Bancos cortam Brasil e migram para exportadoras após eleição
Fonte: spacemoney.com.br | Data: 28/10/2026 05:22:41
A confirmação da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva desencadeou uma revisão acelerada das carteiras montadas para o mercado brasileiro. Em poucos pregões, Citi, BCA Research, Morgan Stanley e Bradesco BBI reduziram o grau de recomendação para os ativos locais, apontando incerteza fiscal maior, juros altos por mais tempo e piora na relação entre risco e retorno, conforme apurou o InfoMoney. O estopim foi um choque de preços: o Ibovespa teve o pior desempenho em um único pregão desde a pandemia, com recuo de 13,88%, e o real amargou desvalorização expressiva, com o dólar avançando 8,2%.
O Citi foi um dos primeiros a mexer na posição: encerrou a recomendação overweight para o país, o equivalente a uma alocação mais pesada do que a referência do mercado, e desmontou a aposta comprada na moeda brasileira. A BCA Research foi além e rebaixou as ações do Brasil de neutras para underweight, postura de alocação mais leve que o benchmark, repetindo o movimento em títulos públicos locais e em crédito soberano. A tese da casa combina atividade mais fraca, pressão sobre a inflação e piora na trajetória da dívida pública.
O Morgan Stanley ajustou a fatia do Brasil na carteira latino-americana de overweight para equal-weight, o equivalente a neutro, diante de um cenário considerado mais desafiador. Ainda assim, evitou o rebaixamento para underweight, justificando que o fato de exportadoras e bancos de grande porte terem peso relevante no índice limita uma piora mais profunda dos lucros corporativos. O Bradesco BBI cortou a exposição ao país para neutra sob o argumento de que o grosso do ajuste positivo de preços já tinha sido incorporado antes do pleito.
Exportadoras e receita em dólar ganham espaço nas carteiras
A revisão não significou abandono do mercado acionário brasileiro. A saída encontrada pelos estrategistas foi deslocar a preferência para companhias com menor dependência da atividade doméstica e maior ligação com o ciclo global. No Morgan Stanley, o ajuste principal foi ampliar a fatia de exportadoras, com aumento de posições em Vale (VALE3), Embraer (EMBJ3) e JBS (JBSS32), além do retorno de Suzano (SUZB3) à carteira modelo.
O raciocínio é que esses papéis tendem a se beneficiar de um real mais fraco e têm motores de crescimento atrelados às commodities e à demanda externa, e não ao consumo interno. O Bradesco BBI seguiu caminho parecido e trocou nomes que haviam subido com a expectativa de juros menores por empresas de perfil mais defensivo. Saíram da lista Banco do Brasil (BBAS3), Petrobras (PETR4), B3 (B3SA3), Equatorial (EQTL3), Cogna (COGN3), Cyrela (CYRE3) e EcoRodovias (ECOR3).
No lugar, entraram Sabesp (SBSP3), JBS (JBSS3), WEG (WEGE3), Embraer (EMBJ3), Suzano (SUZB3), BB Seguridade (BBSE3) e Cury (CURY3). A preferência recai sobre geradoras de caixa, pagadoras de dividendos e receitas previsíveis, perfil que costuma ganhar tração em ambientes de volatilidade elevada e liquidez mais seletiva.
Cautela com crédito, consumo e mercado de capitais
Os relatórios revelam preocupação concentrada em empresas expostas ao mercado de capitais, ao crédito e ao consumo, justamente os segmentos mais sensíveis a juros altos e a uma economia menos aquecida. O Morgan Stanley reduziu posições em B3 (B3SA3), BTG Pactual (BPAC11), XP, Nubank (ROXO34), Mercado Livre (MELI34) e Sabesp (SBSP3), avaliando que o ambiente pós-eleição tende a ser menos favorável a quem depende da expansão do mercado financeiro e da atividade interna.
O Bradesco BBI projeta desaceleração do PIB brasileiro em 2027, alta do desemprego e crescimento menor do crédito, fatores que podem travar a expansão dos lucros corporativos nos próximos anos. Ainda assim, nenhuma das instituições defende saída completa dos ativos locais. A leitura dominante é de que o mercado passou a exigir seletividade e que uma melhora na percepção fiscal, uma correção mais profunda dos preços ou um ciclo de queda de juros mais intenso poderiam reabrir espaço para reavaliação positiva, tema que segue no radar dos investimentos.