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Ceará atrai corrida por minerais estratégicos e deve receber R$ 28,3 bilhões em investimentos

Fonte: diariodonordeste.verdesmares.com.br | Data: 08/10/2026 10:11:28

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O Ceará pode receber R$ 28,3 bilhões em investimentos de empresas de mineração, se tornando o quarto estado com mais aportes do setor até 2030, atrás apenas de Minas Gerais, Pará e Bahia, tradicionais líderes do segmento.

A projeção é do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), que reúne empresas responsáveis por 85% da produção mineral do País. O crescimento da prospecção de mineradoras levanta preocupações em relação à exploração de recursos e a proteção da região envolta, apontam especialistas.

O valor projetado para o Ceará representa 7,1% dos investimentos previstos para o todo País no setor. Os aportes previstos para o Ceará são em sua maioria de minerais para a produção de fertilizantes, segmento em alta devido à dependência externa de produtos internacionais, destaca o Ibram.

O Brasil também é alvo de uma corrida para a exploração de minerais críticos e estratégicos, como lítio, cobalto, níquel e manganês.

O País chama atenção pela presença de um grupo de minerais chamados de “terras raras”, com propriedades magnéticas, ópticas e elétricas.

A alta procura por esses minerais está associada à sua aplicação em indústrias da transição energética, digitalização e alta tecnologia.

Minerais.

CIDADES MAIS IMPACTADAS NO CEARÁ

Um dos elementos que mais atrai olhares para o Ceará é o lítio. O município de Solonópole, no Sertão Central, tem potencial litinífero pesquisado por empresas do Canadá, Austrália, Emirados Árabes e outros países.

A cidade concentra 126 processos ativos vinculados a 56 empresas, segundo levantamento do Serviço Geológico do Brasil (SGB). O Ceará registrou um pico de solicitações de pesquisa para a exploração de lítio em 2023, com alta de mais de 1000% em relação ao ano anterior.

A escalada coincide com mudanças na política mineral brasileira, já que o lítio deixou de ser tratado como substância estratégica em 2022, eliminando as restrições à exportação de concentrados. A substância foi subindo no ranking e é a terceira com mais pedidos de pesquisa.

Outras áreas com grande interesse mineral no Ceará, segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM), são:

  • Meruoca, com potencial para terras raras associadas a formações magmáticas;
  • Santa Quitéria, com ocorrências de fosfato e urânio;
  • Província Grafítica Ceará Central, com 39 ocorrências de grafita na porção centro-leste do estado;
  • Região de Granjeiro-Cococi, no sul do estado, onde foram identificadas ocorrências de cobre, ouro, manganês, magnesita, barita, caulim e quartzo.

“ONDAS” DE MINERAÇÃO NO CEARÁ

As pesquisas de exploração mineral no Ceará se movimentam seguindo “ondas”. O cobre, por exemplo, protagonizou a alta de solicitações de pesquisas em 2017 e em 2022. Em 2023, o lítio registrou 582 solicitações, com variação de mais de 1.400%. Já em 2024, quartzito e manganês tiveram o maior crescimento de pedidos de pesquisa.

No acumulado de 2026, o minério de ferro chama atenção pela alta de mais de 300% nas solicitações de pesquisa. Os dados dessa análise foram levantados pela equipe de Negócios do Diário do Nordeste com base em informações da ANM.   

O “boom” da mineração é um fenômeno internacional e atinge sobretudo América Latina e África, que permanecem as grandes fornecedoras de natureza, conforme iniciado no período colonial, aponta a pesquisadora da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Iara Fraga, com foco na questão ambiental e conflitos socioterritoriais.

“Esses minerais são fundamentais para a produção de commodities e o sustentáculo para a produção que estrutura essa era das tecnologias de informação da comunicação, portanto, essa onda já está se efetivando em vários países e também no nosso Estado”, comenta.  

Legenda:

Projeto da Mina de Itataia aguarda liberação do Ibama para exploração de urânio e fosfato.

Foto:

Kid Jr.

A especialista aponta que a atividade de mineração no território cearense se concentra historicamente na extração de rochas ornamentais. A partir dos anos 2000, outros minérios passaram a ser requeridos. 

“A exemplo do minério de ferro em Quiterianópolis, com a empresa coreana Globest que durante os anos de (2007-2021) faturou na faixa dos trilhões por ano. Outro exemplo é o colofanito (urânio associado ao fosfato) com o Consórcio Santa Quitéria que tem a previsão de minerar a Jazida de Itataia por 20 anos”, elenca.

O estado tem poucas minas em operação relacionadas a minerais críticos e estratégicos: duas minas de ferro de porte micro, uma mina de lítio de pequeno porte e uma mina de quartzo (silício) de porte micro.

Já em fase de pesquisa são 37 processos minerários para terras raras, sendo que 13 já possuem relatório final de pesquisa e aguardam análise da ANM.

TRANSIÇÃO ENERGÉTICA PODE SER DIVISOR DE ÁGUAS

A transição energética pode representar um divisor de águas para a exploração mineral no Ceará. Além do aumento de pesquisas para a exploração de terras raras e minerais estratégicos, o perfil de exploração tem se tornado mais industrial, segundo o diretor nacional do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), Pedro D’Andrea.

“Esse processo se inicia em 2014, e se consolida nesses próximos anos, até 2030. Além de serem mineradoras industrias, são mineradoras associadas à transição energética, principalmente para lítio e terras raras”, comenta.

O especialista reitera que o País deve focar no beneficiamento dos minerais, saindo do papel de fornecedor para um protagonista das novas indústrias. É um erro estratégico, na visão de Pedro, delegar a exploração mineral apenas ao setor privado.

