Rússia tenta conter especulações sobre peste na Sibéria; entenda o que se sabe até agora
Fonte: estadao.com.br | Data: 05/10/2026 21:57:28
Rumores vêm se espalhando há dias de que uma jovem funcionária de laboratório morreu com suspeita de peste na Sibéria, na Rússia e que as autoridades temiam que uma epidemia pudesse se espalhar e haviam colocado centenas de pessoas em quarentena.
Embora as informações concretas sejam escassas, relatos conflitantes são abundantes. O órgão russo de defesa do consumidor, que supervisiona o controle de doenças, disse apenas que “uma funcionária de um instituto antiepidêmico da região de Irkutsk” foi “diagnosticada com pneumonia” de origem desconhecida.

Funcionários do Instituto de Pesquisa Antipeste de Irkutsk da Sibéria e do Extremo Oriente em um laboratório, sem data divulgada em 2019
Foto: The Irkutsk Anti-Plague Research Institute of Siberia and Far East/AP
Isso não impediu que os rumores — alimentados em parte por declarações contraditórias de autoridades locais, bem como por uma ampla desconfiança em relação às autoridades russas, que no passado esconderam emergências, como o surto de Aids na década de 1980 — chegassem às manchetes internacionais. Veja o que se sabe.
A versão oficial
O órgão russo de defesa do consumidor não identificou a funcionária. Em um comunicado divulgado pelos veículos de comunicação estatais e publicado em partes, a agência afirmou que “nenhum microrganismo relacionado à sua atividade profissional foi identificado nas amostras da paciente” e que “nenhuma alteração de saúde relacionada a uma patologia infecciosa” foi identificada entre seus contatos.
Uma comissão também verificou o instituto antiepidêmico de Irkutsk para avaliar o cumprimento dos “requisitos de segurança biológica”, informou a agência, e “nenhuma situação de emergência envolvendo microrganismos patogênicos foi identificada”.

Kremlin pediu nesta segunda-feira que as pessoas ignorem as especulações do caso de Irkutsk
Foto: Igor Ivanko/AFP
O instituto de Irkutsk realiza pesquisas sobre diversas doenças infecciosas, incluindo a peste, que é causada por uma bactéria. Embora haja algumas centenas de casos em todo o mundo a cada ano, principalmente na África, a peste pode ser facilmente tratada com antibióticos quando identificada precocemente.
Em seu comunicado, o órgão de defesa do consumidor acrescentou que a “situação sanitária e epidemiológica” na região de Irkutsk era “estável”.
O comunicado foi divulgado no domingo, dois dias depois de surgirem os primeiros relatos sobre algo mais preocupante acontecendo na região de Irkutsk, que fica a cerca de 4.200 quilômetros a leste de Moscou.
Declarações contraditórias
Os primeiros sinais de um possível problema surgiram na sexta-feira, 2, quando o governador da região de Irkutsk afirmou ter realizado “uma reunião extraordinária” com o principal médico sanitarista da Rússia sobre “um caso suspeito de uma infecção particularmente perigosa em um morador”.
“Todos os contatos identificados” do morador “foram colocados sob observação médica”, escreveu o governador, Igor I. Kobzev, em uma declaração nas redes sociais.
Naquele dia, o prefeito de Shelekhov, cidade próxima a Irkutsk, capital da região, disse ter recebido “muitas consultas” de moradores e confirmou que a ala de internação do hospital local havia sido fechada para quarentena. O prefeito, Maksim N. Modin, disse que o laboratório do hospital havia suspendido as operações. Ele pediu aos moradores que “não espalhassem rumores”.
Leia também
-
Rubio afirma que EUA acompanham de perto morte de pesquisadora em laboratório de peste na Rússia
-
Trump atribui alta nos preços da gasolina a ataques da Ucrânia à Rússia
-
Pesquisadora de laboratório na Rússia morre após suspeita de infecção por peste
O governador da região vizinha da Buriácia, Aleksei Tsydenov, foi o primeiro a levantar oficialmente a possibilidade de peste. Ele disse na sexta-feira que “a mulher que morreu de peste na região de Irkutsk” não havia visitado a Buriácia. Sua publicação em um aplicativo de mensagens ligado ao Estado foi posteriormente atualizada para dizer que ela “possivelmente morreu de peste”.
No dia seguinte, as autoridades de Baikalsk, uma cidade a cerca de 80 quilômetros de Irkutsk, citaram “informações não oficiais” sobre “um caso de peste” em um comunicado que recomendava evitar viagens para Shelekhov. A declaração, publicada no Telegram, foi posteriormente apagada.
Também foram apagadas pelo menos três publicações da Ren-TV, uma rede de notícias federal, incluindo uma que identificava a funcionária do laboratório morta e informava que ela pesquisava peste.
O prefeito de Shelekhov, Modin, disse nesta segunda-feira, 5, que o órgão de defesa do consumidor mantinha a situação “sob estrito controle”, acrescentando que “um conjunto de medidas antiepidêmicas está sendo realizado”.
Teorias e especulações
Os veículos de comunicação locais apresentaram um quadro mais sombrio. O Lyudi Baikala, um veículo regional, informou que, além do hospital de Shelekhov, outras clínicas e uma maternidade haviam sido fechadas em Irkutsk.
Pavel Stepanov, um jornalista local, publicou em seu canal no Telegram que uma jovem assistente de laboratório havia quebrado um frasco de teste e morrido. A afirmação não pôde ser verificada de forma independente. Em uma publicação posterior, ainda na segunda-feira, Stepanov defendeu sua reportagem e questionou por que algumas agências governamentais e veículos de comunicação favoráveis ao Kremlin haviam apagado declarações e matérias sobre Irkutsk.
As autoridades, disse ele, “deveriam investigar se tudo isso não é uma sabotagem de nossos inimigos, que estão agindo com métodos cada vez mais sofisticados”.
Há algum motivo para ter medo?
Autoridades dos Estados Unidos e da União Europeia disseram estar cientes e monitorando os relatos sobre Irkutsk.
Um possível vazamento de laboratório e uma doença temida levaram alguns a fazer comparações com a covid-19, mas especialistas observaram que, mesmo se a peste fosse confirmada, o risco seria limitado. Casos de peste em humanos ocorrem todos os anos e são relativamente simples de tratar.
O professor Ian Jones, virologista da Universidade de Reading, na Inglaterra, afirmou em uma declaração enviada por e-mail que o caso de Irkutsk “parece ser um raro acidente de laboratório e é improvável que vá muito além”.
Este conteúdo foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA.
