Aliado de Flávio Bolsonaro investigado pela PF pagou viagens de Cláudio Castro para o exterior
Fonte: oglobo.globo.com | Data: 21/10/2026 17:41:47
A Polícia Federal (PF) descobriu que o advogado Willer Tomaz, amigo pessoal de Flávio Bolsonaro que é investigado junto com ele num inquérito sobre lavagem de dinheiro, custeou viagens do então governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), e familiares para o exterior. Aliado de Flávio e próximo de Willer, Castro abriu as portas de sua gestão para um contrato milionário no setor de loterias e bets para uma empresa ligada ao advogado, a Rio Pag.
As menções a três viagens, ao menos duas delas ao exterior, aparecem nas trocas de mensagens entre Willer e o governador obtidas pelos investigadores, uma delas realizada no mesmo jato em que Flávio Bolsonaro voltou dos Estados Unidos em janeiro de 2025, e que também tinha como cotista Daniel Vorcaro. Nelas, Castro chama o advogado de “irmão”. Os dois conversavam por meio de mais de um telefone, como demonstram os diálogos de WhatsApp.
As informações constam em um relatório da PF ao qual a equipe do blog teve acesso. Como mostrou O GLOBO na última terça-feira, a investigação aponta que Willer Tomaz “mantinha relações próximas com agentes públicos e políticos”, entre eles Castro. De acordo com os registros, o então governador fluminense viajou a Lima, no Peru, e à Flórida, nos Estados Unidos, a bordo de jatos executivos do advogado.
No material reunido pela PF, Willer admite em email de dezembro de 2024 a um banco ser sócio da Rio Pag, que desde 2023 opera os pagamentos e das bets da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj). Até então, ele vinha negando ter qualquer relação societária ou de gestão com a empresa e alegava ser apenas o advogado da companhia.
O contrato, que chegou a ser cancelado pela gestão interina de Ricardo Couto por suspeita de irregularidade, foi firmado na gestão de Cláudio Castro quando a Loterj era presidida por Hazenclever Lopes, advogado que atuou com Willer em tribunais superiores e chegou a trabalhar em seu escritório. De acordo com a PF, Hazenclever também teve passagens e hospedagem custeadas por Willer (veja mais abaixo).
Estados Unidos e Peru
Em uma das comunicações encontradas pela PF, datada de 24 de junho de 2025, Willer responde em inglês a um e-mail enviado pela Netjets, que se intitula a maior companhia de aviação executiva do mundo. Na mensagem, referente a uma viagem aos EUA, uma funcionária chamada Magda pergunta se os filhos de Cláudio Castro viajariam com os dois pais a bordo e solicita o endereço no qual todos ficarão em Orlando – questionamentos de praxe da imigração americana.
Willer, então, responde que tanto Castro quanto Analine estariam no avião e que os passageiros ficariam hospedados em um condomínio em Kissimmee, cidade na região metropolitana de Orlando conhecida por abrigar muitas residências de veraneio e de aluguéis por temporada.
Meses depois, em 11 de novembro, uma funcionária do escritório Aragão & Tomaz, no qual Willer é sócio do ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão, envia à empresa Prime You uma lista de passaportes dos passageiros de um voo para Lima.
Entre eles estão Castro, a então primeira-dama, Analine, os dois filhos do casal, a esposa de Willer e os filhos deles, o senador Weverton Rocha (PDT-MA) e outros passageiros. Castro e familiares estiveram na capital peruana no último final de semana em novembro e assistiram a final da Copa Libertadores da América entre Flamengo e Palmeiras, no qual o rubro-negro, time do governador, conquistou seu quarto título.
Weverton e Willer já foram alvo da PF na Operação Sem Desconto, que apura as fraudes do INSS. O advogado é apontado pelos investigadores como “hub financeiro, patrimonial e logístico” do senador, que acabou derrotado na tentativa de reeleição no Maranhão no último dia 4.
Jato ligado a Vorcaro
Há ainda referência a uma terceira viagem cujo destino não é especificado no relatório da PF. Além de Willer, constam entre os passageiros de um jatinho Cláudio Castro e o senador Hiran Gonçalves (PP-RR), que já admitiu à revista piauí ser amigo do advogado há mais de 15 anos, que também viajou com a mulher.
O jato em questão é o Legacy 650 de matrícula PP-NLR, o mesmo no qual Flávio Bolsonaro viajou dos Estados Unidos para o Brasil em janeiro de 2025.
Questionado sobre as viagens com o ex-governador do Rio, Willer Tomaz afirmou que elas foram “realizadas em caráter privado, entre amigos e familiares, não envolvem qualquer cobrança ou contrapartida”. Em relação ao roteiro do Legacy 650 com a presença de Castro, o advogado declarou que “os detalhes desses deslocamentos particulares não serão comentados” (confira mais detalhes da nota ao final da matéria).
