Metrópoles prepara ataque mentiroso ao Estadão por expor influência de Vorcaro no portal
Fonte: estadao.com.br | Data: 22/10/2026 00:28:04
O portal Metrópoles, de Luiz Estevão, planeja retaliação contra o Estadão após reportagens sobre ligações entre Daniel Vorcaro, do Banco Master, e a CEO Lilian Tahan. Mensagens vazadas mostram tentativas de cooptar o Estadão e silenciar críticas. Vorcaro e Carneiro discutiram estratégias para influenciar o jornal, mas sem sucesso. O Metrópoles, acusado de manipulação editorial, enfrenta denúncias de pagamentos suspeitos e interferência em reportagens, reveladas pelo Estadão e outras mídias.
BRASÍLIA – O portal Metrópoles, de propriedade do ex-senador Luiz Estevão, condenado a 31 anos de prisão por desvio de recursos públicos, articula uma nova ofensiva contra o Estadão em retaliação direta às reportagens que expuseram as relações entre o dono do Banco Master Daniel Vorcaro e a CEO do portal Lilian Tahan. A manobra repete a mesma tática de intimidação adotada pelo site desde a semana passada contra a Folha de S.Paulo e o UOL, que também passaram a ser alvo de assédio pelo mesmo motivo.
Para construir o ataque, o Metrópoles utiliza um recorte de mensagens vazadas entre Vorcaro e o empresário Flávio Carneiro. O portal omite, no entanto, que a íntegra dos diálogos prova justamente o contrário do que tentam insinuar: mostra o desespero do banqueiro para tentar cooptar o jornal, o uso de terceiros como “escudo” e a contrariedade com reportagens do Estadão com revelações sobre os problemas do Master.

O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro; o proprietário do Metrópoles, Luiz Estevão, e a CEO do portal, Lilian Tahan
Em 11 de fevereiro de 2025, 45 dias antes do anúncio do negócio com o Banco de Brasília (BRB), Vorcaro cobrou de Carneiro uma estratégia para se aproximar do Estadão: “Precisamos estrategia estadao e folha… Como trazer eles pro nosso lado”. Em resposta, o empresário sugeriu uma operação para cooptar o Estadão. Acreditando que o empresário Rubens Ometto, presidente do conselho de administração da Cosan, poderia interceder a favor de Vorcaro junto ao jornal, Carneiro vende a Vorcaro um plano de troca de favores. “Estadão podemos apoiar o velho [Ometo] no platô, istoe e Brazil Journal e ele apoia a gente [no Estadão]. Tenho acesso total pra propor esse alinhamento”, afirmou Carneiro. Platô, Isto É e Brazil Journal são veículos que tiveram participação societária de Flávio Carneiro e de fundos controlados indiretamente por Daniel Vorcaro.
Vorcaro concordou e ordenou: “Cria agora entao esse alinhamento. Atraves ceo… Temos que aproximar e blindar la”.

