Baixar Notícia
WhatsApp
Email

Caso Master não impede vitórias nas urnas; Wagner, Motta, Rueda e Nikolas são eleitos

Fonte: gazetamercantil.com | Data: 05/10/2026 07:05:17

🔗 Ler matéria original

A exposição provocada pelo caso Banco Master não impediu que vários políticos cujos nomes surgiram em investigações, documentos, mensagens ou relações comerciais envolvendo Daniel Vorcaro obtivessem vitórias nas eleições deste domingo, 4 de outubro. Jaques Wagner, Hugo Motta, Antonio Rueda, Nikolas Ferreira, Rui Costa, Elmar Nascimento e Mario Frias estão entre os candidatos eleitos, enquanto Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno presidencial na liderança e avançou para a disputa de 25 de outubro contra Luiz Inácio Lula da Silva.

As derrotas mais relevantes dentro desse grupo ocorreram no Piauí e na Bahia. Ciro Nogueira não conseguiu renovar o mandato no Senado depois de 16 anos na Casa, enquanto ACM Neto foi novamente derrotado por Jerônimo Rodrigues na eleição para o governo baiano. Os dois resultados, porém, não permitem concluir que as revelações sobre o Master tenham decidido as eleições. Tanto o Piauí quanto a Bahia tiveram disputas influenciadas por fatores locais, alianças partidárias, força dos governos estaduais e desempenho das chapas como um todo.

O ponto que exige maior cuidado é que os nomes não aparecem no caso Master em condições equivalentes. Alguns são formalmente investigados pela Polícia Federal e foram alvos de medidas autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal. Outros aparecem em mensagens extraídas do celular de Vorcaro, mantiveram contratos profissionais com o banco ou foram mencionados em propostas de colaboração que nem sequer foram aceitas pelas autoridades. A presença de um político em uma conversa, registro financeiro ou documento da investigação não demonstra, por si só, prática de crime.

Esse cuidado é particularmente necessário num momento em que o caso Master passou a ocupar o centro da disputa política nacional. As revelações atravessam partidos de esquerda, centro e direita e atingem personagens ligados tanto ao governo Lula quanto à oposição e ao campo bolsonarista. O resultado das urnas mostrou que, pelo menos até agora, a exposição do escândalo não produziu uma punição eleitoral uniforme.

Jaques Wagner é reeleito depois de ser alvo de buscas

Na Bahia, Jaques Wagner conseguiu renovar seu mandato no Senado mesmo depois de se tornar alvo formal da Operação Compliance Zero. Com a apuração encerrada, o petista recebeu aproximadamente 3,99 milhões de votos, ou 27,65% dos votos válidos para o cargo. A outra vaga ficou com Rui Costa, também do PT, que ultrapassou 4,3 milhões de votos.

Wagner foi alvo de busca e apreensão em junho, em uma fase da operação autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Segundo a investigação, a Polícia Federal apura indícios de uma possível relação entre dirigentes do Banco Master, entre eles Daniel Vorcaro, e o senador, com suspeitas de atuação parlamentar voltada a interesses da instituição financeira em troca de vantagens indevidas.

Entre os pontos investigados estão um apartamento em Salvador, avaliado em cerca de R$ 2,5 milhões, e pagamentos relacionados a uma empresa ligada à família do senador. Wagner nega ter recebido vantagens do Master, afirma não ter praticado qualquer ato ilegal e ressalta que não foi condenado pelos fatos em apuração.

A vitória eleitoral não interfere no andamento da investigação. Wagner terá novo mandato de oito anos no Senado, mas o inquérito segue seu curso no Supremo. O resultado, portanto, representa uma decisão eleitoral sobre sua permanência no cargo, e não uma conclusão jurídica sobre as suspeitas examinadas pela PF.

Rui Costa também teve seu nome associado publicamente ao caso, mas em situação diferente. O ex-governador e ministro apareceu em relatos que integravam uma proposta de colaboração de Daniel Vorcaro. A proposta não prosperou, e PF e Procuradoria-Geral da República consideraram que não havia elementos suficientes, naquele momento, para sustentar as afirmações. Rui sempre negou qualquer favorecimento ao Banco Master.

