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Os desafios e dilemas jurídicos da inteligência artificial na medicina

Fonte: medicinasa.com.br | Data: 19/10/2026 10:34:12

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Por José Luiz Barbosa Pimenta Jr

Em um país onde mais de 50 milhões de brasileiros já utilizam ferramentas de inteligência artificial generativa, segundo a TIC Domicílios 2025, e metade das grandes empresas adotou essa tecnologia no último ano, de acordo com a TIC Empresas 2025, é natural que a IA avance para diferentes setores da sociedade, incluindo a área da saúde. Esse movimento já pode ser observado nos próprios serviços de saúde. Dados da TIC Saúde 2025 mostram que a tecnologia está presente em 18% dos estabelecimentos brasileiros, sendo utilizada por 11% das instituições públicas e por 21% das privadas.

De fato, a entrada da Inteligência Artificial na medicina transforma a relação tradicional entre médico e paciente em uma interação mediada pela tecnologia. Contudo, é necessário cuidado, já que essa medida amplia tanto os direitos do paciente quanto os deveres do médico. Dessa forma, mesmo tudo acontecendo de forma mais digital, os princípios éticos e jurídicos que já existem continuam válidos, como o dever da informação, a autonomia do paciente, o direito de ser informado, o consentimento para realização de procedimentos e, principalmente, a responsabilidade profissional do médico.

Apenas para se ter uma ideia, um estudo publicado recentemente na JAMA Network Open avaliou 384 altas hospitalares e 1.274 resumos produzidos por IA. Desse total, 25% apresentavam omissões de informações importantes e 20% apresentavam dados imprecisos. Inclusive, um desses resumos foi avaliado como sendo capaz de causar dano moderado ao paciente. Com isso, fica a lição de que mesmo quando a IA funciona bem, ela ainda pode errar, cabendo ao médico revisar o conteúdo antes de utilizá-lo na assistência.

Vale destacar que a Inteligência Artificial deve ser utilizada como ferramenta de apoio, apenas auxiliando em diagnósticos e decisões clínicas, não podendo o médico jamais abdicar de sua avaliação profissional. Tanto é que a decisão final sobre qualquer procedimento permanece sob sua integral responsabilidade, utilizando a tecnologia com prudência e dentro de raio de capacitação, sempre compreendendo como a ferramenta funciona, quais as limitações, os riscos, como interpretar seus resultados e quando desconsiderar a informação trazida pela IA, como por exemplo em casos que potencialmente podem complicar a terapêutica.

Um ponto relevante nesse novo cenário é, sem dúvidas, relacionado ao consentimento do paciente, principalmente nas hipóteses de utilização da Inteligência Artificial durante a assistência, estando sob a responsabilidade do médico obter a devida autorização, após previa e completa informação ao paciente, instrumentalizando em um termo escrito. A lógica é preservar a sua autonomia e permitir que ele saiba quais recursos tecnológicos estão sendo utilizados em seu atendimento. Aqui, há ainda a necessidade de garantir a segurança e a privacidade de seus dados, já que informações médicas passam a circular também em ambientes digitais, o que exige atenção especial aos protocolos de proteção de dados sensíveis, conforme a LGPD.

Recentemente, o Conselho Federal de Medicina, por meio da Resolução de número 2454, passou a regulamentar o uso ético e seguro de ferramentas de Inteligência Artificial na prática médica no Brasil. Dentre suas regras e diretrizes estão justamente os pontos debatidos, como a decisão exclusivamente humana, a transparência da relação médico-paciente, o registro detalhado em prontuário eletrônico, a validação científica e a proteção aos dados. Cabe aos profissionais médicos se inteirar dessas regras e sanarem todas suas dúvidas, para não ter problemas enquanto exercem suas atividades neste novo cenário tecnológico.

Dessa maneira, a Inteligência Artificial pode representar um importante avanço para a prática médica, mas seu uso responsável exige que a tecnologia seja compreendida como uma ferramenta de apoio, e não como substituta da atuação profissional. Quanto maior for sua presença na assistência, maior também será a necessidade de capacitação, supervisão, transparência e respeito à autonomia do paciente. Afinal, por mais sofisticada que seja uma ferramenta, a decisão médica continua envolvendo responsabilidade, ética e, sobretudo, pessoas. Preservar o olhar clínico, a experiência, a escuta, o acolhimento e a humanização do atendimento são fundamentais para que a inovação tecnológica esteja, de fato, a serviço de uma medicina mais segura, eficiente e humana.


*José Luiz Barbosa Pimenta Jr é advogado, doutor em Direito e especialista em Direito Médico.