Moraes crava Freire Gomes como pilar antigolpe, mas general já foi suspeito e alvo de bronca do ministro
Data: 10/09/2025 04:02:53
Fonte: www1.folha.uol.com.br
O ministro Alexandre de Moraes exaltou nesta terça-feira (9) o papel legalista dos então comandantes do Exército, Marco Antônio Freire Gomes, e da Aeronáutica, Carlos de Almeida Baptista Junior, dizendo que a atuação dos dois é motivo de orgulho e admiração.
“Dos três, para orgulho das nossas Forças Armadas, que merecem todo o respeito e admiração, dos três, dois comandantes se recusaram a praticar e efetivar o golpe pedido por Jair Messias Bolsonaro”, disse Moraes, que em vários momentos voltou a citar essa postura.
Os elogios ao fim do processo vêm após ambos figurarem como suspeitos por omissão no início e de terem minimizado na investigação a assinatura em uma nota que foi lida em 2022 como um aval para a manutenção dos acampamentos golpistas em frente a quartéis do Exército.
Freire Gomes foi alvo ainda, recentemente, de uma bronca do próprio Moraes quando o ministro avaliou que ele estaria mudando de versão em relação ao que havia dito à polícia.

Jair Bolsonaro com o então comandante do Exército, Antônio Freire Gomes, em solenidade realizada em agosto de 2022
–
Evaristo Sá – 25.ago.22/AFP
De acordo com as investigações da PF, a acusação da PGR (Procuradoria-Geral da República) e o voto de Moraes, Freire Gomes e Baptista Júnior foram essenciais em barrar a ruptura institucional por não anuírem com as chamadas minutas do golpe de Bolsonaro, que estabeleciam medidas de exceção para se manter no poder e impedir a posse de Lula.
A Polícia Federal mudou durante a investigação o tratamento dado aos então comandantes do Exército e da Aeronáutica.
Em novembro de 2023, quando fez a primeira representação sobre o caso ao STF (Supremo Tribunal Federal), a PF citava indícios de que Freire Gomes e Baptista Jr. haviam resistido à pressão para aderir a um golpe de Estado, mas dizia que era preciso apurar uma possível omissão por eles terem tido conhecimento da trama ilegal e nada terem feito.
O papel de Freire Gomes sempre foi tratado com maior peso pelo fato de o Exército ser a Força de maior poderio.
A PF, nesse primeiro relatório, dava importante peso à nota pública assinada pelos comandantes das três Forças em 11 de novembro de 2022. O documento foi visto à época como um recado ao Judiciário e um aval para a manutenção dos acampamentos diante dos quartéis-generais do Exército.
FolhaJus
A newsletter sobre o mundo jurídico exclusiva para assinantes da Folha
Carregando…
“Acerca das manifestações populares que vêm ocorrendo em inúmeros locais do país, a Marinha do Brasil, o Exército Brasileiro e a Força Aérea Brasileira reafirmam seu compromisso irrestrito e inabalável com o povo brasileiro, com a democracia e com a harmonia política e social do Brasil, ratificado pelos valores e pelas tradições das Forças Armadas, sempre presentes e moderadoras nos mais importantes momentos de nossa história”, dizia a nota assinada por Freire Gomes, Baptista Jr. e Almir Garnier comandante da Marinha e hoje réu na trama golpista.
Além de usarem o termo “moderador”, amplamente invocado pelo bolsonarismo como argumento pró-intervenção militar, a nota frisava não ser crime “a manifestação crítica aos poderes constitucionais nem a atividade jornalística ou a reivindicação de direitos e garantias constitucionais, por meio de passeatas, de reuniões, de greves, de aglomerações ou de qualquer outra forma de manifestação política com propósitos sociais”.
A manifestação pública dos três chefes militares, inusual, foi lida à época como um recado ao STF e foi comemorada por bolsonaristas como uma importante chancela aos acampamentos golpistas —de onde sairiam, menos de dois meses depois, as pessoas que depredaram a praça dos Três Poderes.
Já no relatório final da PF não há menção à suspeita de omissão dos dois comandantes, e a nota de 2022 é tratada de forma lateral.
13 atos de execução da trama golpista, segundo Moraes

ic_save
Mais
ic_share
Leia Mais
Ícone fechar
Voltar
Ver novamente
Voltar
Voltar
Compartilhe
Ícone Facebook
Ícone Whatsapp
Ícone X
X
Ícone de messenger
Messenger
Ícone Linkedin
Ícone de envelope
Ícone de linkCadeado representando um link
Copiar link
Ícone fechar
Carregando…
No depoimento de Freire Gomes ao STF, em junho, Moraes deu uma bronca no general por considerar que ele apresentava uma versão diferente das declarações dadas à Polícia Federal.
Na ocasião, o ministro interrompeu o depoimento após o general não ser assertivo ao informar sobre a reação do ex-comandante da Marinha à investida golpista.
“O almirante Garnier tomou a postura dele, acho que também foi surpreendido, e manifestou. Não interpretei como qualquer tipo de conluio”, disse Freire Gomes.
O ministro do Supremo disse que a versão do general em juízo era diferente da versão apresentada à Polícia Federal e que iria dar uma “chance para a testemunha falar a verdade”. “Se mentiu para a polícia, tem que dizer que mentiu para a polícia”, afirmou.
Embora outros elementos de prova além da palavra dos próprios comandantes indiquem que eles foram um grande entrave à trama, o documento final da PF, a denúncia da PGR e o voto de Moraes ignoram indícios em sentido diverso.
Além de assinar a nota de novembro de 2022, foi de Freire Gomes a ordem para o Exército não desmontar os acampamentos em frente aos quartéis quando o general Gustavo Dutra, chefe do Comando Militar do Planalto, preparou operação em 29 de dezembro de 2022. O comandante o chamou de inconsequente e mandou interromper a ação, com receio da reação de Bolsonaro.
Outro episódio foi a participação do chefe do Exército na reunião ministerial de 5 de julho de 2022, ocasião em que Bolsonaro e diversos ministros fizeram manifestações de claro cunho golpista a três meses da eleição.
No fim de 2022, o então comandante do Exército manteve relação ambígua com Bolsonaro. Acompanhou a apuração do segundo turno ao lado do ex-presidente no Palácio da Alvorada e voltou ao local ao menos 13 vezes após a derrota eleitoral —algumas com chefes militares, outras sozinho. Entre outras, em 24 de dezembro, quando entregou um presente e convite a Bolsonaro para a passagem de comando.