Cartas e fotos revelam o Caio íntimo
Fonte: jornaldocomercio.com | Data: 22/10/2026 00:34:30
Luciano Alabarse, presidente da Fundação Theatro São Pedro e amigo do escritor Caio Fernando Abreu, parou de falar algumas vezes na abertura da exposição Caio Quintessencial para se recompor ao relembrar momentos que só os dois viveram, conta o curador Salus Loch, coordenador da Casa da Memória Unimed Federação/RS. Aberta na quarta-feira (14), no Multipalco Eva Sopher (Rua Riachuelo, 1089), a mostra segue em cartaz até 2 de novembro, diariamente, das 10h às 20h, com entrada franca.
A exposição marca os 30 anos da morte do escritor e se apoia em três elementos: textos do autor que nunca chegaram a livro, publicados em jornais, alguns já extintos; fotografias de Dulce Helfer; e cartas de Caio a Alabarse. A proposta, explica o curador, é apresentar “esse outro Caio, o Caio íntimo”, que vai além do escritor, do jornalista e do dramaturgo. O acervo inclui ainda o mapa astral que o próprio contista fez de si, exposto ao lado de outro, feito por Amanda Costa, doutora em literatura e amiga de Caio.
Guardadas por Alabarse há pelo menos três décadas, muitas das correspondências expostas nunca tinham vindo a público. Ele liberou o material, pedindo cuidado, e o entregou a Daniela Beling e Alice Kuhn, responsáveis pelo primeiro olhar sobre as cartas; ficaram de fora as que tratavam da vida pessoal de pessoas ainda vivas. Entre as cartas expostas está uma de 1994, em que Caio avisava o amigo que não se sentia bem e que faria uma série de exames, entre eles o de HIV, sinal de que já desconfiava do diagnóstico – o escritor morreu em fevereiro de 1996, em consequência da aids. Nos papéis escritos à mão, as angústias que já aparecem em contos e crônicas ganham um tom mais íntimo, o que permite, avalia o curador, entrar “quase que na alma do Caio”.
Junto com as cartas e os textos estão as fotografias de Dulce, que registrou o escritor nos anos 1980 e 1990, inclusive quando já estava doente. A fotógrafa lembra que o olhar sério guardado pelo público aparece nas imagens, já que o autor era “muito mais introspectivo” e a literatura que escreveu traz o peso da vida, das dificuldades, da tristeza e da morte. Diante das lentes da amiga, porém, outro Caio se revelava. “Comigo ele era muito de boa”, conta Dulce.
A imagem em que Caio segura a cuia de chimarrão mostra o que Dulce descreve como “esse lado sorridente dele, que não era comum, que as pessoas não conheciam tão bem”. Entre as preferidas dela está outra cena do cotidiano, com ele sentado no chão, de camiseta branca, lendo folhas entre pilhas de cadernos. Todo esse registro foi feito em analógico, o que transformou a seleção numa busca em meio a milhares de negativos. Parte das fotos já havia sido publicada e outras só apareceram agora, mas a procura continua: “Certamente eu tenho mais fotos do Caio que eu vou achar no futuro.”
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