Essa diferença é essencial: Wagner é alvo de uma investigação formal com medidas autorizadas pelo STF, enquanto a menção a Rui Costa partiu de material que não resultou, naquele contexto, em uma acusação comprovada contra ele.

Hugo Motta mantém mandato após revelações de proximidade com Vorcaro

Na Paraíba, o presidente da Câmara, Hugo Motta, também foi reeleito. Segundo o resultado divulgado pela Justiça Eleitoral, recebeu 124.339 votos e garantiu mais um mandato de deputado federal.

A campanha ocorreu poucos dias depois da divulgação de um conjunto expressivo de mensagens e registros de comunicação entre Motta e Daniel Vorcaro. Dados extraídos do celular do ex-controlador do Master mostram que os dois tiveram ao menos 100 telefonemas concluídos entre março de 2024 e outubro de 2025, além de 102 chamadas não completadas. As conversas indicam ainda pelo menos 19 encontros presenciais combinados ao longo do período.

Os registros revelam uma relação próxima, com conversas sobre o Fundo Garantidor de Créditos, a eleição para a presidência da Câmara, pedidos de transporte em aeronaves e outros assuntos pessoais e políticos. Também vieram a público mensagens sobre uma possível sociedade envolvendo um terreno em João Pessoa e um empréstimo de pelo menos R$ 22 milhões concedido pelo Banco Master a uma empresa da cunhada do deputado.

Motta rejeita a existência de irregularidades. Sua assessoria sustenta que o presidente da Câmara mantém diálogo com empresários e diferentes setores da sociedade como parte de sua atividade política e que os diálogos publicados não demonstram ilícito. Sobre as operações privadas mencionadas nas reportagens, o deputado também nega ter praticado favorecimento ao banco.

Os contatos são relevantes para a investigação e para o escrutínio público, mas não equivalem a uma condenação nem permitem tratar cada conversa como prova de contrapartida política.

O resultado eleitoral demonstrou que a divulgação do material não foi suficiente para impedir sua permanência na Câmara. Houve, entretanto, uma derrota paralela para seu grupo familiar: Nabor Wanderley, pai de Hugo Motta, ficou em terceiro na disputa pelas duas vagas da Paraíba ao Senado.

Rueda chega à Câmara após serviços prestados ao Master

Antonio Rueda, presidente nacional do União Brasil, conquistou uma cadeira de deputado federal pelo Rio de Janeiro com 155.836 votos. Sua relação com o Master tem natureza diferente das suspeitas envolvendo Ciro Nogueira ou Jaques Wagner.

Documentos enviados por órgãos de controle indicaram que escritórios ligados a Rueda receberam aproximadamente R$ 6,4 milhões do Banco Master desde 2023. O dirigente partidário afirmou que atuou profissionalmente como advogado da instituição e sustenta que os pagamentos correspondiam a serviços jurídicos efetivamente prestados.

A existência de contratos com o banco não constitui, isoladamente, evidência de irregularidade. Para caracterizar eventual ilícito seria necessário demonstrar, entre outros elementos, que os pagamentos não correspondiam a serviços reais ou estavam relacionados a alguma vantagem indevida.

Mesmo após a repercussão do caso, Rueda conseguiu ser eleito em uma das disputas proporcionais mais competitivas do país e chegará à Câmara em 2027 acumulando o mandato parlamentar com a condição de uma das figuras centrais do União Brasil.

Nikolas recebe mais de 3,1 milhões de votos

Talvez o exemplo mais expressivo da distância entre exposição negativa e resultado eleitoral tenha ocorrido em Minas Gerais. Nikolas Ferreira foi reeleito deputado federal com 3.119.318 votos, cerca de 27,2% dos votos válidos para o cargo no Estado, estabelecendo a maior votação nominal registrada para deputado federal no país.

Semanas antes da eleição, um áudio extraído do celular de Vorcaro revelou que Nikolas havia procurado o banqueiro para pedir ajuda numa questão envolvendo um ativo de mineração de interesse de Thiago Rodrigues de Faria, advogado e ex-assessor de seu gabinete.

No áudio de março de 2025, o deputado apresenta o ex-assessor e solicita uma interlocução com Vorcaro para tentar resolver a pendência. Nikolas confirmou o contato, mas afirmou que apenas fez uma ponte entre as partes, que o negócio não prosperou e que não recebeu dinheiro pela intervenção.

