Galípolo diz à PF que servidores do BC atrasaram fiscalização do Master
Fonte: brasilemfolhas.com.br | Data: 08/10/2026 15:33:14
O presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, afirmou nesta terça-feira (6) à Polícia Federal (PF) que insistiu com dois servidores da instituição para obter documentos sobre as operações financeiras do Banco Master, mas não conseguiu acesso ao material. Segundo seu depoimento, houve uma “demora injustificada” na apresentação dos registros.
Em depoimento revelado pelo jornal O Estado de S. Paulo, Galípolo disse que Belline Santana, então chefe de supervisão bancária, e Paulo Sérgio Neves Souza, adjunto do setor, deixavam de apresentar os registros solicitados e sustentavam que as transações realizadas pela instituição de Daniel Vorcaro estavam regulares. O presidente do BC declarou que pretendia examinar os fluxos financeiros das carteiras de crédito consignado vendidas pelo Master ao Banco Regional de Brasília (BRB).
Diante da falta de respostas, Galípolo determinou a formação de uma equipe de auditoria composta de outros integrantes do BC, sem a participação de Belline nem Paulo Sérgio. O dirigente afirmou que chegou a cobrar providências em reuniões “em clima de tensão” e “com palavrões”. As discussões, segundo ele, tinham como objetivo acelerar a elaboração de um relatório com indícios de possíveis crimes financeiros, destinado ao Ministério Público Federal (MPF). Apesar das cobranças, o documento não era entregue.
Galípolo afirmou que foi o diretor de fiscalização Ailton de Aquino, superior hierárquico dos dois servidores, quem inicialmente identificou as inconsistências nas carteiras de crédito do Master. O depoimento foi prestado na condição de testemunha, no inquérito que investiga a suspeita de que Vorcaro tenha cooptado os dois servidores para favorecer os interesses do Master dentro do BC.
A convocação de Galípolo ocorreu depois que Paulo Sérgio afirmou à PF que o presidente do BC havia retardado o envio de um relatório ao MPF com indícios de crimes financeiros. Galípolo contestou a acusação e disse que a situação foi inversa, atribuindo ao próprio servidor a resistência à produção dos documentos. Conforme seu relato, Paulo Sérgio considerava suficientes as explicações fornecidas pelo Master para justificar as operações questionadas.
A investigação da PF identificou possíveis vínculos financeiros entre os funcionários e pessoas próximas a Vorcaro. Entre os negócios examinados estão a contratação de Belline para serviços de consultoria por uma pessoa ligada ao banqueiro e a negociação de um imóvel rural de Paulo Sérgio com uma empresa vinculada ao cunhado do controlador do Master. Os investigadores também encontraram conversas em aparelhos celulares que, segundo a apuração, revelam que os servidores orientavam Vorcaro sobre como responder aos questionamentos do BC.
As defesas de Belline e Paulo Sérgio negam que eles tenham favorecido o Master ou recebido vantagens indevidas. A conduta dos dois também é examinada pela Controladoria-Geral da União (CGU), em processo administrativo-disciplinar que pode resultar na expulsão dos servidores dos quadros do BC. Galípolo também afirmou à PF que se posicionou internamente contra a aquisição do Master pelo BRB, avaliando que a operação poderia provocar perdas financeiras expressivas para o banco público do Distrito Federal. A negociação acabou vetada pela autoridade monetária.
Em 18 de novembro de 2025, o BC decretou a liquidação do Master, na mesma data em que a PF deflagrou a Operação Compliance Zero, responsável pela primeira prisão de Vorcaro.