como um nome que pode ser relevante no futuro da política brasileira. Antigo vereador de Belo Horizonte entre 2020 e 2021, foi eleito deputado federal em 2022 com 1.492.047 votos, sendo o terceiro melhor resultado da história do país. O parlamentar é também um dos nomes da extrema-direita com presença mais intensa nas redes sociais, com milhões de seguidores e vídeos virais, em diversos momentos que espalham informações falsas nas plataformas digitais.
Em 2026, por exemplo, após o depoimento de Anthony Fauci no Senado dos Estados Unidos, Nikolas gravou um conteúdo de mais de 12 minutos no qual “espalha mentiras já refutadas sobre vacinas e a pandemia”, segundo o Estadão Verifica. Entre as alegações está a alegação de que a hidroxicloroquina é um medicamento eficaz para tratar a doença e a possibilidade do uso de fetos abortados para a produção das vacinas. Nikolas Ferreira, hoje com apenas 30 anos, não pode concorrer à presidência até 2034 devido à restrição etária de 35 anos prevista na lei brasileira.
Enquanto isso, nomes ligados ao centro-direita tradicional encontram dificuldade. “A direita moderada não se renovou à mesma velocidade”, explica o professor da FGV. “Há figuras com alguma projeção local, mas que não se conseguem projetar nacionalmente”.
A questão familiar é um critério que envolve os diferentes atores políticos há anos. “Existe esse costume de fazer a transição de geração a partir de uma passagem de bastão que é um pouco familiar – de pai para filho, tio para sobrinho, avô para neto”, explica Pedro Lima.
Num recorte mais recente, por exemplo, Aécio Neves governou Minas Gerais, foi candidato à presidência e mantém-se na política brasileira como deputado federal e candidato ao Senado com o auxílio do seu histórico familiar. Aécio Cunha, o seu pai, foi um importante nome da política do país entre os anos 1960 e 1980, enquanto Tancredo Neves (avô materno), foi escolhido como o primeiro presidente civil após a ditadura, mas morreu antes da posse.
Atualmente, é Flávio Bolsonaro que tenta garantir o apoio da base eleitoral do pai. A família Bolsonaro como um todo está dentro da política: os outros filhos homens de Jair – Carlos, Eduardo e Jair Renan – ocupam ou ocuparam cargos públicos. Além disso, Michelle Bolsonaro, atual esposa, é candidata ao Senado, enquanto Rogéria Bolsonaro, ex-esposa e mãe de Flávio, Carlos e Eduardo, concorre a uma vaga de deputada federal.
Na esquerda, isso também ocorre. Atualmente, um dos nomes mais jovens da centro-esquerda brasileira é João Campos, autarca de Recife que concorre ao governo de Pernambuco. Apesar de ser visto positivamente pela população local, Campos também traz consigo o histórico de seu pai, Eduardo, que foi ministro da Ciência e Tecnologia de Lula (2004-2006), deputado estadual e federal e governador de Pernambuco. Eduardo morreu em 2014 num acidente de avião quando era candidato à presidência.
O futuro da esquerda brasileira
Em 2030, Lula da Silva deixará de fazer parte da política brasileira. Caso seja eleito este ano, o atual presidente não poderá concorrer novamente. Caso perca, é improvável a sua manutenção como líder aos 84 anos. Por isso, será necessário encontrar um substituto definitivo, e o chefe de Estado já indicou qual a sua preferência.
Durante o evento que lançou a sua candidatura para o processo democrático de outubro, Lula disse: “Agora é hora de pensar neste país. Qual será o país do futuro que vou entregar quando você, Haddad [atual candidato ao governo de São Paulo], depois de governar São Paulo por oito anos, for presidente da República”.
A declaração parece não considerar o próximo ciclo eleitoral, uma vez que, caso o presidente seja reeleito, ele não poderá concorrer em 2030. Rapidamente, porém, Lula alterou o discurso: “Ou você, Rafael Fonteles [governador do Piauí]? Quem sabe sai do Piauí o próximo [presidente]? Ou quem sabe do Ceará. Ou quem sabe de Pernambuco. De algum lugar vai sair. E da Bahia? A eleição de 2026 será para definir que país vamos deixar do ponto de vista das coisas que ainda não fizemos”.
Tanto Pedro Lima como Claudio Couto concordaram que Haddad é o candidato mais provável para suceder ao atual chefe de Estado. No entanto, ambos também sublinham que Haddad “não é nenhum garoto”, uma vez que terá 67 anos daqui a quatro anos.
