Gargalos no Galeão: passageiros se queixam de assédio de ‘jóqueis’, transporte e infraestrutura no aeroporto do Rio
Fonte: oglobo.globo.com | Data: 17/10/2026 04:59:05
A espanhola Aena, que assumiu a gestão do Aeroporto Internacional Tom Jobim, o Galeão, em 6 de outubro, passou a administrar um espaço com desafios que comprometem a experiência dos passageiros que chegam à cidade ou partem dela. Enfrentá-los exige medidas tanto da concessionária quanto do poder público. Entre as questões a resolver estão a atuação dos chamados “jóqueis”, que abordam viajantes no desembarque e oferecem corridas de táxi a preços abusivos; a escassez de opções de transporte público; as dificuldades de acessibilidade; e a sinalização deficiente.
A Aena arrematou a concessão por R$ 2,9 bilhões em outorgas. Ficará à frente do Galeão até 2039 e prevê investir cerca de R$ 1 bilhão nos próximos três anos. Ela precisará acompanhar a expansão do movimento do Tom Jobim, que recebeu 5,2 milhões de passageiros no primeiro trimestre de 2026, segundo a antiga concessionária, RIOGaleão. O aeroporto é o terceiro mais movimentado do país, atrás de Guarulhos e Congonhas, ambos em São Paulo.
Fraldário trancado
Há 18 anos, o técnico em telecomunicações Robinson Santos, de 54 anos, passa pelo Galeão quase toda semana em viagens de trabalho pelo Brasil e, ocasionalmente, para o exterior. Ele reconhece melhora na organização do aeroporto nos últimos cinco anos. Contudo, afirma que ainda há obstáculos para pessoas com mobilidade reduzida:
— Há pontos que ficam muito distantes para quem tem dificuldade de locomoção. E não há meios para facilitar. Dificilmente se vê um carrinho passando. Há esteiras, mas não em todos os locais em que são necessárias. Fico imaginando: como vai ser quando eu for mais velho, se nada for preparado agora?
Em visitas feitas ao aeroporto esta semana, repórteres do GLOBO encontraram banheiros destinados a pessoas com deficiência fora de uso e um fraldário trancado na área de embarque doméstico. Questionado, um funcionário responsável pela limpeza afirmou que o objetivo do bloqueio do espaço era impedir a entrada de desocupados.
— Se a gente deixa aberto, esse pessoal senta na poltrona para mães amamentarem seus bebês e fica no conforto, no ar-condicionado. Mas, se alguém precisa usar, é só pedir a chave na administração — afirmou, sem saber que falava com uma repórter.
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A turista chilena Marcella Bareda, de 23 anos, que visitava o Rio pela primeira vez, avaliou positivamente a estrutura do aeroporto, mas apontou falhas na sinalização externa. Segundo ela, a falta de placas dificultou a localização da entrada correta do terminal:
— O nosso Uber nos deixou bem longe de onde precisávamos, porque não havia placas sinalizando a entrada que deveríamos usar.
A enfermeira Ingrid Rodrigues, de 29 anos, que mora em Bad Tölz, na Alemanha, e visita a família no Brasil pelo menos uma vez por ano, relata dificuldades para estacionar no Galeão. Segundo ela, sensores que indicam a disponibilidade de vagas não funcionam adequadamente:
— Nem todos os sensores das vagas estão funcionando, o que acaba confundindo quem está procurando onde parar.
Já o casal de porto-alegrenses Bruna Melo, de 30 anos, e Bianca Braga, de 32, reclama do assédio de “jóqueis”. Em 10 de outubro, para uma viagem até Copacabana, um homem cobrou R$ 140. À medida que questionavam o valor, o preço diminuía. As duas decidiram, então, seguir para a área destinada a carros de aplicativo. No caminho, porém, foram abordadas por outro homem, que tentou convencê-las a desistir do serviço pela plataforma usando argumentos sobre a segurança da cidade.
— Ele dizia que os taxistas conhecem as ruas, que somos duas mulheres, que estamos mais vulneráveis. Cobrou R$ 100. Acabei cedendo, por pura pressão — relata a engenheira Bruna.
O que o casal enfrentou é uma prática antiga e conhecida. Na manhã da última quarta-feira, a Polícia Civil prendeu, dentro do Galeão, William dos Santos Xavier, conhecido como Júnior Baiano, apontado como “jóquei”. Segundo a Secretaria de Polícia Penal, ele está custodiado no Presídio José Frederico Marques, em Benfica.
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Apesar da prisão, as abordagens continuavam nos desembarques doméstico e internacional, na tarde do dia seguinte e na manhã de ontem. Em geral, os “jóqueis” portam crachás, e alguns usam camisas de cooperativas de táxis. Junto a eles, ficam carregadores uniformizados, que também interpelam passageiros e oferecem câmbio de moeda.
Nem mesmo a presença de PMs dentro do terminal parece inibir a ação do grupo. A Secretaria de Polícia Militar afirmou que, por meio de um convênio com a concessionária firmado em 2022, cerca de 20 policiais atuam diariamente no Tom Jobim. Em nota, destacou que “permanece à disposição dos órgãos competentes para atuar de forma integrada na fiscalização e no enfrentamento a práticas criminosas no local”.
Há quem tome precauções. O comerciante Joaquim Rodriguez, de 62 anos, aguardava a chegada de um sobrinho vindo de Buenos Aires na tarde de anteontem. Decidiu buscá-lo de carro para evitar que passasse por constrangimentos:
— Estou pagando mais de R$ 30 por hora de estacionamento. Não quero que meu sobrinho enfrente esse grupo.
Transporte limitado
Para quem quer deixar o aeroporto de transporte público, as opções são limitadas. Segundo a Secretaria municipal de Transportes, atendem o Galeão quatro linhas convencionais (duas para o Fundão, uma para Bonsucesso e outra para a Candelária) e duas de BRT. O BRT executivo, que custa R$ 15 e funciona das 6h à meia-noite, liga o aeroporto ao Terminal Gentileza, ao lado da Rodoviária do Rio. De lá, uma alternativa para quem vai para a Zona Sul é embarcar no VLT e, depois, no metrô. A outra linha de BRT é a 42 (R$ 5), que opera por 24h e vai até Madureira, sendo necessário trocar de carro no Fundão.
Um vigilante do aeroporto lembrou que o terminal já contou com frescões:
— O frescão que ia para a Zona Sul acabou há tempos, acho que na pandemia.
Para o presidente-executivo do Visit Rio, Luiz Strauss, a chegada da nova concessionária abre uma oportunidade importante para acelerar a recuperação do Galeão:
— O aeroporto, embora já tenha passado por melhorias, ainda tem gargalos que precisam ser enfrentados, como a reabertura e o reaproveitamento de áreas de embarque e desembarque. A ampliação da oferta de voos e a atração de mais passageiros para o Rio são fundamentais nesse processo. Esse movimento exige não apenas novos investimentos e eficiência da concessionária, mas também a atuação coordenada dos órgãos públicos.
A Aena informou que “iniciou um levantamento das condições operacionais, da infraestrutura e dos serviços oferecidos aos passageiros, com o objetivo de elaborar um plano de melhorias de curto prazo”. E disse que sua prioridade é “aprimorar a experiência dos passageiros, com foco em qualidade dos serviços, conforto e eficiência das operações”.
* Estagiária sob a supervisão de Cláudia Meneses