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Territorialização e temporalidade do tráfico de drogas em Santarém (PA)

Fonte: revistaft.com | Data: 12/10/2026 12:13:47

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Resumo

O presente estudo tem como objetivo analisar a dinâmica espaço-temporal das ocorrências de tráfico de drogas no município de Santarém (PA), no período de 2020 a 2025, com ênfase na identificação de padrões territoriais e temporais da criminalidade. Trata-se de uma pesquisa de natureza quantitativa, descritiva e documental, baseada em dados oficiais provenientes do Sistema Integrado de Segurança Pública (SISP), disponibilizados pela Secretaria de Inteligência e Análise Criminal (SIAC/SEGUP-PA). As ocorrências foram analisadas a partir de variáveis como ano, zonas urbanas e horário do fato, sendo tratadas por meio de estatística descritiva e visualização de dados. Os resultados evidenciam uma concentração espacial desigual das ocorrências, com destaque para as zonas Norte e Oeste, bem como uma distribuição temporal crescente ao longo do dia, com maior incidência no período noturno. Tais padrões indicam a influência de fatores socioespaciais e das rotinas urbanas na dinâmica do tráfico de drogas. Conclui-se que a criminalidade não se distribui de forma aleatória e recomenda-se a atuação territorializada e o policiamento orientado por dados na prevenção e repressão qualificada.

Palavras-Chave: Tráfico de drogas; Análise espacial; Segurança pública; Criminalidade urbana; Santarém.

Abstract

This study aims to analyze the spatiotemporal dynamics of drug trafficking occurrences in the municipality of Santarém (PA), Brazil, between 2020 and 2025, focusing on identifying spatial and temporal crime patterns. It is a quantitative, descriptive, and documentary research based on official data from the Integrated Public Security System (SISP), provided by the Criminal Intelligence and Analysis Department (SIAC/SEGUP-PA). The data were analyzed considering variables such as year, urban zones, and time of occurrence, using descriptive statistics and data visualization techniques. The results reveal an uneven spatial distribution, with higher concentrations in the North and West zones, as well as a progressive temporal increase throughout the day, peaking at night. These findings indicate the influence of socio-spatial factors and urban routines on drug trafficking dynamics. It is concluded that crime is not distributed randomly, and territorially focused action and data-driven policing are recommended for prevention and qualified repression.

Keywords: Drug trafficking; Spatial analysis; Public security; Urban crime; Santarém.

1 Introdução

A insegurança pública e a criminalidade consolidaram-se, nas últimas décadas, como questões centrais na agenda política e social dos países latino-americanos. Tal cenário é sustentado por evidências empíricas que apontam para níveis elevados de violência letal no Hemisfério Ocidental, posicionando a região entre as mais afetadas globalmente, atrás apenas do continente africano (UNITED NATIONS OFFICE ON DRUGS AND CRIME, 2011).

Neste sentido, a criminalidade urbana, atualmente, constitui um dos principais desafios nos países em desenvolvimento, especialmente em contextos de elevada desigualdade social, como o Brasil. Embora seus efeitos aparentam ser generalizados, uma análise mais rigorosa revela que sua incidência não é homogênea. Ao contrário, ela se concentra em determinados contextos sociais e espaciais, evidenciando a influência de fatores estruturais na sua distribuição (VENTORIM; NETTO, 2023).

Dentre os fenômenos mais relevantes associados à criminalidade no Brasil, destaca-se o tráfico de drogas que tem sido identificado como um dos principais vetores estruturantes das dinâmicas de violência assim como também à intensificação de disputas territoriais e ao fortalecimento de organizações criminosas (COSTA, 2012). A centralidade do tráfico de drogas nas dinâmicas de violência evidencia a necessidade de estratégias estatais mais qualificadas. Essas redes operam com padrões espaciais e temporais definidos, associados ao controle territorial e compreender tais padrões é essencial para intervenções mais eficazes (SILVA, 2025).

Nesse contexto, a utilização de dados criminais e técnicas de análise estatística tem se consolidado como um instrumento fundamental para a segurança pública moderna, permitindo a compreensão detalhada dos padrões de ocorrência delitiva e a transição de um modelo de policiamento reativo para um modelo preventivo e inteligente (SILVEIRA, 2025). Outrossim, cabe ressaltar que a incorporação de ferramentas analíticas em contextos territoriais específicos, nos quais as dinâmicas criminais assumem particularidades associadas às condições geográficas, econômicas e sociais locais, é de suma importância para a compreensão aprofundada dos padrões de ocorrência delitiva e para a identificação de fatores que influenciam a distribuição espacial do crime (RIBEIRO, 2024).