Não há, a partir desse episódio isolado, comprovação de que o deputado tenha recebido recursos do banqueiro ou praticado ato ilícito. A relevância do material está na demonstração de que havia uma interlocução entre o parlamentar e Vorcaro, algo que ganhou dimensão política depois do colapso do Banco Master e da abertura das investigações.

Nas urnas, o episódio não impediu Nikolas de ampliar dramaticamente sua votação e se consolidar como uma das principais lideranças eleitorais da direita brasileira.

Ciro perde por 84 mil votos no Piauí

O resultado foi diferente para Ciro Nogueira, um dos políticos que aparecem de forma mais diretamente comprometida nas hipóteses investigativas da Polícia Federal.

O presidente nacional do PP recebeu 904.961 votos para o Senado no Piauí, equivalentes a 24,68%, e terminou em terceiro lugar. Marcelo Castro, do MDB, foi eleito com 1,307 milhão de votos, enquanto Júlio César, do PSD, conquistou a segunda vaga com 989.146. Ciro ficou 84.185 votos atrás do segundo colocado.

Meses antes da eleição, o senador havia sido alvo de busca e apreensão numa fase da Compliance Zero autorizada pelo STF. A PF investiga a suspeita de que ele tenha recebido vantagens de Daniel Vorcaro em troca de atuação política favorável aos interesses do Banco Master.

Os investigadores apontam pagamentos recorrentes, despesas com viagens e outros benefícios, além da apresentação de uma emenda que elevaria de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos. Segundo a investigação, a minuta da emenda teria sido elaborada pelo próprio Master e entregue ao senador antes de sua apresentação no Congresso.

Ciro nega qualquer troca de favores e afirma que sua atuação parlamentar foi regular. A derrota eleitoral também não representa uma conclusão sobre a investigação. Significa apenas que, diferentemente de outros políticos citados nas apurações, ele não conseguiu renovar o mandato.

O caso de Ciro é particularmente relevante porque retira do Senado uma das figuras de maior influência do Centrão, mas não o elimina da política nacional. Ele continua presidente do Progressistas e participa das negociações da federação formada com o União Brasil, inclusive das discussões sobre o apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno presidencial.

ACM Neto perde após pagamentos de R$ 3,6 milhões a empresa

Na Bahia, ACM Neto também foi derrotado. Jerônimo Rodrigues foi reeleito governador no primeiro turno com aproximadamente 55,8% dos votos válidos, contra 43,7% do candidato do União Brasil.

Durante a campanha, Neto precisou responder sobre pagamentos feitos pelo Banco Master e pela Reag a uma empresa de consultoria ligada a ele. Relatório do Coaf apontou transferências que somaram R$ 3,6 milhões entre março de 2023 e maio de 2024.

ACM Neto afirmou que os recursos tinham origem lícita e eram remuneração por serviços de consultoria efetivamente prestados. Também contestou interpretações sobre a movimentação financeira da empresa e negou qualquer relação ilícita com o Master.

Assim como ocorre com Ciro, não há base para afirmar que a investigação ou a exposição do caso tenham sido responsáveis pela derrota. Neto enfrentou um governador no exercício do cargo, apoiado por uma estrutura estadual consolidada e por Lula, que manteve forte votação na Bahia. Jerônimo também conseguiu eleger os dois candidatos de seu campo para o Senado, Rui Costa e Jaques Wagner, demonstrando uma vitória mais ampla da chapa governista no Estado.

Flávio avança ao segundo turno sob pressão do caso Dark Horse

O nome de maior peso eleitoral ligado às revelações do Master é, contudo, Flávio Bolsonaro. O candidato do PL terminou o primeiro turno presidencial na liderança, com aproximadamente 47% dos votos válidos, contra pouco mais de 45% de Lula, e disputará a Presidência em 25 de outubro.

A investigação relacionada a Flávio envolve principalmente o financiamento de “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Áudios e mensagens revelados ao longo de 2026 mostraram o senador negociando recursos com Daniel Vorcaro para viabilizar o projeto.

