A ESTRELA SE APAGA
Fonte: piaui.uol.com.br | Data: 08/10/2026 00:45:54
O motorista de aplicativo Emanuel Oliveira, de 24 anos, perdeu as contas de quantas vezes já havia estado naquela fila. Só naquele dia 13 de setembro, domingo, foram cinco. Com o ingresso que dá direito a acesso preferencial, ele conseguiu escapar das filas mais longas, que chegavam a cinco horas de espera. Quase todos no Beto Carrero World – parque temático na cidade litorânea de Penha, em Santa Catarina – queriam aproveitar a última dose de adrenalina na Star Mountain, a montanha-russa mais antiga do local, que estava encerrando suas atividades naquele dia.
“Sempre teve muito movimento, mas desde que anunciaram a aposentadoria, o negócio explodiu”, diz Vitor Santos, de 20 anos, que há dois trabalha como monitor do parque. Já no feriadão de Sete de Setembro, conta ele, a espera para rodar na Star Mountain chegou a sete horas.
No dia 13, Santos operou o brinquedo em suas horas derradeiras. Depois, ajudou a organizar o Encontro das Gigantes, evento que, às 19 horas, celebrou a última volta da Star Mountain e a reinauguração de outra montanha-russa, a FireWhip, que passara por uma reforma completa nos trilhos. Eram duas radicais no parque, e agora será apenas uma – além das duas montanhas-russas infantis.
Por um lance de sorte, Oliveira participou dessas celebrações. Quando se preparava para ir embora, cruzou com o diretor-presidente do Beto Carrero World, Alex Murad. Ele é filho do fundador, João Batista Sérgio Murad, mais conhecido pelo nome artístico de Beto Carrero (que morreu em 2008, aos 70 anos). Oliveira pediu para tirar uma foto com Alex Murad, que então o convidou para o Encontro das Gigantes.
Natural da cidade de Barra Velha, a 21 km distante de Penha, Oliveira frequenta o parque desde os 3 anos. Nas suas contas, esteve lá 79 vezes. E começou a andar na Star Mountain logo que chegou ao 1,2 metro, altura mínima estabelecida pelos padrões de segurança. Figura conhecida pelos funcionários, ele bateu papo com o monitor Santos na fila de entrada para o Encontro das Gigantes. “Hoje eu vim para me despedir. A primeira volta foi legal. A segunda e a terceira, uma delícia. Na quarta, terminei chorando”, confessou.
Com 32 anos de atividade no Beto Carrero World, a Star Mountain era uma senhora idosa no universo das montanhas-russas. Rumores de sua desativação já corriam desde 2024, quando ela fechou temporariamente para manutenção. Em agosto de 2026 foi feito o anúncio oficial: o encerramento seria dali a um ano. “Parece que eu vou entrar em luto, sabe? É difícil, uma sensação muito esquisita”, disse Vitor Santos nos momentos finais. Pontualmente às 19 horas, ele liberou a entrada.
Muitos convidados vestiam a camiseta que receberam de brinde, com a imagem da montanha-russa e a frase A última volta – #EuFui!. Influenciadores, jornalistas e “beto fãs” – como são chamados os frequentadores assíduos do parque – aglomeram-se perto da entrada da Star Mountain. Garçons ofereciam espumante, vinho, refrigerante e água. Alex Murad falou ao público sobre as distâncias percorridas pelos seis carrinhos da montanha-russa – seria o equivalente a uma viagem de ida e volta à Lua e mais seis voltas na Terra. “Com todo respeito, a gente também tem que saber a hora de parar”, concluiu.
A Star Mountain foi a primeira montanha-russa instalada no parque catarinense. Beto Carrero comprou-a em Buenos Aires, onde ela funcionou no Italpark, de 1980 a 1990. Na capital argentina, seu nome era Corkscrew (saca-rolhas, em inglês), termo técnico que designa as inversões espirais que fazem os passageiros virarem de cabeça para baixo. A Star Mountain contava com duas dessas estruturas. Os corkscrews eram típicos da fabricante holandesa Vekoma, que mandou técnicos ao Brasil para auxiliar a equipe que remontou o brinquedo gigante – quase 23 metros de altura e mais de 730 metros de extensão – no Beto Carrero World.
A Corkscrew foi rebatizada de Star World Mountain, mas ficou conhecida simplesmente como Star Mountain, nome que o parque oficializou só em 2008. A publicidade do Beto Carrero World anunciava que era a primeira montanha-russa do Brasil, mas o pioneirismo pertence à Super Jet, inaugurada em 1973 no Playcenter, em São Paulo. No momento de seu fechamento, a Star Mountain era, na verdade, a mais antiga montanha-russa ainda em funcionamento no país. A direção do parque afirma que nunca houve nenhum “susto” ou acidente no brinquedo. Recentemente, uma jovem sofreu uma lesão grave no cérebro provocado pelo movimento intenso de uma montanha-russa no parque Hopi Hari, em São Paulo.
O diretor de operações do Beto Carrero World, Dirceu Herkenhoff, explica que, com o desgaste da montanha-russa e a dificuldade de achar peças originais, obter o certificado de segurança do equipamento, emitido pela alemã TÜV Nord, ficou caro. Isso pesou na decisão de desativar a atração. “A gente também quer abrir espaço para outras melhorias”, justifica Herkenhoff. O parque também deseja atender grupos com famílias, principal público-alvo do negócio. A mudança, porém, não agrada alguns dos frequentadores que buscam experiências mais radicais, como a que era propiciada pela Star Mountain.
A aventura começa quando o monitor fecha manualmente a trava de segurança dos carrinhos. Na lenta subida da primeira rampa, o vento gelado do litoral aguça o frio na barriga. Os estalos metálicos – tec, tec, tec – antecipam a descida. Bem no topo, um breve instante de silêncio – e vuuuuuum: a queda de 20 metros faz todos os 24 passageiros gritarem. A 60 km por hora, os carrinhos sobem, descem, inclinam, fazem os loopings.
Ao fim do trajeto de cerca de 100 segundos da Star Mountain, os passageiros gritavam, em coro: “Eu não vou embora!” Nostálgicos dos momentos de tensão e diversão no brinquedo, crianças e adultos deixaram os trilhos de olhos úmidos. Oliveira foi um deles.
A reportagem da piauí embarcou na antepenúltima volta do 13 de setembro. A penúltima foi reservada para funcionários do parque e para a família de Murad. Eles se somaram aos 33 milhões de visitantes que curtiram a montanha-russa nos últimos trinta anos.
Antes da volta final, sem nenhuma pessoa, houve uma contagem regressiva: “5…4…3…2…1.” O monitor acionou o botão pela última vez, e os seis carrinhos da Star Mountain, agora vazios, percorreram o circuito até o fim, para então parar em definitivo.
Um show de fogos de artifícios acompanhou a homenagem, ovacionada pelo público. “Tinha esquecido o quanto ela é bonita”, disse um visitante aos amigos. “Foi a verdadeira estrela deste parque.”