Artificial’: o filme sobre OpenAI que a Amazon não quis lançar
Fonte: exame.com | Data: 08/10/2026 16:14:19
O Festival de Cinema de Nova York recebeu nesta semana a estreia mundial de Artificial, longa de Luca Guadagnino que reconstitui a crise de novembro de 2023 na OpenAI, quando o conselho da empresa demitiu Sam Altman e o readmitiu cinco dias depois. No papel do CEO, Andrew Garfield vem usando a turnê de divulgação para falar tanto do personagem quanto da tecnologia que ele ajudou a popularizar.
Em entrevista à Variety publicada nesta semana, o ator contou que terminou o trabalho com receio da inteligência artificial. Para ele, quem desenvolve e incentiva o uso da ferramenta parece não conhecer por completo o seu alcance, postura que classificou como pouco responsável.
Um personagem sem contato
Garfield construiu sua versão de Altman sem nunca ter conversado com o executivo. Ele recorreu a entrevistas, discursos e reportagens, e chegou a brincar com a Variety que nem sequer tinha o e-mail do CEO.
A exposição também gerou apreensão. No podcast SmartLess, o ator admitiu estar nervoso com a possível reação ao filme por interpretar alguém que considera uma das pessoas mais poderosas do mundo, e disse torcer para que a história não transforme ninguém em herói ou vilão. Em tom de piada, comentou que Altman provavelmente já tinha hackeado seu celular.
O uso pessoal do ChatGPT acompanhou essa mudança. Garfield afirma que recorria à ferramenta para pesquisas, como uma versão mais sofisticada do Google, e que, por trabalhar como ator, não depende dela como profissionais de outras áreas. Em setembro, no programa de Jimmy Kimmel, contou que deixou de usar o chatbot logo depois de encerrar as gravações.
Da Amazon para a Neon
O projeto nasceu na Amazon MGM Studios, que financiou a produção de cerca de US$ 40 milhões e já havia trabalhado com Guadagnino em Rivais. Em junho, com as filmagens principais concluídas, o estúdio desistiu do lançamento, poucos meses depois de anunciar um investimento de US$ 50 bilhões na OpenAI. Segundo a revista Vulture, o filme havia estourado o orçamento, passado por refilmagens e ganhado um tom mais sombrio do que o previsto no roteiro original.
Netflix, A24 e Focus Features avaliaram a compra e recusaram. A Neon, distribuidora que acumula sete Palmas de Ouro consecutivas em Cannes, ficou com os direitos mundiais no fim de junho, sem pagamento antecipado. Garfield disse à Variety que a saída da Amazon o surpreendeu apenas em parte. Depois de Nova York, o longa passa pelo Festival de Londres em 11 de outubro, entra em cartaz em salas selecionadas dos Estados Unidos em 25 de dezembro e amplia o circuito em janeiro de 2027.
Bilionários da tecnologia nas telas
Com roteiro de Simon Rich, ex-redator do Saturday Night Live, o elenco reúne Yura Borisov como Ilya Sutskever, Monica Barbaro como Mira Murati, Cooper Hoffman como Greg Brockman, Ike Barinholtz como Elon Musk e Mark Rylance como Geoffrey Hinton. Garfield volta ao universo do Vale do Silício 16 anos depois de interpretar Eduardo Saverin, cofundador do Facebook, em A Rede Social. A temporada também trouxe Musk, documentário de Alex Gibney sobre o dono da Tesla, exibido no Festival de Veneza.
Altman tem comentado a produção com mais leveza. Ao podcast Decoded, do Politico, disse que não espera precisão histórica, mas espera que o filme seja divertido. À Vanity Fair, contou ter visto o trailer, elogiou a forma como Garfield reproduziu seus trejeitos e relembrou o dia em que, a caminho do café, cruzou com as gravações perto de casa e deu de cara com um ator vestido como ele, usando a mesma mochila.