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Bendito o fruto do vosso ventre

Fonte: gauchazh.clicrbs.com.br | Data: 07/10/2026 19:28:50

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Olga Ко / stock.adobe.com
O costume de presentear filhos com frutas e alimentos lembra tradições do interior, reforçando laços familiares nas cidades.

Minha mãe não tem mais árvores no quintal, mora num apartamento, mas ela continua dando sacolas de frutas para os filhos.

Sempre que a visito, ela me alcança uma braçada de bergamotas e de bananas.

Parece que eu saí de uma fruteira, não do endereço materno.

— Aceita sem discutir! Estão docinhas!

Não posso me opor, não posso negar.

Ela me fala que escolheu a dedo, que não vou me arrepender. Pede para que eu reparta com os netos e com Beatriz.

Dona Maria não se curou dessa mentalidade de Guaporé, de um ritual cultivado com seus pais.

Quem vai ao interior, para ver os parentes, volta da viagem com o dobro de bagagem, com a famosa maleta, embrulho, farnel ou cesta de vime.

Não só frutas, mas também queijo, salame, cuca, pão colonial, geleia, compotas, o que houver de adicional na mesa.

Os familiares fazem questão de garantir que você tenha algo fresco para comer no trajeto ou ao chegar, evitando que você gaste na estrada. O perfume do contrabando contamina o ônibus ou o carro.

Você acaba carregando um pedaço do torrão natal para diminuir a saudade. Não se separa por inteiro. Por mais alguns dias, aquele reencontro segue acontecendo no paladar.

Isso quando não oferecem uma muda de planta, para equilibrar no colo. Isso quando não convencem a adotar um filhote da ninhada de cachorro ou de gato que recém nasceu.

A mãe foi criada numa área verde e permaneceu colhendo a alegria dos pés dentro de um vasto pátio, durante a minha infância e adolescência. Contávamos com abacateiro, ameixeira, pitangueira, limoeiro, laranjeira, figueira, num revezamento de safras e estações.

Ameixinhas amarelas e pitangas vinham na primavera, figos no verão, abacates no outono, laranjas sobretudo no inverno e limões quando eles quisessem.

Meus irmãos e eu vivíamos agarrados nos galhos. A mãe preparava vitaminas, encaminhava como lanche em nossa merenda e enchia a gamela diariamente.

Nunca levei sanduíches para a escola, e sim maçãs e peras. Minha mochila virava terra adubada. Eu abria o zíper e sentia o cheiro de fim de feira. As espirais dos cadernos deitavam raízes.

Qualquer afeto que aparecesse merecia parte de nosso pomar. Ninguém se despedia de mãos abanando. Não se permitia que nenhuma fruta apodrecesse. Assim o sorriso de dona Maria não murchava.

Ela dizia com orgulho: “É daqui de casa”.

O presente conservava o zelo de quem semeou, esperou amadurecer e se lembrou de dividir. O carinho se ofertava com prazo de validade: “Precisa comer logo”.

Era seu jeito indireto de repassar seu apego: eu me importo com você e desejo que esteja bem alimentado, mesmo longe de mim.

Essas coisas do coração, não há lei que as proíba.