Newsletter (Tela Viva)
Fonte: telaviva.com.br | Data: 21/10/2026 17:11:55
O sexto Encontro de Ideias Audiovisuais, evento de mercado da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, teve início nesta quarta-feira, dia 21 de outubro, com a mesa “Do Brasil ao Oscar: os caminhos da internacionalização”, apresentada pela Apex, Cinema do Brasil e Mais Mulheres. A conversa passou pela complexidade desse caminho e as articulações e conversas necessárias para fazer a produção nacional alcançar circulação e relevância internacional.
Maria Paula Velloso, diretora de negócios da Apex Brasil, destacou o crescimento inegável do cinema brasileiro nos últimos anos. “Nossa cultura, histórias, brasilidade e criatividade estão muito marcadas em todas as nossas produções. O papel da Apex é aproveitar esse contexto para gerar negócios mundo afora, isto é, transformar essa visibilidade internacional em negócios, como distribuição, coprodução, investimentos e uma presença constante do Brasil no mercado global”, explicou.
A Apex faz isso por meio de uma parceria de longo prazo com o Cinema do Brasil. Hoje, são mais de 150 produtoras apoiadas, de diferentes regiões do país. Juntas, as parceiras participam de grandes mercados mundo afora e também trazem para o Brasil executivos relevantes como compradores e distribuidores. Um dos eventos desse calendário é o Festival de Cannes onde, além das exibições de filmes, ocorrem oportunidades de encontros em cafés e demais atividades. “É uma construção ao longo prazo, por isso a continuidade desse trabalho é tão importante. Acabamos de assinar a renovação até 2028”, celebrou Maria Paula, citando que todos os seis filmes finalistas para representarem o Brasil com uma possível indicação ao Oscar 2027 eram de produtoras associadas ao Cinema do Brasil.
O cineasta, produtor e gestor cultural André Sturm é o presidente do Cinema do Brasil. No debate, ele reforçou a mudança de patamar que o cinema brasileiro atravessou nos últimos anos. “No começo dos anos 2000, era raríssimo um filme brasileiro ser selecionado para um festival internacional, assim como eram raras as coproduções internacionais. Hoje, quando olhamos a programação dos festivais, ninguém se surpreende ao ver um filme brasileiro lá. A questão é só saber qual ou quais filmes serão os selecionados dessa vez. Pouca gente se dá conta disso, mas poucos países do mundo têm uma presença tão assídua na seleção dos festivais internacionais. Isso porque a gente fala português e mora longe”, observou.
Para Sturm, o país chegou nesse lugar pela qualidade do seu cinema, claro, mas também pela persistência e continuidade desse trabalho – coisas que ele considera essenciais nessa atividade. “Foi justamente isso que trouxemos com o Cinema do Brasil. A Apex foi nossa parceira antes do MinC e da Ancine porque ela entendeu a importância estratégica da internacionalização do nosso cinema e do mercado lá fora ver que o Brasil contava com uma estrutura nesse sentido. Não é uma crítica, e sim uma valorização da percepção que a Apex teve nisso”, pontuou. “Hoje, o Cinema do Brasil oferece um porto seguro para os projetos. É um lugar onde as produtoras terão aliados, parceiros e encontrarão um norte. É muito importante que o cinema brasileiro seja uma presença permanente lá fora, para que o nosso país seja mais conhecido e para que as nossas questões e causas tenham cada vez mais apoio”.
Uma das grandes iniciativas dessa parceria entre Cinema do Brasil e Apex é o Brasil Boutique, na qual os produtores associados podem inscrever tanto filmes ainda não finalizados quanto projetos de filmes (desde que já tenham parte do valor captado) para participar. O evento convida agentes de venda internacionais que têm presença efetiva no mercado para vir ao Brasil, assistir aos filmes selecionados e ouvir os pitchings dos projetos escolhidos. “É uma oportunidade dos produtores e profissionais internacionais estarem juntos com foco total. O objetivo é fechar negócio, claro, mas também funciona como um momento de feedback, já que os filmes ainda não estão finalizados e há tempo hábil para fazer alterações. Eles podem não fechar o contrato ali, mas conhecem as pessoas. É um trabalho de médio prazo, uma oportunidade valiosa”, disse Sturm.
O case de “Feito Pipa”
“Feito Pipa”, de Allan Deberton, uma coprodução entre a Deberton Filmes e a Biônica Filmes, escolhido para representar o Brasil na corrida por uma possível indicação ao Oscar 2027, é um dos títulos que participaram da iniciativa no último ano. Segundo Karen Castanho, produtora e sócia fundadora da Biônica, o Brasil Boutique foi fundamental para a trajetória internacional do longa. “O mercado de cinema está desafiador no mundo inteiro. Hoje, é comum que os agentes de vendas vejam o filme, gostem, mas prefiram esperar para ver se ele vai entrar em algum festival importante para fechar negócio. A questão é que nós normalmente queremos o agente justamente para nos ajudar a entrar nos festivais. O Brasil Boutique é diferente nesse sentido porque traz os agentes de venda para cá e eles assistem aos filmes brasileiros aqui no Brasil. É diferente deles verem nos escritórios deles, às vezes pelo computador. É um momento de atenção exclusiva aos projetos brasileiros selecionados, e que muda a percepção deles. O mesmo vale para os projetos em desenvolvimento, que buscam parcerias. O evento foi fundamental para nós – foi a partir dali que o filme começou a entrar nas discussões dos agentes de venda europeus. Vários países têm iniciativas parecidas e sabem da importância que isso tem”, enfatizou.
