Direita domina redes evangélicas e tem 91% do engajamento eleitoral
Fonte: brasil247.com | Data: 22/10/2026 07:34:20
247 – O ecossistema de redes sociais voltado ao eleitorado evangélico permanece amplamente dominado por atores políticos da extrema-direita e da direita. Durante o período das eleições de 2026, as lideranças identificadas com o campo da esquerda conseguiram abocanhar escassos 8,7% do volume total de interações geradas pelas principais figuras do segmento, informa Vinicius Passarelli, do Metrópoles.
Os dados constam de uma investigação conduzida conjuntamente pela Casa Galileia e pelo Instituto Democracia em Xeque. O monitoramento acompanhou os movimentos digitais de 6 de julho a 27 de setembro, identificando quinzenalmente os 30 perfis de políticos de identidade evangélica com maior alcance no país. O esforço analítico desdobrou-se em nove relatórios quinzenais sobre a dinâmica de participação do segmento público nas redes digitais.
O quadro geral aponta para uma assimetria avassaladora: enquanto a direita concentra 91,3% de todo o engajamento registrado, apenas cinco representantes do campo progressista conseguiram se posicionar entre os 30 mais expressivos. São eles André Janones (Rede), Carlos Bezerra Jr. (PSD), Pastor Henrique Vieira (PSOL), Marina Silva (Rede) e Benedita da Silva (PT). Dentre os cinco, apenas Janones obteve tração suficiente para figurar no grupo dos dez primeiros, ocupando o oitavo lugar ao contabilizar 9,9 milhões de interações no período.
A alta concentração de audiência e alcance do segmento fica evidente nos números dos líderes do ranking. O grupo composto pelos cinco primeiros colocados foi responsável por centralizar 60,2% de todas as interações catalogadas. A dianteira ininterrupta pertence ao deputado Nikolas Ferreira (PL), que gerou 57,7 milhões de interações e liderou todas as checagens quinzenais promovidas pela pesquisa, impulsionado sobretudo após o lançamento de seu primeiro vídeo focado no pleito em agosto. Logo em seguida aparecem o senador Flávio Bolsonaro (PL), com 56 milhões de engajamentos, acompanhado por Eduardo Bolsonaro (PL), Pablo Marçal (União) e Deltan Dallagnol (Novo).
Partidariamente, o PL converteu-se na principal força motriz desse fenômeno digital. A legenda obteve um volume de interações 165,9% maior do que a soma das outras nove agremiações presentes no levantamento, atingindo 2,66 vezes a métrica acumulada por todos os demais partidos concorrentes juntos. Além do PL, legendas como União Brasil, Novo, Rede e Missão aparecem em lugar destacado nos relatórios, reforçando a percepção dos pesquisadores de que o engajamento digital evangélico está maciçamente ancorado em legendas alinhadas ao espectro direitista.
A disparidade de gênero se mostrou outra marca acentuada no ecossistema evangélico virtual: as mulheres foram responsáveis por apenas 5,9% das interações apuradas, deixando 94,1% do alcance nas mãos dos homens. Contudo, o impacto eleitoral dessa divisão revelou um forte contraste entre os polos políticos. No espectro da direita, a projeção digital resultou em sucesso absoluto nas urnas, garantindo a eleição de nomes como Michelle Bolsonaro — a figura feminina melhor posicionada no ranking geral, na 14ª colocação —, Clarissa Tércio e Ana Campagnolo. Em contrapartida, no lado progressista, os assentos obtidos foram conquistados exclusivamente por candidaturas masculinas.
O monitoramento constatou que a relevância nas redes sociais guarda relação direta com o desempenho no pleito real: 82,61% dos políticos presentes no levantamento que concorreram nas eleições saíram vitoriosos das urnas. A maior fatia das candidaturas esteve voltada para a Câmara dos Deputados (46%), seguida por pleitos ao Senado Federal (23%), o que aponta para um movimento articulado de ampliação do poder político institucional. Lideranças do topo do ranking sagraram-se as mais votadas em suas respectivas bases estaduais, a exemplo de Nikolas Ferreira (MG), André Fernandes (CE), Lucas Pavanato (SP), Cabo Gilberto Silva (PB), Michelle Bolsonaro (DF) e Ana Campagnolo (SC).
Não obstante a eficácia eleitoral, os analistas sublinham que a dinamização dessas redes não significou a renovação dos quadros partidários, mas sim a “reciclagem” de nomes que já ostentavam capital político acumulado. A única exceção notável de candidatura estreante bem-sucedida foi a de Michelle Bolsonaro ao Senado. Casos como o de Lucas Pavanato exemplificam essa dinâmica: após ter sido expressivamente votado para a Câmara Municipal paulistana, converteu essa bagagem para se tornar o deputado federal mais votado do estado de São Paulo. Por outro lado, a pesquisa pondera que o engajamento virtual expressivo não se traduz automaticamente em vitória, como demonstrado pelos insucessos eleitorais de Hélio Lopes e Rodrigo Valadares, que ficaram fora dos cargos pleiteados mesmo mantendo altos índices de interação.
Do ponto de vista programático e ideológico, o levantamento indica que o motor das mobilizações da direita seguiu pautado pelo antipetismo fundido a uma ostensiva agenda moral. Os tópicos de maior apelo e circulação envolveram embates sobre identidade de gênero, sexualidade, pautas de segurança pública, ataques direcionados ao Poder Judiciário e discursos ostensivos em defesa da liberdade religiosa. A reiteração da narrativa de “proteção às crianças” foi aprofundada ao longo do pleito, alimentando hostilidades contra a população transgênero por meio de pautas como a proibição de crianças na Parada do Orgulho LGBT e restrições ao uso de banheiros femininos por mulheres trans. Completaram a estratégia a reiterada associação entre o presidente Lula (PT) e facções criminosas, agressões verbais a lideranças cristãs progressistas alinhadas ao governo federal e o uso sistemático da tese de perseguição religiosa a cristãos no país.