A hidra nas paredes vazias de Bogotá
Fonte: brasil247.com | Data: 22/10/2026 10:15:57
Quem visitou o Museu Nacional da Colômbia, em Bogotá, na semana passada encontrou paredes vazias onde antes havia 30 peças ligadas à diversidade sexual, ao feminismo e aos processos de paz do país, entre elas o chapéu de Carlos Pizarro, ex-comandante do M-19 que assinou o acordo de paz de 1990 e foi assassinado semanas depois. A ordem de retirada partiu do presidente de ultradireita Abelardo de la Espriella, empossado em agosto, que ao lado da ministra da Cultura, Paula Holguín, chamou o wokismo de um dos grandes cânceres que ameaçam a unidade nacional e disse que o Estado tem o dever moral e político de impedir que os espaços culturais sejam capturados pelo “social-comunismo ateu”. A ministra falou em doutrinação política, mas não explicou os critérios da seleção. Houve protestos, o de sábado terminou em gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral, instituições culturais pediram independência artística, políticos fora da esquerda criticaram a medida e, nesta semana, um juiz de Bogotá determinou que o governo preserve as obras enquanto a ação tramita.
Para a pesquisadora do Sexuality Policy Watch, Sônia Correa, o episódio não é um raio em céu aberto, e sim o capítulo mais recente de um processo longo de reorganização do ultraconservadorismo religioso e da ultradireita secular que remonta aos anos 1960, com polos visíveis na Europa e nos Estados Unidos e ramificações decisivas na América Latina, sobretudo pela via do catolicismo extremista.
Esse processo tem datas e endereços. Foi na esteira do Concílio Vaticano II, entre 1962 e 1965, que setores católicos contrários à abertura da Igreja à modernidade passaram a se organizar em redes transnacionais, e a TFP, fundada em São Paulo em 1960, tornou-se o braço mais visível dessa reação na América Latina, com ramificações na Colômbia, no Chile e na Argentina; em 1964, as Marchas da Família com Deus pela Liberdade, que prepararam o terreno para o golpe no Brasil, tiveram nas mulheres de classe média uma de suas forças motrizes. No mesmo decênio, a direita americana se reorganizava em torno de Goldwater e na França a Nova Direita nascia, em 1968, com a aposta de que a cultura seria o campo decisivo da disputa, de modo que o que hoje se vê nos museus, nas escolas e nos órgãos de direitos humanos é a colheita tardia de uma estratégia plantada há mais de meio século.
Nesse arco, o gênero seria o fio condutor, e a Colômbia tem papel simbólico: foi o ataque ao capítulo de gênero no Acordo de Paz de 2016 que Sônia Correa aponta como primeiro sintoma de uma mobilização que tem o “fantasma do gênero” no centro, a mesma que se vê nos Estados Unidos desde a volta de Trump, em 2025, e no Brasil, onde a política antigênero nasce em 2013, atacando a educação, e desde 2023 se converte numa ofensiva explicitamente antitrans. Uma hidra com muitas cabeças, mas que caminha numa direção, que é um projeto de mundo.
Há ainda um dado que Correa considera subestimado, que é a presença massiva de mulheres nessa base. Ela nos lembra que Steve Bannon se gabou, antes da eleição de Trump em 2024, de que 60% da base MAGA seria feminina, mas observa que isso não é novidade, já que o fascismo histórico e o integralismo brasileiro também tinham extensa base de mulheres, como mostra qualquer pesquisa de iconografia da época. Seria uma reação ou um sintoma a emergência de mulheres antifeministas nessa altura? A novidade é que elas ocupam posições de liderança, com Giorgia Meloni na Itália e Marine Le Pen com chances reais em 2027, e, avalia, em breve também na América Latina. O movimento regional que o próprio noticiário registra, de Milei mexendo em órgãos de direitos humanos a Keiko Fujimori anunciando cortes de conteúdo “ideológico” no material escolar peruano, entra nessa mesma chave.
A recomendação de Sônia Correa é olhar de perto os países onde a ultradireita já governa, a começar pelo Brasil de 2019 a 2022, experiência que “está gravada na memória e nos corpos” e pode voltar mais intensa, e resistir ao presentismo que a plataformização impôs, para o qual três dias atrás já parece muito tempo. A eleição brasileira, insiste, não é comum, porque pode determinar o futuro da democracia. Para ler quem atravessou experiências parecidas, cita Hannah Arendt e eu insisto na história autobiográfica de Gisèle Pelicot. Rejeitamos ser vítimas indefesas! Sônia finaliza me contando que acordou na manhã de 5 de outubro de 2026, como todo mundo, de ressaca, foi à academia, ouviu uma música, o blues de Janis Joplin no festival de Monterey, em 1967, e voltou para casa com a frase que quer deixar: we are here to keep the fire burning!
Estamos aqui para manter a chama acesa!
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