No contexto amazônico, o município de Santarém, localizado no estado do Pará, apresenta características geográficas e socioeconômicas que o tornam um importante pólo urbano na região do Baixo Amazonas. Seu núcleo urbano, estabelecido desde a fundação na margem direita do rio Tapajós, em confluência com o rio Amazonas, conferiu-lhe centralidade logística, econômica e territorial, favorecendo processos de integração regional (TOURINHO, 2011).

Entretanto, essa posição privilegiada também impulsionou um processo de urbanização acelerado e, como resultado desse ritmo de crescimento, observa-se a formação de uma configuração espacial desordenada, caracterizada pela expansão urbana não controlada e pela ocupação de áreas ambientalmente sensíveis, o que intensifica as complexidades socioespaciais no município (OLIVEIRA, 2008).

Ademais, esse crescimento não foi acompanhado por políticas públicas estruturantes, contribuindo para o surgimento e a consolidação de ocupações irregulares e para o agravamento das desigualdades urbanas (OLIVEIRA, 2008). Nesse contexto, tais fragilidades socioespaciais criam condições propícias para a atuação e territorialização de dinâmicas ilícitas, especialmente aquelas vinculadas ao crime organizado. Dentre essas dinâmicas, destaca-se o narcotráfico na Amazônia, que se consolidou, nas últimas décadas, como uma relevante ameaça à soberania nacional, estruturando redes transnacionais que articulam escalas locais e globais (COUTO, 2020).

Essas organizações utilizam centros urbanos como bases operacionais, promovendo o controle de rotas estratégicas (COUTO, 2020), e apesar da relevância de estudos sobre o tema, ainda são escassas pesquisas empíricas que analisam, de forma integrada, as dinâmicas espaciais e temporais do tráfico de drogas em municípios amazônicos de porte médio.

Diante desse cenário, o presente estudo tem como objetivo analisar os padrões espaciais e temporais das ocorrências de tráfico de drogas em Santarém (PA) entre 2020 e 2025, identificando áreas de maior incidência e horários de maior concentração criminal, a fim de subsidiar estratégias de inteligência e planejamento da segurança pública.

Além desta introdução, o presente artigo encontra-se estruturado em quatro seções principais. Inicialmente, apresenta-se o referencial teórico, no qual são discutidos os principais aportes conceituais relacionados à concentração espacial da criminalidade, à criminologia ambiental e às ferramentas de análise criminal aplicadas ao estudo do tráfico de drogas.

Em seguida, descreve-se a metodologia adotada, detalhando o recorte espacial e temporal da pesquisa, as fontes de dados utilizadas e os procedimentos de análise empregados. Na sequência, são apresentados e discutidos os resultados obtidos a partir da análise estatística e espacial das ocorrências registradas no município de Santarém entre os anos de 2020 e 2025. Por fim, a última seção apresenta as considerações finais, nas quais são sintetizadas as principais conclusões do estudo e discutidas suas implicações para o planejamento e a gestão da segurança pública.

2 Fundamentação Teórica

A criminologia configura-se como uma ciência dedicada ao estudo da criminalidade, caracterizando-se por seu caráter empírico, ancorado na observação da realidade, e por sua natureza interdisciplinar. Nesse sentido, articula contribuições oriundas da sociologia, da psicologia, da medicina legal e do próprio direito, tendo como objeto de análise o crime, o criminoso, a vítima e os mecanismos de controle social (MACIEL et al., 2023).

A Escola de Chicago destaca-se na criminologia por analisar o crime sob a perspectiva da ecologia urbana, contribuindo para a formulação de políticas públicas. Nessa abordagem, o fenômeno criminal é compreendido a partir das dinâmicas das comunidades, entendidas como espaços sociais, culturais e institucionais (WEISBURD, 2016). A teoria evidencia que processos de desorganização social, quando concentrados, favorecem a formação de áreas com maior incidência delitiva. Assim, prioriza a análise da distribuição espacial do crime em detrimento de explicações centradas em fatores individuais (CHIOZZOTTO, 2022).