A produtora aproveitou para salientar que é essencial saber exatamente qual é o perfil do seu projeto. “Nem todo projeto tem potencial de ser uma coprodução internacional ou um filme para exportação. Estamos vendo agora o sucesso de ‘Minha Melhor Amiga’, por exemplo, que é um filme feito para o mercado local. Precisamos saber se faz sentido apresentar o projeto lá fora ou não. Isso também faz com que você tenha credibilidade, isto é, saber o que de fato você está vendendo e para quem”. Sturm concorda e fala na “necessidade da sinceridade”. Ele explica: “Nem todo projeto é para mercado internacional, para Cannes ou para coprodução. Você tem que olhar para o seu projeto e entender se vale a pena apresentar lá fora. Isso é muito importante para você ganhar respeito e confiança – sem isso, você não vai conseguir avançar”.
E sobre o processo de internacionalização dos projetos, Karen ainda destacou: “É um trabalho que deve ser constante. Não adianta ir para um único mercado, num único ano. Exige tempo, conhecer as pessoas. À medida que você frequenta esses mercados, entende melhor com quem quer trabalhar, onde buscar recursos, em quais lugares faz sentido circular o filme. São habilidades que demandam tempo”.
Coprodução Brasil-Brasil
No caso de “Feito Pipa”, trata-se de uma coprodução, mas entre duas empresas brasileiras, de São Paulo (Biônica) e Ceará (Deberton Filmes) “Nosso país é quase um continente, então está valendo”, brincou Karen. “A gente junto é mais forte, e isso é óbvio. A Biônica e a Deberton, inclusive, já tem outro projeto em coprodução em vista”, adiantou.
O diretor de “Feito Pipa”, Allan Deberton, também celebrou a parceria entre as produtoras, afirmando que foi um encontro muito verdadeiro e afetivo desde o início. “O processo do filme foi bem desafiador. Estávamos num momento pós-pandêmico, tentando entender qual seria o seu lugar de financiamento. O orçamento era muito modesto no começo, e ele logo foi se revelando impraticável. Essa parceira de coprodução foi fundamental para conquistarmos anseios artísticos e contarmos com os talentos envolvidos, que fizeram a diferença no filme. Foi minha primeira coprodução e ela foi muito feliz. Aprendi bastante com a experiência da Karen e da Biônica, que agregaram ao projeto em aspectos diferentes”.
Para o futuro, Deberton sugere que se invista mais em coproduções entre produtoras brasileiras. “Isso poderia ser formalmente organizado, a título de financiamento, pela Ancine, como forma de somar forças, trazendo um incentivo para que coproduções nacionais aconteçam mais e mais. O Brasil é muito grande e essas são experiências enriquecedoras”, defendeu.
O processo de “Feito Pipa” foi longo. O filme foi rodado em 2024, financiado por diferentes linhas e caminhos. “Foi uma experiência que trouxe bastante aprendizado a respeito de formatação de diferentes recursos e parcerias – incluindo o estado do Ceará. Percebemos o envolvimento do estado, o desejo de fazer mais e chegar mais longe. Foi muito bom ver isso acontecer”, comentou o diretor.
O longa conta com um elenco infantil, o que acabou sendo um desafio a mais. “Era nosso desejo filmar a obra de forma mais espontânea, deixando as crianças por elas mesmas, sem muito roteiro, para que elas trouxessem suas verdades”, contou.
Em fevereiro deste ano, “Feito Pipa” teve sua estreia mundial no 76º Festival de Berlim (Berlinale), integrando a mostra competitiva Generation Kplus. “Saímos transformados de lá. O filme foi exibido para um público mais novo e percebemos a importância desse olhar formativo, do cinema brasileiro sendo visto desde cedo por plateias muito jovens também. O filme tem assuntos bem brasileiros, temas familiares e questões importantes. Foi muito bom ver nossa brasilidade atravessando continentes”, comemorou Deberton. Nos cinemas brasileiros, “Feito Pipa” estreia em 5 de novembro.
Corrida para o Oscar
Deberton reconhece que uma indicação e um prêmio no Oscar são objetivos difíceis – mas, claro, não impossíveis. “Soubemos dessa chance com muita alegria e começamos a trabalhar muito nisso em pouco tempo. Encontramos novas parcerias e mantivemos antigas para fazer essa campanha acontecer. A cada instante aprendemos coisas novas sobre isso, e estamos felizes”.
Karen acrescentou: “Todos os filmes que passaram por essa trajetória antes abriram espaço para os que vieram depois. E é o que queremos fazer também. Vamos trabalhar incansavelmente pelo ‘Feito Pipa’, mas também para manter o cinema brasileiro nos próximos festivais e premiações. Temos que nos ajudar muito nesse lugar”.