Voto útil, jovens e avanço da direita: o que explica o crescimento de Flávio Bolsonaro e o que esperar do segundo turno
Fonte: gauchazh.clicrbs.com.br | Data: 05/10/2026 00:38:41

Conforme estava previsto pelas pesquisas de intenção de voto, o Brasil adiou a escolha do presidente da República para o segundo turno, que acontece no dia 25 deste mês. No primeiro turno, disputado neste domingo (4), o candidato Flávio Bolsonaro (PL), de direita, saiu na frente. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de esquerda e que tenta se reeleger, veio atrás.
Ainda que previsse segundo turno, a maioria das pesquisas não previu que Flávio, 45 anos, hoje senador pelo Rio de Janeiro, terminaria em primeiro. Quase todas apostavam na situação inversa, mas o candidato do PL disparou na contagem dos votos e em nenhum momento da apuração sua liderança foi ameaçada pelo atual presidente.
Como a eleição terminou com expectativas invertidas no primeiro turno? A explicação mais plausível, segundo especialistas consultados por Zero Hora, é que os indecisos já tinham, de fato, feito sua escolha — só não queriam expor sua opinião. As pesquisas estimavam que o contingente de eleitores que ainda não tinham decidido a quem apoiar ficava entre 10% e 20% dos consultados, na última semana da corrida eleitoral. E a maioria desses que deixaram para a última hora escolheu Flávio.
O sociólogo Rodrigo Prando, professor da Universidade Mackenzie, considera Flávio o grande favorito para vencer a eleição e diz que Lula está em situação dificílima.
Primeiro, a distância dele em relação a Flávio é bem maior do que a mensurada pelas pesquisas. Segundo, porque todos os candidatos que saíram à frente no primeiro turno foram eleitos, desde 1989. São sete casos. E no Senado e na Câmara as bancadas eleitas são majoritariamente de direita, o que dificulta a posição de Lula e facilita o impeachment de ministro do Supremo Tribunal Federal
RODRIGO PRANDO
Sociólogo e professor da Universidade Mackenzie
Voto útil e apoio entre jovens e empreendedores
O sociólogo vai além e mostra um fenômeno curioso: a maioria dos jovens parece ter se inclinado para Flávio, um candidato assumidamente conservador.
O cientista político e filósofo Fernando Schüler, professor do Insper, considera decisivo que muitos jovens votaram em Flávio “por cansaço da retórica paternalista de governantes que pouco valorizam o mérito”. Ele lembra que o Brasil tem mais de 15 milhões de microempreendedores individuais (MEIs), criados numa economia digital e em novas formas de trabalho.
— E a esquerda tem dificuldade de dialogar com eles, que não atuam no velho modelo sindical — observa.
O especialista considera que as pesquisas, mais uma vez, demonstraram dificuldade de capturar movimento do eleitorado na reta de chegada. Gente que votou por protesto e mudança, acrescenta Schüler.
Flávio carrega um sobrenome que se confunde com a história recente do conservadorismo brasileiro — ou extrema direita, como preferem designar seus adversários. Esse campo avançou embalado em slogans que fazem menção a Deus, família e propriedade e que caracterizaram o governo de Jair Bolsonaro, eleito presidente da República em 2018 e hoje condenado e preso por tentativa de golpe de Estado.
A explicação mais plausível para essa ultrapassagem de Flávio na disputa eleitoral, segundo especialistas, é que ele foi beneficiado pelo voto útil do eleitor de direita, que deixou de apoiar outras candidaturas antipetistas que se apresentavam como alternativa à polarização ou terceira via. Essa é a terceira ocasião consecutiva em que lulismo (esquerda) e bolsonarismo (direita) disputam os destinos da nação.
— Essa vitória parcial da direita e extrema direita se expressa por diversos elementos, entre eles algumas reversões de resultados impressionantes, como é o caso do Rio de Janeiro (onde o favorito para governador, Eduardo Paes, apoiador de Lula, saiu atrás na disputa). Ou no Rio Grande do Sul, onde o bolsonarismo ganhou em primeiro turno. O número de senadores eleitos pelo PL é extremamente significativo. Teremos um segundo turno dificílimo para o presidente, porque existe um movimento em direção à direita por parte do eleitorado brasileiro — pondera Leonardo Avritzer, professor visitante do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).
Lula terá que enfrentar avanço da direita no Congresso e nos Estados
Será o páreo mais duro da trajetória política de Lula, que disputa sua sétima eleição presidencial. O seu oponente venceu não apenas o primeiro turno, mas também montou uma base de apoio sólida país afora. Terá apoio da maioria dos governadores eleitos neste domingo, fez uma bancada majoritária no Senado (com 29 eleitos por seu partido) e também na Câmara (ao menos 121 parlamentares).
O bolsonarismo se mostra mais uma vez o maior adversário que a esquerda já teve em tempos democráticos no Brasil, uma corrente ideológica que galvaniza a maioria dos votos da direita e admiradora da ditadura militar que vigorou no país entre 1964 e 1985.
Flávio, no entanto, pouco bateu nessa tecla. Prefere se apresentar como uma versão menos estridente e menos controversa que o pai. Conforme a sentença aplicada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), Jair Bolsonaro perdeu a tentativa de reeleição e, inconformado, teria conspirado para impedir a posse de Lula, vencedor das eleições em 2022.
E uma das principais promessas de Flávio é justamente encaminhar projeto de anistia para o pai e mais de 1,4 mil outros condenados pela tentativa de golpe. Seria a sequência de uma série de iniciativas que recentemente levou à aprovação, no Congresso Nacional, da possibilidade de redução das penas dos sentenciados pelo golpe.