Nesse contexto, a incorporação de ferramentas analíticas mais robustas, como a análise geoespacial, representa um avanço metodológico significativo no campo criminológico, ao possibilitar a leitura da criminalidade sob a perspectiva territorial. Para Wilcox, Land e Hunt (2018) a análise geoespacial é uma importante ferramenta para compreender a dinâmica do crime em ambientes urbanos, em que se baseia na ideia de que a localização dos eventos criminais não é algo aleatório, mas sim influenciado por uma série de fatores geográficos, ambientais e sociais.

A concentração espacial do crime manifesta-se de forma consistente, de modo que determinadas áreas registram desproporcionalmente mais ocorrências do que outras, sendo

denominadas hotspots (OLIVEIRA; BASTOS-FILHO; MENEZES, 2017). Esse padrão é observado em diferentes cidades e níveis de análise espacial, como ruas, quarteirões e setores censitários. Tal regularidade fundamenta a chamada “lei da concentração do crime”, segundo a qual um número reduzido de unidades microgeográficas concentra a maior parte dos delitos em um determinado território (WEISBURD, 2015).

A identificação de áreas com maior incidência criminal possui relevantes implicações para o planejamento da segurança pública ao fornecer subsídios estratégicos para a definição de ações de controle e prevenção da criminalidade (MÁXIMO, 2004). Estudos conduzidos em cidades como Minneapolis e Boston evidenciam a forte concentração espacial da criminalidade, indicando que aproximadamente 50% dos crimes estão concentrados em cerca de 3,5% dos locais urbanos. De forma semelhante, análises em diferentes cidades norte-americanas demonstram que metade da criminalidade de rua ocorre entre 4,2% e 6% das vias públicas, sendo que 25% desses delitos concentram-se em apenas 0,8% a 1,6% dos segmentos de ruas (WEISBURD, 2016).

Diante disso, a literatura evidencia que a integração entre teoria criminológica e análise geoespacial é fundamental para compreender a dinâmica territorial do crime e orientar políticas públicas mais eficazes. Estratégias baseadas em evidências, como o policiamento orientado por hotspots, demonstram impactos positivos na redução da criminalidade em áreas críticas, reforçando a importância do uso de dados e da inteligência analítica na gestão da segurança pública (BRAGA; WEISBURD, 2010; WEISBURD; ECK, 2004).

No que se refere ao mapeamento de dados sobre a criminalidade no Brasil, há consenso na literatura quanto ao expressivo crescimento dos homicídios a partir da década de 1980, mantendo tendência ascendente nas décadas seguintes, conforme evidenciado pelo Mapa da Violência (WAISELFISZ, 2016). Entretanto, essa dinâmica não se distribui de forma homogênea no território nacional, houve redução em parte das capitais do Sudeste, especialmente a partir de meados dos anos 2000, e incremento em cidades das regiões Norte, Nordeste e Sul, evidenciando a influência de fatores regionais, estruturais e socioeconômicos na distribuição desigual da violência (WAISELFISZ; ATHIAS, 2005).

Na região Norte, Belém destaca-se como um caso particular, no qual se observa a melhoria de alguns indicadores sociodemográficos, em contraste com a persistência e, em determinados contextos, intensificação dos homicídios. Tal divergência é explicada, em grande medida, pela forte relação entre a violência letal e o tráfico de drogas na capital paraense, que se territorializa

sobretudo em áreas periféricas, onde encontra condições favoráveis à sua reprodução, tanto como mercado consumidor quanto como espaço de distribuição (CORRÊA; LOBO, 2019). Essas áreas tornam-se, simultaneamente, cenários de conflitos recorrentes entre grupos criminosos, em disputas pelo controle territorial e pela imposição de códigos de dominação. Nesse contexto, a chamada “territorialização perversa do tráfico” contribui para a configuração de uma dinâmica violenta marcada por homicídios relacionados a disputas entre facções, “acertos de contas” e práticas de controle social informal, consolidando a espacialidade da criminalidade violenta nas periferias urbanas (COUTO, 2014; SOUZA, CARLOS; LEMOS, 2003). Sapori (2020) relata que a dimensão sistêmica da relação entre drogas e violência evidencia importantes desafios para a segurança pública, sobretudo no que se refere à atuação estatal em territórios marcados pela presença de mercados ilícitos. A ausência de mediação institucional nesses espaços favorece a resolução de conflitos por meio da violência, exigindo do poder público estratégias que ultrapassem a lógica exclusivamente repressiva. Assim, torna-se fundamental a adoção de políticas integradas, baseadas em inteligência, prevenção e intervenção territorial qualificada, capazes de reduzir a influência das organizações criminosas e restabelecer a presença efetiva do Estado, contribuindo para a diminuição da violência letal e a promoção de maior segurança para a população (BOYUM, 2011).