A Prime You, que teve o então dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, como um de seus sócios, era dona de uma das cotas do jato Legacy 650 de matrícula PP-NLR no qual Flávio Bolsonaro viajou dos Estados Unidos para o Brasil em janeiro de 2025. A Alcazar, offshore de Willer sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, é dona de uma das três cotas do Legacy, que tem como proprietário a Fraction 024, outra empresa integrante da teia financeira do advogado.
Na ocasião da viagem de Flávio, Vorcaro já repassava parte do aporte combinado de R$ 134 milhões que supostamente seria direcionado ao filme “Dark Horse”, longa-metragem sobre a trajetória política do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Willer admite ser cotista minoritário da aeronave, mas afirma que ela é “operada exclusivamente pela Prime You, da qual jamais foi sócio”.
Outro lado
Nós questionamos Willer Tomaz se as caronas para Cláudio Castro foram contrapartidas pela nomeação de um aliado, Hazenclever Lopes, para a presidência da Loterj e pela contratação da Rio Pag pelo governo do Rio. O advogado respondeu que é “falsa e irresponsável a insinuação de que essas viagens tenham qualquer relação com nomeações ou contratações na Loterj”.
Willer alega ainda não ter participado “da nomeação de dirigentes nem da contratação da Rio Pag” e que “sequer tinha relação com essa empresa quando da licitação ou contratação, empresa à qual presta exclusivamente serviços advocatícios” – embora tenha admitido ontem à equipe da coluna manter “participação indireta” na empresa por meio de “uma cadeia de sociedades regularmente constituídas, registradas nas Juntas Comerciais e com administração própria”.
Como mostramos no blog nesta quarta-feira, a Polícia Federal encontrou na nuvem do celular do advogado – apreendido no âmbito do inquérito das fraudes do INSS – um e-mail no qual ele admite a uma instituição financeira ser “sócio ou acionista” da Rio Pag e outras empresas ligadas a e ele e familiares. Os investigadores também encontraram evidências de que ele tinha acesso a uma conta da operadora da Loterj no BTG Pactual.
Cláudio Castro, por sua vez, negou “qualquer contrapartida ou favorecimento” em relação às viagens com Willer Tomaz e alegou que os dois são amigos “desde 2020”. Nesse contexto, segundo o ex-governador, “fizeram algumas viagens juntos” e, nos destinos, “cada um arcava com suas próprias despesas e as de seus familiares”.
Castro também atribuiu a nomeação de Hazenclever na Loterj a “uma indicação política do PL” e disse que “não participou da licitação” e nem da contratação da Rio Pag ou “de qualquer tratativa envolvendo Willer e a empresa” (leia a íntegra ao final da reportagem).
A relação entre Castro e Willer se estendeu até ao menos a reta final de seu segundo mandato. Em uma conversa com um interlocutor identificado como Cleiton, em 5 de agosto de 2025, o advogado o avisa que viajará a São Paulo acompanhado do então governador por ocasião da Latin American Business Aviation Conference (Labace).
Castro renunciou ao cargo em março de 2026 na tentativa de escapar da inelegibilidade em julgamento por abuso de poder político e econômico no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A manobra não foi exitosa, e Castro acabou renunciando à sua pré-candidatura ao Senado Federal após ser alvo de duas operações da Polícia Federal – uma relativa às fraudes do Grupo Refit e a outra ao caso do Banco Master.
Passagens pagas para o presidente da Loterj
Como mostrou O GLOBO nesta quarta-feira, o relatório da PF também traz uma planilha extraída do celular de Willer Tomaz que indica o pagamento de despesas para o então presidente da Loterj, Hazenclever Lopes, nomeado por Cláudio Castro em 2022 para comandar a autarquia.
São, ao todo, R$ 8,5 mil referentes a passagens entre o Rio e Brasília, onde Hazenclever tem residência fixa, além de uma hospedagem no Hotel Windsor, na Zona Sul do Rio.
Hazenclever tentou uma vaga na Câmara dos Deputados pelo PL neste ano e acabou derrotado com apenas 992 votos. Nos bastidores da Loterj, tanto a nomeação do aliado de Willer para chefiar a Loterj quanto sua candidatura pelo Rio foram recebidas com estranheza, considerando sua origem pessoal e profissional no Distrito Federal.
Ex-chefe de gabinete do senador Magno Malta (PL-ES), ele é próximo de Willer, com quem já advogou em ações no Superior Tribunal de Justiça (STJ). A PF encontrou evidências de que ele atuou na banca de Willer, incluindo um diretório de e-mail “hazenclever@willertomaz.adv.br”.
Ao GLOBO, Willer atribuiu os pagamentos a serviços advocatícios prestados e declarou manter uma parceria profissional com o aliado. O ex-dirigente da Loterj não se manifestou.
Foi sob a gestão de Hazenclever que a Loterj firmou o contrato com a Rio Pag após uma licitação rodeada de controvérsias. Na ocasião, houve apenas duas participantes, e a empresa só foi escolhida porque a primeira colocada, a Ideia Parks, foi desclassificada.