“Sabemos que a escolha do Lula, pelo menos hoje, talvez seja a coisa mais importante para esse processo político na esquerda brasileira”, explica Lima. “Aquele que o Lula escolhe, em geral, tende a ser o candidato do Partido dos Trabalhadores”.
Outro nome indicado pelos professores como alguém que pode adquirir maior protagonismo nos próximos anos é Guilherme Boulos, visto por Couto como “uma figura emergente, importante”. Atual ministro-chefe da Secretária-Geral da Presidência da República, o político ganhou destaque como líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, concorrendo posteriormente à presidência do Brasil, ao governo e à presidência da câmara de São Paulo, mas não foi eleito. Desde 2023, exerce o mandato de deputado federal.
Com 44 anos, “é de uma geração diferente de Haddad, corre por fora nessa disputa”, entende Pedro Lima, que refere João Campos, de 32 anos, como mais um destaque. “É interessante pensar em como a esquerda vai processar uma transição geracional na chave do familismo”, diz. “Isso funciona localmente, como tem funcionado em Pernambuco. Tenho dúvidas se funciona nacionalmente”.
Entre as mulheres, o professor menciona a deputada Erika Hilton, que, por ser uma mulher trans, se destaca pela defesa dos temas LGBTQIA+, enquanto Claudio Couto cita Adriana Accorsi, deputada do PT que concorreu à Câmara Municipal de Goiânia, e Natália Bonavides, também deputada que tentou ser autarca de Natal.
Com Bolsonaro ou sem Bolsonaro, a direita segue viva nos próximos anos
Enquanto isso, atualmente, a direita brasileira parece ainda apostar na popularidade de Jair Bolsonaro. O principal adversário de Lula da Silva na eleição presidencial é Flavio Bolsonaro, filho de Jair, e alguns dos outros candidatos têm um histórico de afinidade com o líder da extrema-direita brasileira.
Apesar de críticas recentes ao bolsonarismo, Romeu Zema e Ronaldo Caiado foram aliados do antigo presidente quando estavam nos governos de Minas Gerais e do Goiás, respetivamente. No início de agosto, inclusive, Caiado publicou nas redes sociais a garantia de que “no primeiro dia de governo” concederá um indulto presidencial a Jair Bolsonaro e amnistia aos condenados pela invasão na Praça dos Três Poderes no dia 8 de janeiro de 2023.
“Existe essa hegemonia do bolsonarismo, mas não acredito que é uma hegemonia infalível”, analisa Claudio Couto. “Acho que, sobretudo, a depender do desempenho do Flávio nessa eleição, outras lideranças podem surgir com posições políticas parecidas, mas que não são necessariamente subordinadas ao bolsonarismo”.
O professor da FGV entende que há “espaço” para renovação na direita brasileira, mas entende que Flávio Bolsonaro não é o nome ideal para o futuro. Entre os filhos de Bolsonaro, Couto refere que Eduardo teria “esse perfil”, mas o antigo deputado “não tem como sair do abismo” em que se encontra. Desde o início do ano passado, o político vive nos EUA e tenta articular sanções contra o Brasil. Estas ações fizeram com que fosse condenado por coação no curso do processo este ano, ou seja, pode ser preso se voltar ao Brasil.
Além dele, Nikolas Ferreira, que não pode concorrer à presidência em 2030, André Fernandes, deputado federal, e Cristina Gremel, candidata ao Senado, demonstram potencial para crescer na extrema-direita brasileira, indica o analista político. Fora do bolsonarismo, Renan Santos é um nome que pode ganhar espaço. O candidato à presidência do partido Missão tem uma atuação ativa nas redes sociais, defende medidas autoritárias para a segurança pública e já declarou ser “machista”. Também concordou com uma publicação que colocava o partido como um movimento de extrema-direita fortemente ideológico.
Mesmo assim, o principal nome mencionado pelos dois especialistas foi o de Michelle Bolsonaro. “Acredito que a Michele Bolsonaro talvez seja na família Bolsonaro, aquela que tem maior potencial pelo vínculo orgânico que tem com o campo evangélico”, explica Pedro Lima, que sublinha a importância da relação religiosa para o sucesso da extrema-direita brasileira. O professor refere que, apesar das posições misóginas de Jair Bolsonaro, existe a possibilidade de uma mulher ascender a posições relevantes dentro do movimento.