USP desenvolve método que detecta superbactérias em horas e pode reduzir custos de UTIs
Fonte: epocanegocios.globo.com | Data: 06/10/2026 09:56:48
A resistência antimicrobiana (RAM) é uma das principais ameaças à saúde no mundo. Ela ocorre quando bactérias, vírus, fungos e parasitas não respondem aos medicamentos disponíveis e, como resultado, torna as infecções difíceis ou até impossíveis de tratar.
A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que mais de 700 mil pessoas morrem por ano por conta dessa resistência. Até 2050, esse número deve chegar à alarmante marca de 10 milhões, superando o de vítimas de câncer.
Mas, ao mesmo tempo em que o problema se agrava, a ciência busca alternativas para enfrentá-lo. Na Universidade de São Paulo (USP), pesquisadores da Faculdade de Medicina (FMUSP) e do Hospital das Clínicas (HC), em parceria com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, desenvolveram e validaram uma estratégia capaz de detectar a presença de superbactérias no intestino de pacientes internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs).
Ela compreende a utilização de um teste rápido semelhante aos testes de farmácia, como os de Covid-19 ou gravidez, chamado teste imunocromatográfico (ICT). O foco é a detecção das Enterobactérias Resistentes a Carbapenêmicos (ERC), bactérias intestinais comuns que desenvolveram resistência aos antibióticos mais potentes do mercado – os carbapenêmicos.
Matias Chiarastelli Salomão, professor colaborador da FMUSP, explica que muitas pessoas carregam essas bactérias no intestino sem apresentar nenhum sintoma. Contudo, elas podem transmiti-las para pacientes vulneráveis dentro do ambiente hospitalar ou desenvolver infecções graves posteriormente.
“No HC, para evitar que isso aconteça, investigamos todo paciente que interna nas unidades que chamamos de críticas, que são as unidades de transplante e as de terapia intensiva.”, relata. “O que fazemos é um rastreio universal, para saber se ele é portador das bactérias.”
O professor acrescenta que o padrão ouro, atualmente, é um método baseado no cultivo das bactérias em laboratório (cultura). O problema é que o resultado é demorado – leva de três a sete dias para sair.
“Enquanto isso, a pessoa fica em isolamento preventivo individual, o que é muito oneroso para o hospital, pois exige que todos que entrem no quarto se paramentem todas as vezes com luvas e aventais descartáveis. Isso ainda gera um custo ambiental e faz com que enfermeiros e médicos percam tempo colocando e tirando os equipamentos”, salienta Salomão.
Uma alternativa ao exame convencional são os testes genéticos moleculares, como o PCR. Mas, ao mesmo tempo em que são rápidos e precisos, são caros e exigem equipamentos complexos.
“Os testes moleculares são interessantes, mas inviáveis para a maioria dos hospitais públicos do Brasil. Por isso, pensamos em algo que pudesse ser utilizado em um contexto mais amplo, que não ficasse restrito aos ambientes com mais recursos. Foi aí que surgiu a ideia do teste imunocromatográfico”, diz o professor.
O teste em si, ele aponta, é um comercial já existente no mercado. O que ele e seus colegas fizeram foi validar uma nova metodologia. Nela, é coletada uma amostra do paciente via swab retal. Esse swab, então, é colocado no caldo BHI (Brain Heart Infusion ou Infusão de Cérebro e Coração), meio de cultura líquido usado para cultivar uma ampla variedade de microrganismos, por seis horas e depois aplicada diretamente no teste rápido.
“Conseguimos agilizar o resultado de dias para horas”, celebra Salomão. “Em testes laboratoriais, realizados em 2022, e depois em um realizado na UTI do HC, em 2023 e 2024, o exame rápido se mostrou tão eficaz quanto o convencional. Ele atingiu sensibilidade de 91% e especificidade de 99%.”
Outra constatação foi que, apesar de ser mais caro individualmente do que o convencional, quando se considera o todo, gera economia para o hospital. “Como encurta o tempo do isolamento, é muito mais custo efetivo. Em uma simulação com 100 leitos de UTI, a adoção desse teste gerou economia entre US$ 2,4 mil e US$ 3,9 mil por semana”, indica o professor.
A nova metodologia ainda não foi implementada no HC. Por enquanto, os pesquisadores estão publicando os resultados em revistas científicas. Posteriormente, será discutido sobre a possibilidade ou não da adoção.
“De toda forma, acreditamos que seja uma ferramenta democrática de controle de infecção. Ela oferece a velocidade de um teste molecular caro, mas por uma fração do preço e sem necessidade de máquinas complexas. Isso abre as portas para que qualquer hospital público ou laboratório com recursos limitados no Brasil e no mundo consiga identificar pacientes portadores de forma precoce, economize recursos retirando isolamentos desnecessários e proteja os pacientes internados”, completa Salomão.
Embora o teste rápido melhore o fluxo dos hospitais e reduza gastos com isolamentos desnecessários, vale o alerta de que o controle definitivo das superbactérias em ambientes de alta prevalência exige um cuidado contínuo que vai além do isolamento. Medidas como o uso correto e controlado de antibióticos por parte dos médicos e os cuidados rígidos com a higiene são fundamentais para conter o avanço do problema.