Diante disso, observa-se que a dinâmica da criminalidade está fortemente relacionada a fatores territoriais e sociais, exigindo análises baseadas em evidências. Nesse sentido, a partir do referencial apresentado, passa-se à análise dos resultados, visando identificar a materialização desses padrões no contexto estudado.

3 Metodologia

O município de Santarém, localizado na Região de Integração do Baixo Amazonas, foi escolhido como lócus desta pesquisa por sua relevância estratégica e demográfica no contexto da segurança pública do estado do Pará. Os dados analisados foram extraídos de registros oficiais da Polícia Civil do Estado do Pará, obtidos por meio do Sistema Integrado de Segurança Pública (SISP) e disponibilizados pela Secretaria de Inteligência e Análise Criminal (SIAC/SEGUP-PA).

A coleta de dados delimitou-se à tipologia delituosa de registros de boletim de ocorrência classificados com tipologia criminal de tráfico de drogas, abrangendo o período de 2020 a 2025, considerando as seguintes variáveis para a composição da mancha criminal: (i) Ano de ocorrência do fato: série histórica compreendida entre 2020 e 2025;

(iii) Localidade (Bairros): identificação geográfica dos registros dentro do perímetro urbano e rural do município de Santarém. Para fins analíticos, as informações extraídas das planilhas foram organizadas e classificadas por zonas, de acordo com a divisão territorial estabelecida no Plano Diretor Municipal de Santarém (Lei nº 20.534/2018), que delimita as zonas urbanas (Norte, Sul, Leste, Oeste e Central) e os distritos da zona rural (SANTARÉM, 2018). A organização dos dados em unidades espaciais, viabilizando a análise da distribuição territorial das ocorrências e a identificação de áreas com maior concentração de registros no município; (iv) Horário do fato: Para fins de análise, as ocorrências foram categorizadas em turnos, a partir da variável “horário do fato”, sendo estabelecidas as seguintes faixas temporais: madrugada (00h00 às 05h59), manhã (06h00 às 11h59), tarde (12h00 às 17h59) e noite (18h00 às 23h59). Essa categorização permite identificar padrões de distribuição temporal das ocorrências ao longo do dia.

Por fim, para a análise das informações coletadas, utilizou-se a técnica estatística de análise descritiva, a qual, segundo Magalhães e Lima (2004), corresponde a um conjunto de métodos utilizados para descrever e agrupar dados, permitindo a organização e a síntese das informações de forma a facilitar a compreensão dos fenômenos criminais estudados.

O processamento dos dados e a elaboração dos recursos gráficos foram realizados no software Microsoft Excel, por meio da utilização de tabelas dinâmicas e ferramentas de visualização de dados.

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

A evolução temporal das ocorrências de tráfico de drogas registrados nas delegacias de Polícia Civil do estado do Pará no período de 2020 a 2025 revela variações significativas ao longo da série histórica. Observa-se que os anos de 2020 (n=245 ocorrências) e 2021 (n=255 ocorrências) apresentam os maiores valores iniciais, indicando um período de elevada incidência (Figura 1).

Em 2022, há uma queda acentuada para cerca de 135 ocorrências, configurando o ponto mais baixo da série. Essa redução pode estar associada a fatores como mudanças nas estratégias de repressão, variações nos padrões criminais ou até limitações nos registros, exigindo cautela interpretativa. Uma possível explicação para a redução observada, ainda que de caráter hipotético, pode estar associada ao processo de retomada das atividades sociais e institucionais no período pós-pandemia.

Nesse contexto, é plausível que tenha ocorrido o redirecionamento dos esforços policiais para áreas consideradas prioritárias, o que pode ter implicado na diminuição da intensidade das

ações voltadas à repressão ao tráfico de drogas em determinados municípios. Esse padrão não se apresenta como um fenômeno isolado, de acordo com Pires (2024), ao analisar os municípios da região metropolitana de Natal, houve redução no número de apreensões no ano de 2022, evidenciando que a diminuição desses registros pode estar associada a dinâmicas operacionais e contextuais mais amplas, e não necessariamente à redução efetiva da atividade criminosa.

Figura 1 – Distribuição anual de ocorrências no município de Santarém (PA), no período de 2020 a 2025.

