Um cará tilápia nos olhos
Fonte: mais.opovo.com.br | Data: 08/10/2026 21:00:57
Diligente, expedita, sensível, operosa e amiga, Neném de Mocinha disse que faltaria ao trabalho na próxima semana por motivo, evidentemente, mais que justo. Que deveria passar por cirurgia oftalmológica de relativa urgência. Que traria atestado médico; que, se precisássemos, pagaria alguém para lhe substituir nos trabalhos aqui – dicumê de primeira e arrumação de gabarito da casa.
– De maneira alguma, Neném! Fique tranquila! Se opere. Só volte quando estive 100%!
– 10 dias afastada, tá?
– Vá lá! Primeiro a sua saúde!
Eu, que não sou de bisbilhotar a vida de quem quer que seja, pois confio, inventei de perguntar que cirurgia era essa à qual Neném seria submetida. E tive uma surpresa, entre alegre (ela ficaria boa da vista) e cismado (com o procedimento por mim desconhecido) com a resposta inusitada.
– Vão botar um cará tilápia nos meus ói!
– Botar o quê nos olhos, Neném de Mocinha?
– Um cará tilápia!
– Com espinha e tudo? – fresquei, achando que ela mesma estivesse brincando.
– Seu menino, eu não sei dizer direito o que é; só sei que tem um cará tilápia no meio…
Cheio de curiosidade, pedi-lhe que contatasse seu médico de olhos, e ele mandasse áudio, no zap, falando do procedimento. Enfim entendi, ao ouvir a explicação.
– Dona Francisca Neuza, a senhora fará uma cirurgia de córnea. Para tanto, utilizarei a pele de tilápia para tratar a ferida, cicatrizando e regenerando o tecido mais rapidamente. O tiro de baladeira que a senhora levou ano passado do seu sobrinho foi muito sério…
Mudinho eloquente
Neném de Mocinha no ônibus lotado. E lá aparece um sujeito com papel na mão pedindo ajuda. Um mudinho. Pelo menos era o que todo mundo entendia. Ele ia passando pelo corredor, mostrando o papel, abaixando a cabeça e agradecendo com gestos. Coletivo inteiro comovido. Neném também. Daí abriu a bolsa, pegou dois reais e os entregou ao póbi, que sorriu, meneou a cabeça e seguiu recolhendo a solidariedade dos passageiros.
Pouco depois, finalzinho da Zé Bastos, chegou o ponto de Neném. Descendo no aperreio natural do ônibus lotado, ao colocar o pé na calçada, quase caiu – tirou um fino. Foi quando ouviu, vindo lá de dentro:
– Dona Maria, muito obrigado pelos dois pau!
Francisca virou-se imediatamente e respondeu:
– De nada, colega!
Dando alguns passos, a diligente amiga pensou, olhou para trás… O ônibus já estava longe. E o mudinho também. Neném seguiu pra casa com dois reais a menos e uma dúvida a mais. Até hoje não ela sabe o que foi maior naquele ônibus: a solidariedade dos passageiros ou o milagre da fala.
Mais da Fala Cearense
Encontro Jair Morais nas cercanias da Rodoviária e ele me dita essas pérolas do cearensês que tenho pesquisado para enfeixar na segunda edição de meu livro:
Botar catinga (numa coisa) – Azarar, agourar, fazer prenúncio ruim.
(Tá) só o endereço! – Bem maguim, só o vem-vem.
Se deitar um pouquinho – Deitar-se por alguns breves instantes. E aí, do outro lado, o gaiato responde: “Homem, se deite logo todo!”
De jeito maneira – De modo algum! Negativo!

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