Assim como Bolsonaro, Lula também já esteve preso, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro. Foi em 2018, no auge da Operação Lava-Jato, que apurava desvios de dinheiro na Petrobras e subornos pagos por empreiteiras a políticos. Ele ficou 580 dias preso numa cela da Polícia Federal. Em 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou os processos criminais contra Lula, que teve restabelecidos os direitos políticos e venceu a eleição de 2022.
Lula se confunde com a história do Partido dos Trabalhadores, do qual foi um dos fundadores, na década de 1980. Nordestino que migrou para São Paulo, metalúrgico de profissão, ele surgiu para a política ao liderar as greves operárias no final dos anos 1970, ainda durante o regime militar. Chegou a ser preso na época. Foi deputado federal e foi derrotado três vezes na disputa para a Presidência da República (em 1989, 1994, 1998), antes de sua primeira vitória para o cargo, em 2002.
Denúncias envolvendo Lulinha e crise no Supremo desgastaram petista
A eleição deste fim de semana foi caracterizada por desgastes na imagem dos dois candidatos. Lula, por exemplo, sofreu alfinetadas na opinião pública depois que o STF abriu três investigações contra o filho mais velho dele, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. As apurações miram o suposto tráfico de influência e corrupção em prol de empresas junto ao governo federal — situação que foi explorada em profundidade pela oposição, nas mídias sociais e nos programas eleitorais obrigatórios.
Outro episódio que ajudou a diminuir as intenções de voto em Lula é a descoberta de que o magistrado responsável pela condenação dos implicados na tentativa de golpe de 2023, Alexandre de Moraes, tem telhado de vidro. Ele é suspeito de fazer tráfico de influência, porque sua mulher atuou como contratada no Banco Master, pertencente a Daniel Vorcaro, hoje preso por corrupção e crime organizado. A advogada teria firmado contrato de R$ 131 milhões para defender causas do banqueiro e os bolsonaristas acusam Moraes de ser atuar em prol de Vorcaro no STF. O caso é investigado pela Polícia Federal.
Lula não tem nada a ver diretamente com o caso, só que muitos eleitores não entendem assim: Moraes é visto como algoz do bolsonarismo, aliado do presidente e os defensores de Bolsonaro espalharam nas redes sociais memes em que o magistrado e Lula são duas máscaras do mesmo personagem.
Pesa ainda contra a candidatura do PT o fato de o partido não ter renovado lideranças com possibilidade de chegar à Presidência.
Um quarto fator que pode ter contribuído para Lula ter saído atrás na corrida eleitoral é a idade. Aos 80 anos, aparenta cansaço para a maratona que os candidatos precisam correr nas eleições. A voz está cada vez mais rouca e a agilidade nas redes sociais não é a mesma exibida por seus adversários.
Mas sobra experiência. Lula é candidato a presidente pela sétima vez, até porque os petistas não têm um outro nome à sua imagem e semelhança. Nem aliados em potencial. Seus adversários se uniram desde o início da corrida eleitoral. Ele não teve outro candidato para defender algumas bandeiras do seu governo, enquanto Flávio disputou contra políticos do seu mesmo campo conservador, e que pouco o atacaram, de olho numa aliança com ele no segundo turno.
Flávio terá que lidar com “bondades” do governo e possíveis desdobramentos do caso Master
Flávio negou inicialmente qualquer relação com Vorcaro, mas foi surpreendido pelo vazamento de telefonemas em que ele trata o banqueiro como “irmão” e acerta um financiamento de R$ 134 milhões para fazer o filme. A produção cinematográfica idealizada para incensar Bolsonaro chegou a receber R$ 61 milhões do banqueiro, antes dele ser preso. Há uma investigação da PF a respeito e que atinge o candidato presidencial do PL. A suspeita da Polícia Federal é que parte do dinheiro tenha ajudado a sustentar bolsonaristas hoje refugiados no Exterior, como o irmão de Flávio, Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal e ex-policial federal, cassado por faltar ao serviço.
Podem contribuir também para desidratar a campanha de Flávio possíveis novas revelações sobre o caso Master, além da notícia falsa de que o bolsonarismo quer tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Ele terá de lidar também com o “tarifaço” sobre as exportações brasileiras, decretado por Donald Trump.
Como a família Bolsonaro é aliada ideológica incondicional do presidente dos EUA, colheu parte da repercussão negativa do prejuízo ao comércio exterior do Brasil. Quando a sobretaxa foi imposta, Lula chamou os bolsonaristas de “traidores da pátria” e parte da sociedade o apoiou, porque foi prejudicada pelo aumento das tarifas internacionais.
Lula conta ainda com boa vontade de grande parte da população pelo pacote de iniciativas que lançou no ano da eleição. Entre as medidas estão o reajuste do piso do Bolsa Família, a ampliação da faixa de isenção para quem ganha até R$ 5 mil mensais, um programa de renegociação de dívidas (o Desenrola), a proibição das bets e iniciou trâmites para que as canetas emagrecedoras sejam distribuídas pelo SUS. Tudo apontado como eleitoreiro pela oposição.
Apesar de todos esses fatores, Lula saiu atrás na eleição. Flávio, além de estar na frente, terá o conforto de contar com maioria parlamentar, mesmo que para isso precise dialogar com o centrão em prol da governabilidade.
A vitória ainda abre possibilidade para que o ganhador mantenha ministros no Supremo Tribunal Federal (STF) mais simpáticos a sua linha ideológica.