O argumento da comissão responsável pelo certame é que, apesar de ter oferecido a melhor proposta de repasse para a Loterj (de 26% contra 20% da Rio Pag), a Ideia descumpriu o edital ao informar o percentual com apenas duas casas decimais (26,00%), e não três como previam as regras do certame – embora se trate do mesmo valor.
Após a desclassificação da rival, a Rio Pag, a época denominada Pixs Cobranças e Serviços em Tecnologia, acertou uma taxa de 26,455% contemplada posteriormente no contrato atualmente vigente.
Para a PF, o pagamento de despesas de Hazenclever por Willer e a proximidade entre os dois advogados, além da relação de ambos com o ex-governador Cláudio Castro, levanta a suspeita de favorecimento da Rio Pag na concorrência de 2023.
“Após o afastamento da IDEA MAKER, cuja proposta de 26,00% era superior à oferta inicial de 20,000% da PIXS, a PIXS permaneceu como única concorrente e negociou diretamente com a LOTERJ, elevando sua proposta para 26,455%. Esse resultado, somado à proximidade pessoal, profissional e econômica entre WILLER e HAZENCLEVER e à proximidade de WILLER com CLÁUDIO CASTRO, justifica o aprofundamento da hipótese de eventual facilitação dos interesses da PIXS na condução do certame”, diz trecho do relatório da PF.
Há ainda outros indícios da proximidade entre Hazenclever e Willer Tomaz.
Em 2021, antes da CPI da Covid ser instalada por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) e dele assumir o comando da Loterj, o advogado entrou com uma ação popular na Justiça Federal com o objetivo de impedir que o senador Renan Calheiros (MDB-AL), já cotado para assumir a relatoria do colegiado, e o colega Jader Barbalho (MDB-PA) fossem indicados para a comissão.
Renan posteriormente seria responsável pelo requerimento apresentado na CPI para quebrar o sigilo fiscal de Willer. O pedido, no entanto, acabou não indo adiante no colegiado, mas forçou Flávio Bolsonaro a admitir sua amizade com o advogado ao acusar o relator de cometer a chamada chamada fishing expedition, ou pesca probatória, contra aliados dele.
Flávio e Willer na mira da PF
O inquérito, relatado pelo ministro do STF Alexandre de Moraes, investiga suposto esquema de lavagem de dinheiro com origem em outra apuração da PF, esta no Rio Grande do Sul, sobre lavagem de dinheiro e evasão de divisas através de plataformas de bets. Os investigadores suspeitavam que Willer controlava a Rede Loto, uma operadora de bets autorizada pela Loterj desde 2023, mesmo período em que a Rio Pag venceu a licitação hoje sob suspeita da PF.
Diante da quebra de sigilo de Willer, os investigadores encontraram indícios de sua relação financeira com Flávio Bolsonaro. Como o presidenciável é também senador pelo Rio de Janeiro, o caso foi enviado ao Supremo por prerrogativa do foro privilegiado.
Confira abaixo a nota de Willer Tomaz:
Willer Tomaz esclarece que é cotista minoritário da aeronave Legacy 650, operada exclusivamente pela Prime You, da qual jamais foi sócio. As viagens realizadas em caráter privado, entre amigos e familiares, não envolvem qualquer cobrança ou contrapartida. Os detalhes desses deslocamentos particulares não serão comentados.
É falsa e irresponsável a insinuação de que essas viagens tenham qualquer relação com nomeações ou contratações na Loterj. Willer Tomaz não participou da nomeação de dirigentes nem da contratação da Rio Pag, sequer tinha relação com essa empresa quando da licitação ou contratação, empresa à qual presta exclusivamente serviços advocatícios.
Causa estranheza que a coluna insista em criar suspeitas a partir de relações pessoais, sem apresentar uma única prova de irregularidade.
Veja a íntegra do comunicado do ex-governador do Cláudio Castro:
O ex-governador Cláudio Castro esclarece que conhece Willer Tomaz desde 2020 e mantém com ele uma relação de amizade. O advogado também atuou, de forma pro bono, em alguns processos de sua defesa, sem cobrança de honorários, em razão dessa relação pessoal.
Os dois fizeram algumas viagens juntos e, em determinadas ocasiões, Castro realizou o deslocamento na companhia de Willer. Nos destinos, cada um arcava com suas próprias despesas e as de seus familiares.
Castro afirma que não tinha conhecimento de qualquer vínculo de Willer com a PIXS/Riopag à época da contratação pela Loterj, nem da relação profissional ou pessoal entre o advogado e Hazenclever Lopes.
Hazenclever foi uma indicação política do PL para a presidência da Loterj. A autarquia possui gestão própria, e Castro não participou da licitação, da contratação da PIXS/Riopag nem de qualquer tratativa envolvendo Willer e a empresa.
Não houve qualquer contrapartida ou favorecimento relacionado aos deslocamentos mencionados, à indicação de Hazenclever ou à contratação da Riopag.