Fonte: Elaborado pelos autores.

Nesse contexto, é plausível que tenha ocorrido o redirecionamento dos esforços policiais para áreas consideradas prioritárias, o que pode ter implicado na diminuição da intensidade das ações voltadas à repressão ao tráfico de drogas em determinados municípios. Esse padrão não se apresenta como um fenômeno isolado, de acordo com Pires (2024), ao analisar os municípios da região metropolitana de Natal, houve redução no número de apreensões no ano de 2022, evidenciando que a diminuição desses registros pode estar associada a dinâmicas operacionais e contextuais mais amplas, e não necessariamente à redução efetiva da atividade criminosa.

Em 2023, verifica-se uma retomada das ocorrências (n=215 registros), seguida por uma relativa estabilidade nos anos subsequentes, com 2024 (n=200 ocorrências) e 2025 (n=210 ocorrências). Os dados apresentados no Boletim da Segurança Pública Paraense de 2025 (PARÁ, 2025) evidenciam importantes convergências com os resultados deste estudo no que tange à dinâmica do tráfico de drogas no estado do Pará, sobretudo em relação ao comportamento oscilatório das ocorrências ao longo do tempo.

Enquanto o boletim evidência, para o período de 2019 a 2023, uma redução das taxas até 2021 (57,76 por 100 mil habitantes), seguida de retomada do crescimento até 2023 (72,09), o seu resultado apresenta padrão semelhante, com queda acentuada em 2022 e posterior recuperação nos anos seguintes (2023–2025). Essa correspondência sugere que a dinâmica do tráfico de drogas não segue uma tendência linear, mas sim ciclos de retração e reexpansão, possivelmente influenciados por fatores como operações policiais, reconfiguração de redes criminosas e mudanças nos padrões de registro (PARÁ, 2025).

Em relação à distribuição espacial das ocorrências entre as zonas urbanas do município de Santarém (Figura 2), a Zona Norte concentra o maior número de registros (n= 398 ocorrências), seguida pela Zona Oeste (n= 326 ocorrências), evidenciando que essas áreas configuram os principais polos de incidência de tráfico de drogas. Esse padrão pode estar possivelmente associado a maior intensidade das dinâmicas delitivas em zonas com maior densidade populacional e expansão urbana.

Na sequência, as Zonas Leste (n= 187 ocorrências) e Sul (n= 167 ocorrências) apresentam níveis intermediários de incidência, enquanto a Zona Central registra 132 ocorrências, indicando menor concentração relativa quando comparada às demais áreas urbanas. Por outro lado, o Distrito do Eixo Forte (n= 45 ocorrências) e a Zona Rural (n= 3 ocorrências) apresentam baixa frequência de registros.

Figura 2 – Distribuição da frequência absoluta de ocorrências por zonas urbanas, em Santarém (PA), no período de 2020 a 2025.

Fonte: Elaborado pelos autores.

Estudos em bairros como Alvorada, Salvação e Amparo (Zona Oeste) indicam a presença de crescimento urbano desordenado, ausência de políticas públicas e fragilidade socioeconômica, fatores que contribuem para a intensificação de dinâmicas sociais complexas (RABELO et al., 2023). Adicionalmente, pesquisas em áreas como Vista Alegre do Juá apontam para conflitos territoriais e disputas pelo uso do espaço urbano, reforçando o papel do território na produção de desigualdades e na concentração da criminalidade (REGO; CAVALCANTE, 2022). Nesse contexto, a maior incidência de ocorrências observada neste estudo relaciona-se a padrões socioespaciais nos quais áreas periféricas e em expansão tendem a concentrar maiores níveis de vulnerabilidade socioespacial e eventos criminais.

De forma semelhante, o bairro Jutaí (Zona Leste) apresenta características típicas de expansão urbana desordenada e ausência de políticas públicas (SILVA, 2024), condições que fragilizam os mecanismos de controle social informal e favorecem a ocorrência de práticas delitivas, conforme a teoria da desorganização social (SHAW; McKAY, 1942).

A respeito da distribuição das ocorrências de tráfico de drogas por turnos, a figura 3 evidencia uma distribuição crescente das ocorrências ao longo do ciclo diário, com clara concentração nos períodos finais do dia. Observa-se que a madrugada apresenta a menor frequência absoluta de ocorrências (n=135 registros), seguida por um aumento no período da manhã (n=220 ocorrências). Esse crescimento torna-se mais acentuado no turno da tarde, que registra aproximadamente 410 ocorrências, indicando intensificação das dinâmicas delitivas ao longo do dia.