Flávio reconheceu posteriormente ter solicitado o investimento e afirmou que se tratava de um patrocínio privado negociado de boa-fé. O valor associado aos repasses para a produção chegou a aproximadamente R$ 61 milhões nas informações que vieram a público durante a investigação.

O candidato nega ter oferecido qualquer contrapartida ao banqueiro e sustenta que a operação era comercial e privada.

A Polícia Federal, por outro lado, continua examinando a origem, o destino e a estrutura dos recursos empregados no projeto, além das relações entre pessoas envolvidas nas operações financeiras associadas à produção.

O caso acompanhou Flávio durante boa parte da campanha e foi explorado diretamente por Lula nos últimos dias antes da votação. Ainda assim, o candidato do PL terminou o primeiro turno à frente do presidente.

Mario Frias, Elmar e outros nomes também permanecem no Congresso

Mario Frias foi reeleito deputado federal por São Paulo com 91.403 votos. O parlamentar aparece no entorno político e empresarial de “Dark Horse” por sua participação na estrutura que apoiou a produção sobre Jair Bolsonaro e nega ter cometido irregularidades relacionadas ao projeto.

Elmar Nascimento, do União Brasil da Bahia, também conseguiu renovar o mandato. Seu nome apareceu em reportagens baseadas em conversas e registros relacionados a Vorcaro, sem que a simples presença nesses materiais signifique envolvimento em ilícitos.

Os casos demonstram o problema de reunir todos os personagens sob uma mesma classificação. Existe uma diferença substancial entre ser investigado por suspeita de recebimento de vantagens, aparecer numa conversa, prestar serviços profissionais a uma instituição financeira ou ser mencionado por terceiro numa proposta de colaboração.

Misturar essas situações pode produzir uma impressão de responsabilidade coletiva que os próprios autos não sustentam.

Urnas não encerram o caso Master

O balanço eleitoral mostra, portanto, que as investigações do Banco Master atravessaram a campanha sem produzir um comportamento uniforme do eleitorado. Jaques Wagner, Hugo Motta, Antonio Rueda, Nikolas Ferreira, Rui Costa, Elmar Nascimento e Mario Frias foram eleitos. Flávio Bolsonaro avançou ao segundo turno. Ciro Nogueira e ACM Neto perderam suas respectivas disputas.

Essa comparação, contudo, não permite dizer que os eleitores absolveram os vencedores ou condenaram os derrotados. Eleição e processo criminal obedecem a critérios completamente diferentes. O voto define quem ocupará o cargo; investigação, denúncia e julgamento é que determinam eventual responsabilidade jurídica.

Também seria precipitado usar a expressão “envolvidos no caso Master” indistintamente. Há políticos formalmente investigados, como Ciro Nogueira e Jaques Wagner, e personagens cuja relação conhecida até agora está limitada a mensagens, serviços profissionais, contatos pessoais ou citações feitas por terceiros.

A eleição de 2026 resolveu o futuro político imediato de parte desses nomes, mas não encerrou nenhuma investigação.

Daniel Vorcaro permanece preso preventivamente e a Operação Compliance Zero continua sob supervisão do Supremo Tribunal Federal. A PF ainda analisa documentos, mensagens e dispositivos eletrônicos apreendidos ao longo das diversas fases da operação.

Por isso, o resultado deste domingo produziu uma situação peculiar: vários personagens que entraram na campanha sob o impacto das revelações sobre o Master iniciarão 2027 com novos mandatos, enquanto as investigações que trouxeram seus nomes ao noticiário continuarão abertas.

No Congresso, isso significa que parte do caso passará a ser acompanhada simultaneamente por parlamentares reeleitos ou recém-eleitos cujas próprias relações com Vorcaro foram objeto de escrutínio público. Nas urnas, muitos sobreviveram. Na esfera judicial, entretanto, o caso está longe de terminar.

Fontes

Tribunal Superior Eleitoral — resultados oficiais das Eleições Gerais de 2026.

Supremo Tribunal Federal — decisões da Operação Compliance Zero envolvendo Ciro Nogueira e Jaques Wagner.

Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba — resultado oficial da eleição para deputado federal no Estado.

Polícia Federal — documentos e registros incorporados às investigações do caso Banco Master.

Coaf — informações financeiras incorporadas às investigações e reportagens sobre pagamentos relacionados ao Banco Master.