Troca de mensagens entre Daniel Vorcaro e Flavio Carneiro, seu conselheiro, cita Estadão e Folha
Foto: Reprodução
Carneiro e Vorcaro também especulam sobre a emissão de debêntures do Estadão, uma captação de mercado pública no valor de R$ 142,5 milhões junto a bancos e empresas, que já foi noticiada pelo próprio Metrópoles. Nas mensagens descontextualizadas pelo site, Carneiro afirma que o empresário Rubens Ometto “está por trás de tudo” e Vorcaro lamenta ter perdido uma suposta oportunidade de participar da operação.
Procurado, Rubens Ometto lembrou já ter declarado publicamente sua participação no grupo de debenturistas do Estadão — operação de caráter puramente financeiro que não concede influência na gestão ou em decisões editoriais do jornal. Ometto também afirma que sequer conhece Flávio Carneiro.
A evidência de que o Metrópoles prepara um ataque ao Estadão se revela em um pedido de “outro lado” enviado ao jornal pelo e-mail redacao@metropoles.com. Na mensagem, o portal afirma ter obtido “acesso a conversas entre Daniel Vorcaro e o empresário Flávio Carneiro nas quais eles falam da relação do grupo com o Estadão”. O texto de questionamento destaca trechos descontextualizados em que Carneiro alega que Vorcaro estaria “em casa” no jornal e que a dupla “teria crédito” com o veículo. O e-mail também cita a operação de debêntures, atribuindo a Rubens Ometto a articulação do negócio, e destaca a lamentação de Vorcaro por não ter participado da captação financeira. Ao final, o Metrópoles pergunta diretamente se o jornal “gostaria de se manifestar sobre as trocas de mensagem”.
Em respeito aos seus leitores, o Estadão esclarece que jamais manteve qualquer tipo de relacionamento empresarial ou institucional com Flávio Carneiro e Daniel Vorcaro. Ao longo de cinco anos, o Banco Master comprou R$ 1.120.000 em mídia e patrocínio no Estadão, valores condizentes com a prática de mercado e uma fração do que o Metrópoles recebeu do ex-banqueiro.
As afirmações de Carneiro sobre “estar em casa” e “ter créditos” com o Estadão provavelmente são uma tentativa do empresário de demonstrar ao seu sócio, Vorcaro, uma influência que ele não tinha. Sobre a suposta possibilidade de Daniel Vorcaro se juntar ao grupo de debenturistas, o Estadão esclarece que jamais teria sequer considerado a participação do ex-banqueiro, em função de sua má reputação.
Na noite desta quarta-feira, o site Masterwhats, que vem publicando conversas extraídas do celular de Daniel Vorcaro, colocou no ar mais de oito mil mensagens trocadas entre Vorcaro e Carneiro. Os leitores podem acessar a íntegra destas conversas e tirar suas próprias conclusões sobre as citações ao Estadão — e também ao Metrópoles.
Cobertura do Estadão era desfavorável ao Metrópole
Quando as tentativas de aproximação e blindagem com o Estadão falhavam, a orientação do Banco Master era o silenciamento financeiro. Em 5 de fevereiro de 2025, irritado com a cobertura, Vorcaro mandou Carneiro investigar uma repórter do E-Investidor (portal de finanças do Estadão). Ao ser informado sobre o currículo premiado da jornalista, o banqueiro decretou uma tática que já havia utilizado com outros jornalistas, sugerindo que tentasse tirar a repórter do Estadão e a contratasse em outro veículo.
Em 20 de agosto de 2025, quando o Estadão revelou o parecer técnico da CVM detalhando suspeitas de gestão fraudulenta e desvios de R$ 2,1 bilhões envolvendo empresas sem lastro e a irmã do banqueiro, Vorcaro ameaçou processar o jornalista do Estadão e recebeu como resposta da CEO do Metrópoles: “Não tem nada mais chato para o repórter que responder criminal”.

Trecho de diálogo do banqueiro Daniel Vorcaro com críticas a reportagem do Estadão sobre Banco Master
Foto: Reprodução
A incapacidade de controlar a narrativa do jornal gerava forte irritação na cúpula do Banco Master. Em 11 de abril de 2025, a então superintendente de Marketing e Comunicação, Ana Matos, enviou uma mensagem a Vorcaro que resume a frustração da equipe com a independência do veículo. Ela relata ter feito um levantamento com o então economista-chefe do banco Paulo Gala de toda a cobertura do Estadão sobre o banco desde o anúncio do negócio com o BRB e admite a ineficácia das respostas da instituição. “93% relatam fatos distorcidos ou mentirosos ou de errados mesmo. Respondemos a todas. Temos que fazer algo com isso. Respostas técnicas dadas a uma imprensa despreparada e manipulada”, queixou-se a funcionária, evidenciando que o banco não conseguia impor sua versão dos fatos à reportagem.

Funcionária de Vorcaro reclamou com ele sobre a cobertura do Estadão sobre venda do Master ao BRB
Foto: Reprodução
O método do site reforça um padrão recente de intimidação editorial. Assim como ocorreu com a Folha de S.Paulo e com o banco Itaú, o Metrópoles utiliza seu espaço para publicar textos retaliatórios assim que veículos da grande imprensa expõem os pagamentos milionários envolvendo o grupo de comunicação, o Banco Master e as empresas da família de Luiz Estevão. Mensagens apreendidas pela Polícia Federal e publicadas inicialmente pelo site UOL revelam que a CEO do Metrópoles enviava rascunhos de reportagens previamente ao banqueiro, permitindo que ele alterasse textos, inflasse números de balanços e ditasse manchetes.
A interferência do banqueiro no Metrópoles estendeu-se também a uma campanha de descredibilização ordenada contra a alta cúpula do Banco Central. Diálogos mostram que Vorcaro orientou e editou reportagens direcionadas contra o então diretor de Organização do Sistema Financeiro e Resolução do BC, Renato Gomes — visto pelo banqueiro como o principal obstáculo interno para a aprovação da venda do Master ao BRB. Tahan chegou a exibir a Vorcaro que as matérias encomendadas contra o diretor do BC haviam sido veiculadas “em todos os painéis da cidade” de Brasília, além de antecipar ao banqueiro questionamentos sigilosos da redação e pedir suas sugestões de perguntas para entrevistas com o então presidente do BC, Roberto Campos Neto, cujos textos finais também passavam pelo crivo e aprovação prévia do dono do Banco Master.