Estamos reproduzindo um modelo de dependência brasileira em relação ao mercado exterior. Um modelo em que o estado brasileiro, e por consequência o estado cearense, não define o que, onde e o quanto minerar. É um modelo que não discute as alíquotas, não reconstitui a transparência dos repasses, e não coloca o povo afetado no centro da gestão dos recursos.

Atendendo a uma demanda interna, é possível controlar a velocidade da extração, bem como permitir que a atividade agregue valor à economia local e gere aumento de renda.

EXPLORAÇÃO NÃO É GARANTIDA 

O alto volume de solicitações, entretanto, não indica que haverá um grande número de minas instaladas, pondera o professor do Departamento de Geologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Felipe Holanda dos Santos.

A pesquisa é uma etapa necessária para comprovar ocorrência, geometria, teor e viabilidade econômica para a exploração.

“É difícil transformar diretamente o número de requerimentos de pesquisa mineral em uma estimativa de investimentos ou de empregos. Existe uma diferença muito grande entre uma área em fase inicial de pesquisa e um empreendimento que já possui recursos e reservas definidos”, explica.

O interesse crescente no Ceará, segundo o especialista, decorre de geologia favorável, com ocorrência de pegmatitos (rochas graníticas) em diferentes regiões, e demanda internacional.

O mais provável é que vejamos uma seleção progressiva dessas áreas. Algumas podem apresentar resultados pouco interessantes e ser abandonadas. Outras podem avançar para sondagens e avaliações mais detalhadas. E uma parcela menor poderá eventualmente demonstrar recursos minerais e viabilidade econômica suficientes para justificar um empreendimento mineiro.

A instalação de uma mina ocorre apenas com a combinação de fatores tecnológicos e econômicos​. O relatório final de pesquisa mineral deve ser aprovado pela Agência Nacional de Mineração, com apresentação de um plano de aproveitamento econômico da jazida.

O empreendimento também deve obter licença prévia do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para a outorga de título minerário e não pode adentrar terras indígenas.

Atualmente, o Ibama conduz quatro processos de licenciamento ambiental de atividade mineral no Ceará. Três deles são referentes à extração de bioclásticos marinhos (fragmentos fósseis encontrados em rochas sedimentares), todos da empresa Osteofix.

Os projetos podem se instalar nos municípios de Barroquinha, Aquiraz e Jijoca de Jericoacoara. Os bioclásticos podem ser uma alternativa para a produção de fertilizantes, assim como o fosfato, mineral que pode ser explorado em Santa Quitéria.

O empreendimento do Consórcio Santa Quitéria também tem licenciamento ambiental analisado pelo Ibama. Os trâmites começaram em 2004 e foram retomados em 2019, após arquivamento do primeiro processo.

Legenda:

Demanda por minerais estratégicos cresceu mundialmente com transição energética.

Foto:

Shutterstock.

IMPACTO AMBIENTAL

O uso extensivo de água é um dos pontos críticos analisados sobre a mineração no Ceará. A mina de urânio em Santa Quitéria, por exemplo, pode trazer riscos à água,à biodiversidade e à saúde humana, segundo parecer realizado a pedido do Ministério Público.

A viabilidade dos empreendimentos deve ser analisada de forma criteriosa, já que grande parte das cidades cearenses convive com escassez hídrica, segundo Fraga. Os projetos podem afetar todo o ecossistema das cidades, o que se torna mais grave diante da crise climática.

Também é preciso ouvir as comunidades envolvidas e realizar uma compensação dos impactos às regiões. A especialista chama atenção para o movimento de fragilização das legislações ambientais, em meio a disputas econômicas.

“Tem sido comum as pessoas não serem informadas por nenhum agente público, quiçá pelas empresas, sobre os empreendimentos. Muitas comunidades tomam conhecimento dos projetos quando já estão em curso e começam a sentir os seus impactos”, observa.

A Agência Nacional de Mineração afirmou, em nota, que o marco egulatório para a mineração no Brasil foi “significativamente fortalecido” após os rompimentos das barragens de Mariana (2015) e Brumadinho (2019).

Entre as medidas adotadas estão a proibição de barragens construídas pelo método de alteamento a montante, a ampliação do monitoramento remoto, o uso de imagens de satélite e a realização de auditorias independentes obrigatórias.

O órgão atualizou em 2025 os requisitos de segurança aplicáveis às barragens de mineração, ampliando os critérios de riscos dessas estruturas.

Minerais.

SOCIEDADE CIVIL DEVE PARTICIPAR DO DEBATE

O Governo Federal instituiu a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, em setembro, para estimular o beneficiamento de minerais críticos e estratégicos. Foi criado um fundo garantidor de R$ 2 bilhões, além de créditos fiscais até 2034.

A lei também cria o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE), órgão vinculado à Presidência da República,  reunindo representantes de entes federativos e da academia.

A nova diretriz erra ao deixar de fora do debate representantes da sociedade civil, avalia Pedro D’Andrea, representante do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM).

“Na nossa avaliação há um lobby muito importante. Na prática é um projeto de lei pensado, redigido e articulado dentro de gabinetes que têm profunda relação com a entidade de classe do setor, com os interesses das grandes mineradoras”, opina.

O Brasil se afasta de viabilizar, portanto, um cenário que pode refundar o modelo mineral brasileiro e colocar no centro do setor a soberania nacional e os interesses populares.

Créditos

Mariana Lemos e Gabriela Custódio, Repórteres | Kid Junior, Fotógrafo | Bruna Damasceno e Hugo R Nascimento, Editores de Negócios | Louise Dutra, Arte/Animação | Victor Ximenes, Coordenador de Jornalismo | Ivila Bessa, Gerente de Jornalismo | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo e Esporte


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