Mexilhão-dourado: molusco invasor avança pela Amazônia mais rápido do que previam estudos e gera prejuízos ao setor elétrico; entenda
Fonte: oglobo.globo.com | Data: 23/10/2026 04:12:57
Espécie invasora chegou ao Norte do Brasil antes do esperado por cientistas e pode causar obstruções em estruturas submersas; controle custa US$ 9,97 milhões por ano ao setor elétrico
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O mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei), espécie invasora que ameaça ecossistemas aquáticos e estruturas utilizadas em atividades econômicas, já se espalhou pela Amazônia brasileira mais rapidamente do que previam modelos científicos anteriores. Um estudo publicado na revista Actapesca identificou o molusco em municípios banhados pelo rio Tocantins, além de registros no rio Pará e na ilha de Marajó, no Pará. A expansão da espécie também foi identificada no rio São Francisco.
Um estudo da Universidade de Montes Claros (Unimontes) publicado em outubro de 2026 na revista científica CheckList registrou 113 exemplares do mexilhão-dourado em São Francisco e São Romão, no Norte de Minas Gerais. A descoberta representa o primeiro registro da espécie no Alto Médio São Francisco e fica a cerca de mil quilômetros do ponto de ocorrência anterior mais próximo na bacia, na região da barragem de Sobradinho, entre Bahia e Pernambuco. O levantamento foi realizado entre julho de 2024 e abril de 2025, com coletas em 16 estações distribuídas por quatro municípios mineiros.
O primeiro registro da espécie na Amazônia ocorreu em outubro de 2023, no rio Tocantins. Em cerca de dois anos, o molusco alcançou uma distribuição geográfica maior do que a esperada: previsões anteriores indicavam que a invasão na região não deveria começar antes da década de 2030 e se consolidar apenas na década de 2050.
A expansão preocupa também pelos prejuízos econômicos que a espécie pode provocar. Segundo reportagem da CNN Brasil, o mexilhão-dourado causa obstruções em estruturas submersas e gera gastos anuais de US$ 9,97 milhões ao setor elétrico brasileiro com prevenção e controle.
Como o mexilhão-dourado chegou ao Brasil
Originário da Ásia, o molusco chegou à América do Sul em 1991, no estuário do rio da Prata, na Argentina. De acordo com a CNN Brasil, sua entrada no Brasil ocorreu no fim da década de 1990, associada à circulação de embarcações pela hidrovia Paraná-Paraguai.
A disseminação é favorecida pela produção de larvas que se deslocam pela água antes de se fixarem em superfícies e por estruturas chamadas bissos, que permitem ao animal aderir a materiais rígidos. A reportagem também aponta a água de lastro de navios cargueiros, o tráfego de embarcações e a expansão das hidrovias como fatores relacionados à dispersão.
Os pesquisadores consideram que o transporte involuntário em pequenas embarcações pode explicar a chegada do molusco a trechos distantes do São Francisco. Segundo o professor Maurício Lopes de Faria, da Unimontes, pequenas embarcações podem transportar o molusco entre áreas distantes e superar barreiras como a barragem de Sobradinho. A hipótese, porém, ainda não foi comprovada.
O estudo da Actapesca identificou o molusco em todos os municípios banhados pelo rio Tocantins considerados no levantamento, além de confirmar registros no rio Pará e na ilha de Marajó, incluindo os municípios de Curralinho e Muaná. Os pesquisadores examinaram 62 pontos estratégicos durante quatro expedições realizadas entre 5 e 29 de dezembro de 2025.
As colônias foram encontradas em superfícies naturais, como rochas, raízes e troncos, e em estruturas artificiais, como concreto, redes de pesca, cabos e eletrodomésticos descartados nos rios.
Prejuízos
Em usinas hidrelétricas, o mexilhão-dourado pode obstruir tubulações, entupir sistemas de filtragem e comprometer mecanismos de resfriamento. Segundo a CNN Brasil, a espécie também representa riscos para sistemas de abastecimento de água, aquicultura, pesca, navegação e biodiversidade aquática.
Além disso, o mexilhão-dourado pode afetar a biodiversidade nativa e causar problemas em estruturas utilizadas pelas pessoas. Sua capacidade de formar colônias densas permite que se fixe tanto em habitats naturais quanto em equipamentos e instalações submersas.
Durante o levantamento na Amazônia, os pesquisadores observaram o gastrópode Vitta zebra vivendo e procurando alimento nas colônias do invasor. Também encontraram, em menor quantidade nas proximidades dos aglomerados, outros moluscos bivalves dos gêneros Corbicula e a espécie Prisodon corrugatus.
A erradicação completa é considerada improvável com os métodos disponíveis atualmente, de acordo com a CNN. Entre as técnicas de controle citadas estão raspagem, filtração, ultrassom, radiação ultravioleta e uso de compostos químicos. A publicação não compara a eficácia nem os custos dessas alternativas.
Para prevenir a disseminação, estudiosos falam na desinfecção de embarcações e equipamentos de pesca antes de sua utilização em outros corpos d’água, além da exigência de laudos sanitários que atestem a ausência de larvas em cargas de peixes jovens utilizadas na piscicultura.
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