Figura 3 – Distribuição da frequência absoluta de ocorrências por turno (faixa horária) no município de Santarém (PA), no período de 2020 a 2025.

Fonte: Elaborado pelos autores.

O ponto de maior concentração ocorre no período da noite, com aproximadamente 495 ocorrências, configurando-se como o intervalo temporal de maior incidência criminal.

A distribuição temporal das ocorrências de tráfico de drogas observada neste estudo evidencia um padrão crescente ao longo do dia, o que está em consonância com pesquisas recentes que demonstram que o crime apresenta regularidades temporais associadas às rotinas sociais e à organização do tempo urbano (TOWERS et al., 2018). O aumento progressivo das ocorrências, especialmente nos períodos da tarde e da noite, pode ser explicado pela intensificação das atividades sociais e econômicas, que ampliam a convergência entre potenciais infratores e oportunidades delitivas (CURMAN; ANDRESEN; BRANTINGHAM, 2015).

Sob a perspectiva teórica, esse comportamento é consistente com a teoria das atividades rotineiras, segundo a qual o crime ocorre quando há coincidência entre infratores motivados, alvos disponíveis e ausência de controle eficaz em determinados momentos do dia (COHEN; FELSON, 1979). Além disso, estudos contemporâneos indicam que a dimensão temporal do crime está diretamente relacionada ao ritmo cotidiano das cidades, sendo a variação ao longo do dia um elemento central para compreender sua ocorrência (BRANTINGHAM; BRANTINGHAM, 2020).

A maior incidência no período noturno também encontra respaldo empírico, uma vez que pesquisas demonstram que a redução da visibilidade e da vigilância aumenta o risco de ocorrência de crimes, além de influenciar a percepção de segurança (DAVIES; BISHOP, 2022). No caso específico de mercados ilícitos, como o tráfico de drogas, a atuação tende a se concentrar em horários estratégicos, evidenciando a capacidade adaptativa dessas redes frente às condições de controle estatal e social (MISSE, 2011).

Por fim, a menor incidência observada na madrugada pode estar relacionada à redução da circulação de pessoas e à menor interação social, o que limita a formação de oportunidades para o crime, reforçando a importância da análise integrada entre tempo, espaço e comportamento social (WEISBURD, 2015).

5 CONCLUSÃO

Os resultados evidenciaram que o tráfico de drogas em Santarém apresenta padrões espaço temporais bem definidos, caracterizados pela concentração territorial nas zonas Norte e Oeste e pela intensificação das ocorrências no período noturno. Tais achados reforçam a influência de fatores socioespaciais, como expansão urbana desordenada e vulnerabilidades estruturais, bem como das rotinas urbanas na dinâmica da criminalidade.

Além disso, a análise demonstra que a criminalidade não se distribui de forma aleatória, mas segue padrões previsíveis no espaço e no tempo, o que possibilita sua utilização como instrumento estratégico para a segurança pública. Nesse sentido, destaca-se a importância da adoção de políticas baseadas em evidências, com foco na atuação territorializada, no policiamento orientado por dados e na integração entre prevenção e repressão qualificada.

Por fim, o estudo contribui para o avanço das análises empíricas na região amazônica, oferecendo subsídios para a formulação de estratégias mais eficientes no enfrentamento ao tráfico de drogas, embora se reconheçam limitações relacionadas à dependência de dados administrativos e possíveis subnotificações.

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  1. 3º Sargento da Polícia militar do Pará; Graduado em Administração; Especialista em Segurança Pública e Cidadania. E-mail: marcelostm2010@gmail.com. ORCID: 0009-0000-7004-8876. ↑

  2. 3º Sargento da Polícia militar do Pará; Tecnólogo em Serviços Jurídicos e Notariais; Especialista em Segurança Pública e Cidadania. E-mail: hugomedinap2@gmail.com. ORCID:0009-0005-5154-1223. ↑

  3. 3º Sargento da Polícia militar do Pará; Graduado em Administração; Especialista em Direito Penal Militar. E-mail: cramonpm@hotmail.com. ORCID: 0009-0003-61594607. ↑

  4. 3º Sargento da Polícia militar do Pará; Graduado em Ciências Contábeis. E-mail: rodrigues.stm@gmail.com. ORCID: 0009-0008-7696-7927. ↑