Diálogos indicam que Vorcaro orientou reportagem do Metrópoles contra diretor do BC e que foi publicada em painéis eletrônicos
Foto: Reprodução
As ofensivas e reportagens de retaliação do Metrópoles seguem um padrão: quando não são assinados da redação, os textos costumam ter como autoria Isadora Teixeira, que escreve na coluna Grande Angular junto com a própria CEO Lilian Tahan, e Gabriela Furquim, colunista de economia do portal, que já foi assessora de imprensa do ex-governador do Distrito Federal Rodrigo Rollemberg. As duas são as autoras da publicação do Metrópoles contra a Folha de S.Paulo. Já o texto de ataque ao diretor do BC, por exemplo, é assinado por Furquim. O espaço está aberto para manifestação das repórteres e da CEO do Metrópoles.
Estadão revelou relação do Metrópoles com Vorcaro
A relação do Metrópoles com Daniel Vorcaro foi revelada por reportagens do Estadão que mostraram negociação direta do senador cassado com o banqueiro para patrocínio de transmissão de futebol e pagamentos suspeitos feitos pelo Master ao portal de notícias.
Em fevereiro, o Estadão mostrou que Luiz Estevão atuou pessoalmente para fechar o patrocínio do Will Bank, do conglomerado Master, para a Série D do Campeonato Brasileiro de 2025. O acordo foi possível porque o senador cassado comprou da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) os direitos de explorar a Série D comercialmente.
O campeonato começou em 19 de abril de 2025. O Metrópoles e a CBF anunciaram, nos dias 2 e 3 de julho, respectivamente, um acordo referente apenas à transmissão dos jogos, feita pelo portal de notícias.
O anúncio da parceria feito pela CBF não mencionou outro aspecto do negócio do Metrópoles com Vorcaro. Luiz Estevão também comercializou os “naming rights” da competição, que passou a se chamar “Brasileirão Série D Will Bank”. O campeonato não despertava interesse do mercado publicitário e nunca tinha sido vendido.
Na época, os valores do contrato não foram revelados. Na semana passada, conversas encontradas pela Polícia Federal entre Vorcaro e a CEO do Metrópoles, Lilian Tahan, indicaram a cifra de R$ 6 milhões e trouxeram detalhes da negociação.
Ao apresentar o negócio ao banqueiro, Tahan disse que a transmissão era “desejo antigo” da CBF e, graças a uma “excelente relação” com a entidade, o Metrópoles acabou “acolhendo a missão”.
As mensagens trocadas por Daniel Vorcaro com uma funcionária do banco indicam que o Metrópoles negociou R$ 51,9 milhões com o Master, entre 2024 e 2025.
Além dos R$ 6 milhões para a transmissão da Série D, os diálogos indicam outros três contratos distintos: um de R$ 20 milhões, outro de R$ 25 milhões e um terceiro de cerca de R$ 900 mil.
As conversas não permitem identificar o objeto dos dois contratos maiores. O menor era relacionado a “patrocínio de educação financeira”, por meio do Will Bank e da Kovr, também do conglomerado de Vorcaro.
As conversas mostram que a então superintendente de Marketing e Comunicação do Master, Ana Lúcia Matos, chegou a se espantar com o valor do contrato de R$ 20 milhões e se ofereceu para negociar uma redução que levaria as cifras do acordo a, no máximo, R$ 15 milhões.
“Nao! Coisa mais importante nossa vida é esse metropoles”, afirmou Vorcaro.
O banqueiro se envolveu pessoalmente nas tratativas com a empresa de Luiz Estevão e cobrou celeridade de sua funcionária Ana Matos.
“Como esta metropoles ana. Temos que acelerar isso. Me da noticia rapido”, disse em sequência de três mensagens.
Em abril, o Estadão revelou que negócios do Metrópoles com o Master foram indicados como suspeitos em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
O órgão de inteligência financeira mapeou R$ 27,7 milhões em pagamentos do banco de Vorcaro ao Metrópoles, entre o segundo semestre de 2024 e outubro de 2025, e apontou que a empresa de Luiz Estevão fez “débito imediato” dos valores para empresas da família dele.
A movimentação, segundo o Coaf, poderia configurar “possível movimentação de recursos em benefício de terceiros”.