Zona Zero’, de Yeon Sang-ho, é filme atual, mas deixa a desejar
Fonte: www1.folha.uol.com.br | Data: 24/10/2026 04:15:12
Em 2016, o sul-coreano Yeon Sang-ho reinventou o cinema de terror insepulto com “Invasão Zumbi”, no qual passageiros de um trem precisavam escapar dos mortos-vivos. O filme combinava ação vertiginosa, horror e crítica à indiferença social. Ganhou status de clássico.
Dez anos depois, em “Zona Zero“, o diretor retorna ao gênero com uma novidade: os infectados aprendem a se comunicar e agir como uma inteligência coletiva. A ideia é promissora, mas sua realização, nem tanto.
A trama começa em um congresso de biotecnologia em Seul. Um vírus transforma pessoas em criaturas violentas, capazes de sofrer mutações perturbadoras. O edifício é isolado, e os sobreviventes ficam presos entre escritórios, corredores e escadarias. A cientista Kwon Se-jeong, interpretada por Jun Ji-hyun, tenta escapar enquanto procura compreender a ameaça.
O prédio se transforma em um labirinto ameaçador. Se em “Invasão Zumbi” os vagões delimitavam o espaço da ação e faziam de cada porta uma fronteira entre a vida e a morte, em “Zona Zero” a arquitetura oferece outras possibilidades de suspense. Elevadores, escadas e pavimentos sobrepostos criam uma geografia de rotas incertas, na qual a ameaça pode surgir de qualquer direção.
Os infectados não se comportam como figurantes de uma multidão indistinta. Movem-se de maneira convulsiva, contorcendo os corpos e transformando a violência em uma espécie de dança macabra. O resultado é repulsivo e, ao mesmo tempo, visualmente fascinante.
A inventividade dos movimentos e das composições confirma o talento de Yeon Sang-ho para extrair novas imagens de um gênero que há muito explora as mesmas convenções. Ele tem habilidade para coreografar o caos.
A novidade mais interessante está na mente coletiva dos monstros, inspirada nos mecanismos de comunicação de colônias de formigas. Eles compartilham informações, aprendem com os erros e coordenam ataques. A ameaça deixa de ser apenas física: o inimigo passa a antecipar os movimentos dos humanos.
A premissa permite uma leitura contemporânea óbvia. Em uma sociedade dependente de redes e algoritmos, a inteligência coletiva pode representar tanto uma conquista quanto um perigo. Yeon Sang-ho também critica o universo corporativo e a ambição científica que, submetida à busca por poder, pode produzir consequências devastadoras.
O problema é que as ideias nem sempre ganham profundidade dramática. A explicação científica ocupa espaço considerável, enquanto os personagens permanecem, em boa parte, esboços funcionais para o desenvolvimento da ação.
A comparação com “Invasão Zumbi” é inevitável. Naquele filme, o apocalipse também era um teste moral. Na trama, Seok-woo, o pai ausente, começava preocupado consigo mesmo, mas a convivência com a filha e os demais passageiros o obrigava a rever suas prioridades.
A oposição entre egoísmo e solidariedade estava incorporada às escolhas dos personagens, tornando a sobrevivência emocionalmente relevante.
Em “Zona Zero”, a ironia é outra: os infectados conseguem cooperar, enquanto os humanos precisam superar suas divergências.
A ideia é poderosa, mas falta desenvolver esse conflito com a mesma clareza do filme anterior. A sucessão de explicações e reviravoltas dispersa a atenção, e a crítica social nem sempre se traduz em relações humanas convincentes. Quando as perdas acontecem, não produzem o impacto emocional que o filme parece desejar.
Ainda assim, a história funciona como entretenimento. As criaturas têm presença física ameaçadora, as sequências de ataque são inventivas e a direção mantém o ritmo. “Zona Zero” confirma a competência de Yeon Sang-ho, mas evidencia os limites de sua fórmula. Ao imaginar monstros capazes de pensar em conjunto, o diretor acaba fazendo a inteligência coletiva parecer mais desenvolvida do que a própria narrativa.
Resta um espetáculo de horror eficiente e com um visual ocasionalmente fascinante, mas sem a combinação de adrenalina e emoção que tornou “Invasão Zumbi” memorável.