ANÁLISE: Lula tentará ‘desconstruir’ Flávio no segundo turno; senador buscará apoios na direita
Fonte: otempo.com.br | Data: 04/10/2026 21:24:42
BRASÍLIA – O resultado deste domingo (4/10) confirmou as projeções de segundo turno entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) na corrida ao Palácio do Planalto. Com 98,69% das urnas do país apuradas, Flávio tem 47,26% dos votos válidos, e Lula alcançou 44,89%.
Na campanha de Flávio Bolsonaro, o foco inicial é garantir o apoio dos demais candidatos à direita, como Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante) e Romeu Zema (Novo), como um primeiro passo para garantir pelo menos a maioria dos votos nesses concorrentes. Não há a expectativa de que Renan Santos (Missão) declare apoio a Flávio, mas o senador também espera contar com votos nessa fatia do eleitorado.
Nos primeiros dias após o primeiro turno, a campanha de Lula deve se reunir para traçar estratégias de “desconstrução” de Flávio Bolsonaro e desmobilizar eleitores dos demais candidatos que estejam inclinados a votar no senador. Renan, Caiado, Cury e Zema já descartaram qualquer possibilidade de apoio ao presidente no segundo turno. Além disso, pretendem ampliar o leque de propostas a serem apresentadas pelo presidente em temas caros ao eleitorado de centro, como segurança pública e uma eventual reforma do Judiciário.
Em sua sétima eleição presidencial, esta é a quinta vez que Lula disputará o segundo turno. Em 1989, perdeu para Fernando Collor (PRN); em 2002, 2006 e 2022, venceu, respectivamente, José Serra (PSDB), Geraldo Alckmin (PSDB) e Jair Bolsonaro (PL). O resultado deste domingo ainda mantém o PT entre as duas principais forças do país em disputas presidenciais. Desde 1989, o partido aparece pelo menos entre os dois primeiros colocados.
Este também é o terceiro pleito consecutivo em que o bolsonarismo se estabelece como a principal força de oposição ao PT em âmbito nacional. Em 2018, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), pai de Flávio, venceu Haddad no segundo turno, enquanto em 2022, perdeu para Lula.
Crise no STF e escândalos marcaram campanha
A crise institucional no Supremo Tribunal Federal (STF) fez os candidatos revisarem suas estratégias durante boa parte da campanha. A revelação de supostos elos entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e ministros da Corte, como Alexandre de Moraes, Nunes Marques e Dias Toffoli, respingou no cenário eleitoral, assim como a tumultuada sessão em que o plenário avaliou se abriria uma investigação contra Moraes.
A avaliação nas campanhas é que a crise foi especialmente prejudicial a Lula, que tinha sua imagem vinculada à de Moraes e ao próprio Supremo. A isso, se juntaram as suspeitas envolvendo o empresário Fábio Luís, o “Lulinha”, e sua relação com a lobista Roberta Luchsinger, investigada pela Polícia Federal por suposta corrupção e tráfico de influência no escândalo do INSS.
Por outro lado, Flávio teve que lidar, desde a pré-campanha, com a divulgação de conversas em que pede a Vorcaro dinheiro para a produção do filme Dark Horse, que conta a história de seu pai. Ao menos R$ 61 milhões foram repassados, apontam as investigações.
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As ações de Lula na reta final
As últimas duas semanas de campanha foram marcadas por medidas de apelo eleitoral anunciadas pelo governo Lula. Em meio a um crescimento de Flávio nas pesquisas, o petista promoveu um reajuste no valor do Bolsa Família, de R$ 600 para R$ 691 reais, prometeu incorporar as chamadas canetas emagrecedoras no SUS e determinou a proibição das bets no Brasil.
O pacote de “bondades” ainda envolveu a extinção da taxa das blusinhas e medidas para frear a alta dos combustíveis. As ações geraram críticas de Flávio, que chegou a acusar Lula de tentar “comprar o voto dos mais pobres”.
O presidente ainda apostou no anúncio de distribuição de canetas emagrecedoras no Sistema Único de Saúde (SUS) para pacientes na fila da cirurgia bariátrica. Além disso, editou medida provisória (MP) para acabar com as apostas esportivas e os jogos online. O governo responsabiliza o endividamento das famílias pela má percepção da economia brasileira, além de apontar prejuízos ao SUS, com o atendimento de pessoas diagnosticadas com ludopatia.
Foi a primeira vez, desde 1989, que todas as siglas de esquerda e centro-esquerda – PT, PV, PCdoB, PSB, PSOL, Rede e PDT – se uniram em torno de uma única chapa para a disputa presidencial. Por outro lado, a intenção de Lula e do PT era atrair partidos de centro e de direita para a disputa e repetir a estratégia da frente ampla de 2018. No entanto, no primeiro turno, partidos como MDB, Republicanos, PP e União Brasil decidiram pela neutralidade na eleição à Presidência da República.
Flávio enfrentou fake news
Ainda nos últimos dias, Flávio teve de lidar com boatos de que pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o status de padroeira do Brasil. Além de ter desmentido prontamente, acusou o PT e a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de promoverem fake news.
Contra Lula, Flávio investiu em assuntos caros para o eleitorado: economia e segurança pública. Com o alto índice de endividamento da população brasileira, o filho de Bolsonaro recorreu na campanha a imagens que remetiam aos preços dos alimentos. A ocupação de territórios vulneráveis pelo crime organizado também era um elemento recorrente nos discursos de Flávio.
Flávio apostou em uma tentativa de sacramentar a vitória ainda no primeiro turno, alimentando críticas à crise institucional no STF. O presidenciável traçou a estratégia definida de colar os ministros Flávio Dino e Alexandre de Moraes, bem como as suspeitas que recaíam sobre eles, a seu principal adversário — Lula. A prerrogativa da indicação de ministros do STF pelo presidente da República foi convertida em um dos principais motes de sua campanha.